Artigo01/03/2017 às 15h30

A interoperabilidade dos big brothers

Fernando Paiva

Um dos anúncios mais marcantes este ano no Mobile World Congress, em Barcelona, foi o desenvolvimento de uma plataforma de inteligência artificial da Telefónica, que dará origem a um assistente pessoal, a Aura. Outra operadora, a sul-coreana SK Telecom, apresentou em seu stand na feira a Nugu, uma assistente pessoal materializada na forma de um cilindro com microfones, altofalantes e luz LED, criado para decorar a sala de estar e receber ordens faladas, tal como Google Home e Amazon Echo.

Ou seja, as operadoras de telecomunicações estão entrando no mercado de assistentes digitais. As teles possuem uma mina de ouro na forma de dados pessoais de seus clientes. Elas podem saber por onde andamos, com quem conversamos, como consumimos nossos planos de dados, quais serviços de valor adicionado assinamos e quanto gastamos por mês com telefonia celular. Até hoje elas não fizeram muita coisa com essas informações. No máximo uma campanha ou outra de marketing segmentado, com envio de SMS ou a ligação de uma funcionária de telemarketing para oferecer a migração para um novo pacote. Isso vai mudar. E os anúncios da Telefónica e da SK Telecom mostram o caminho.

Quem já utiliza big data há muito tempo é a dupla Google e Facebook. E os dois sabem ainda mais informações sobre a gente do que as teles. Sabem o que visualizamos online, quem são nossos amigos, por onde andamos, dentre outras coisas.

Em outra frente, conforme nossos pagamentos migram de dinheiro vivo para transações digitais, os bancos e as bandeiras de cartão de crédito conhecem cada vez melhor os nossos gastos.

Por fim, com o advento de aparelhos digitais para monitoramento de saúde e de esportes, surgem empresas que conhecem o nosso condicionamento físico e as doenças que temos.

Hoje, nossas vidas estão fragmentadas como peças de um quebra-cabeças nas mãos de meia dúzia de gigantes internacionais. O que aconteceria se as peças fossem juntadas? Teria-se uma visão praticamente completa de cada um de nós, algo mais impressionante que o big brother imaginado por George Orwell no livro 1984. Provavelmente as empresas nos conheceriam melhor do que nós mesmos nos conhecemos. Isso pode ser usado para finalidades dignas e razoáveis... ou não. Por isso é tão importante se discutir leis de proteção de dados pessoais e garantir a nós, consumidores, o direito de gerenciar quais dados desejamos compartilhar, quando, com quem e para quais finalidades. É preciso que tenhamos o controle sobre isso. Ou seremos controlados.