Inteligência artificial03/02/2017 às 09h10

Inteligência artificial à brasileira

Fernando Paiva

Inteligência artificial é o termo da moda hoje nos noticiários de tecnologia. Cada vez mais comum em smartphones, apps e chatbots, ela passou a fazer parte do vocabulário diário para quem lida com tecnologia móvel. A maioria das notícias nessa área diz respeito a produtos desenvolvidos por gigantes multinacionais, como Google, IBM, Microsoft, Amazon e afins. Mas para que um produto seja criado e chegue às mãos dos consumidores, ele depende antes de muitos anos de pesquisas. Estas, em geral, começam nas universidades, para depois serem aprimoradas e adaptadas em laboratórios da iniciativa privada. Diante disso, qual pode ser a contribuição da academia brasileira no desenvolvimento da inteligência artificial? Para responder a essa pergunta, Mobile Time entrevistou pesquisadores de três instituições renomadas de pesquisa no Brasil: João Paulo Magalhães, especialista em inteligência artificial do CESAR; Geraldo Xexéo, professor de engenharia de sistemas da Coppe-UFRJ; e Marcelo Finger, professor do departamento de ciências da computação do IME-USP. Os três concordam que o processamento de linguagem natural (PLN) em português é uma das áreas onde o Brasil está se destacando positivamente.

"O Brasil certamente é o maior player dos países de língua portuguesa e pode contribuir bastante com este viés, visto que as ferramentas de processamento de linguagem natural são peças importantes, ou a porta de entrada, no uso de outros produtos e serviços. A cultura também é um fator importante, então existe um nicho de customização e adaptação destas ferramentas para seu uso no Brasil e em outros países de língua portuguesa, além da América Latina como um todo", comenta Magalhães, do CESAR. "Obviamente, o Brasil tem uma obrigação moral de estar na vanguarda (de PLN em português), e temos cumprido essa obrigação", concorda Finger, do IME-USP.

Para Xexéo, da Coppe-UFRJ, a complexidade da língua portuguesa conta a favor dos pesquisadores nacionais: "Uma solução boa em português pode ser repetida em outras línguas de forma até melhor, por causa de idiossincrasias do português. O inglês, por exemplo, é mais fácil de processar do que o português, pois tem menos variações nos verbos."

Da vacina da dengue ao monitoramento das redes sociais

Há inúmeras pesquisas acadêmicas em andamento no Brasil que utilizam técnicas de processamento e análise de texto nas mais variadas áreas. Finger cita uma do Instituto Butantã sobre as reações decorrentes da vacina de dengue: nesta pesquisa, estão sendo analisadas as descrições feitas pelos médicos que atenderam cerca de 17 mil pessoas que receberam uma primeira versão da vacina. É preciso correlacionar as palavras usadas com códigos padronizados que representam os efeitos colaterais. As técnicas que estão sendo usadas poderão ser aplicadas posteriormente em pesquisas para vacinas de outras doenças, como zika e febre amarela, diz o professor.

Há também muita demanda por processamento de linguagem natural para a automatização de processos no Direito. Desde escritórios júnior que auxiliam na defesa jurídica de  pessoas de baixa renda até o Supremo Tribunal Federal têm experiências em andamento com inteligência artificial para simplificar e acelerar processos e análises de dados, afirma Finger. Da mesma forma, a análise de notícias de jornais e o monitoramento das redes sociais têm atraído o interesse de pesquisadores e de empresas. E agora vem também a onda dos chatbots, para a automatização do atendimento ao cliente, tanto em processos de pré quanto de pós-vendas, com o objetivo de reduzir os custos com call center. Técnicas de processamento de linguagem natural, se bem aplicadas, podem ser fundamentais para o sucesso de um chatbot.

Por falar em chatbots, na Coppe-UFRJ, por exemplo, Xexéo está trabalhando em duas pesquisas que poderão ser aplicadas nos robôs de conversação. A primeira consiste em usar técnicas de mineração de processos em um log de conversações para melhorar o ensino de um motor de processamento de linguagem natural. Ou, em outras palavras, aproveitar um histórico de conversas armazenadas por um determinado canal de atendimento para facilitar e acelerar a construção de um chatbot. A outra pesquisa tem como objetivo identificar emoções momentâneas de um interlocutor, o que pode alterar o fluxo da conversação por parte do robô.

Da universidade para a iniciativa privada

O interesse do mercado, por vezes, acaba pautando as atividades acadêmicas. "O CESAR tem percebido, sim, um aumento substancial na demanda por produtos e serviços que sejam essencialmente ferramentas de inteligência artificial ou que usem desta como fator diferencial em áreas diversas", comenta Magalhães.

Em alguns casos, pesquisadores de inteligência artificial acabam virando empresários. Um exemplo é a start-up GPE, fundada por ex-alunos e professores de doutorado da Coppe-UFRJ. "Montamos a empresa para aplicar no mercado as pesquisas que vinham sendo desenvolvidas na universidade", relata Ricardo Gondim, CEO e um dos sócios da GPE. A empresa é especializada em técnicas de análise de texto capazes de filtrar ruídos durante o monitoramento de redes sociais. Em breve, lançará três produtos: uma ferramenta de monitoramento de mercado, usando inteligência artificial para acompanhar redes sociais, jornais e revistas; uma plataforma omnichannel para relacionamento com consumidores (o que pode envolver um chatbot); e uma solução de planejamento de marketing digital. "Nós temos uma assertividade grande para o português brasileiro. Os testes que fizemos demonstram que temos uma vantagem competitiva", afirma o executivo.

Outros exemplos são a BotDaddy, start-up de construção de chatbots criada por mestrandos da USP,  e a InSite, também oriunda da USP, responsável pelo projeto do Robô Ed, da Petrobras.

E há também empresas mais antigas atraindo novos talentos da academia para ajudar na elaboração de produtos com inteligência artificial. É o caso da mineira Take, que usou o Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para contratar dois pesquisadores que a ajudaram no desenvolvimento da sua plataforma de chatbots, a BLiP.

Tradição acadêmica

Finger, do IME-USP, ressalta que o Brasil tem tradição em pesquisa em outras áreas relacionadas à inteligência artificial, como lógica matemática, dedução automática e redes bayesianas. E reforça que, embora inteligência artificial esteja na moda nos meios de comunicação, é tema de estudo nas universidades brasileiras há muito tempo.

"A inteligência artificial desperta interesse acadêmico por aqui há décadas. É uma área que tem atraído no Brasil um número preponderante de pesquisadores de pós-graduação há bastante tempo. Não se trata mais de uma área na sua infância no que tange a pesquisa acadêmica nacional", relata.

Está na hora, portanto, de a indústria nacional aproveitar o conhecimento construído em décadas de pesquisa de inteligência artificial nas universidades brasileiras e aplicá-lo em soluções para os seus problemas ou no desenvolvimento de novos produtos. Magalhães, do CESAR, resume: "O sentimento que temos é que estamos passando por uma oportunidade histórica sem precedentes e as empresas que não fizerem parte desta mudança correm sérios riscos".

Bots Experience Day

A aplicação de inteligência artificial em chatbots será um dos temas do Bots Experience Day, seminário sobre o mercado de chatbots que acontecerá no dia 20 de março, no WTC, em São Paulo. O evento é organizado por Mobile Time e conta com palestrantes confirmados de empresas como Oracle, Take, InSite, Outra Coisa, Nama e do governo do estado de São Paulo. Para mais informações, acesse www.botsexperienceday.com.br

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