Artigos04/04/2018 às 11h48

Inteligência artificial VS proteção de dados pessoais

Fernando Paiva, do Mobile Time

A inteligência artificial é considerada por especialistas como uma nova revolução tecnológica em curso no mundo, cujo impacto tende a ser maior do que aquele provocado pela Internet. Suas bases teóricas existem há décadas no âmbito acadêmico, mas faltava um insumo fundamental que só agora se encontra disponível: uma grande quantidade de dados, assim como a capacidade para processá-los e analisá-los rapidamente.

A abrangência dos dados pode ser individual ou alcançar até a população de uma nação inteira, ou de todo o planeta. No primeiro caso, serve de exemplo qualquer serviço de entretenimento digital que faz recomendações personalizadas com base na análise do histórico de uso de cada pessoa. Netflix e Spotify fazem isso para sugerir filmes e músicas. Ao mesmo tempo, governos e empresas dos mais variados setores podem realizar análises de dados de grandes quantidades de indivíduos para identificar padrões. Uma operadora de telefonia, por exemplo, já consegue prever quando um cliente está prestes a cancelar seu plano com base no comportamento de milhares de outros que cancelaram anteriormente, o que permite identificar algumas características em comum que antecedem sua saída.

A inteligência artificial serve a qualquer vertical da economia, para praticamente qualquer atividade. Quanto mais dados coletados, por mais tempo, maior o potencial de assertividade dos algoritmos criados. Por isso, empresas que lidam com grandes bases de usuários estão se estruturando para não apenas armazenar, mas analisar os dados dessas pessoas. Isso vale para companhias dos mais variados ramos, desde o entretenimento até a saúde, passando por serviços financeiros, seguradoras, telecomunicações, varejistas etc. Em maior ou menor grau, várias delas estão adotando mecanismos de inteligência artificial para melhorar os seus produtos e aumentar seus lucros. E tais ferramentas seguem sendo aperfeiçoadas continuamente. Quem ainda não usa, ou está construindo agora suas soluções ou no mínimo está estudando o assunto.

Ao mesmo tempo, os dados ganham mais valor quando cruzados entre diferentes bases. Se uma seguradora puder ter acesso aos dados de um serviço de monitoramento de saúde, ou um banco  conseguir cruzar seus dados com aqueles de empresas de telefonia, torna-se possível conhecer ainda melhor os hábitos dos consumidores e identificar novos padrões de comportamento.

O problema é que falta hoje uma legislação ou regulamentação clara sobre como os dados das pessoas podem ser utilizados pelas corporações. Em geral cada empresa estabelece regras próprias, descritas em linguagem de difícil compreensão e perdidas no meio de inúmeras cláusulas de extensos documentos de termos de serviço que nenhum consumidor se dá ao trabalho de ler. O resultado é que existe hoje um verdadeiro faroeste no que diz respeito à utilização dos dados coletados. Na prática, algumas empresas se sentem à vontade de fazer o que quiserem com as informações de seus clientes, inclusive vendê-las a terceiros, amparadas pela falta de clareza legal e pela nebulosidade ética em torno da questão.

A discussão começa a rachar o setor de tecnologia, com gigantes digitais se posicionando em lados opostos das trincheiras, vide o bate-boca virtual entre os CEOs de Apple e Facebook nos últimos dias – a primeira se posicionando como defensora dos dados de seus usuários, enquanto a segunda os utiliza para gerar receita publicitária em troca de um serviço gratuito.

Enquanto isso, governos acordam para a questão. É o caso da Europa. O parlamento europeu aprovou uma lei geral de proteção de dados (GDPR, na sigla em inglês), que cria uma série de exigências para as empresas e que, na prática, confere ao consumidor maior controle sobre quais dados são coletados e como são utilizados. A iniciativa europeia é uma reação ao caos que vigora até então. Sua implementação vai influenciar governos do mundo inteiro a repensar suas legislações sobre o assunto – o Brasil, por exemplo, até hoje não tem uma lei dedicada ao tema, embora o assunto seja tratado de certa maneira pelo Marco Civil da Internet.

À primeira vista, a regulação do tratamento dos dados pessoais poderia ser encarada como um freio à revolução da inteligência artificial. Eu encaro de outra forma: trata-se de um cuidado necessário para que essa revolução aconteça de forma ordeira e transparente, trazendo mais benesses que malefícios para a sociedade. A revolução vai acontecer, ela é inevitável. Melhor termos um barco seguro e confortável para surfar esta onda do que sermos levados por um tsunami, sem qualquer proteção.

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O debate sobre o impacto da inteligência artificial e dos bots nos mais variados setores da economia brasileira vem acontecendo há três edições no seminário Bots Experience Day, organizado por Mobile Time. E não será diferente na próxima edição, que acontecerá nos dias 8 e 9 de agosto no WTC, em São Paulo. A agenda prévia será divulgada nas próximas semanas.

Fernando Paiva é editor do Mobile Time