Artigo07/12/2016 às 08h30

Descansem em paz, ringtones

Fernando Paiva, do Mobile Time

A gurizada de 14 anos que passa o dia no Snapchat trocando vídeos de 10 segundos que se autodestroem não era nem nascida em 2001, quando surgia no Brasil o mercado de ringtones. As campainhas telefônicas foram o primeiro conteúdo móvel de sucesso, ou seja, que gerou receita de verdade, muito antes de Steve Jobs sonhar com apps.

Os ringtones vieram junto com os primeiros modelos de celulares digitais, época em que a Nokia começou a construir o seu império. Aliás, um dos diferenciais da fabricante finlandesa era justamente o fato de trazer na memória algumas dezenas de diferentes toques para celular. Começava ali o processo de personalização dos telefones móveis, que depois ganharia outros contornos, como papéis de parede, launchers (iniciadores), capinhas para celular etc. Logo surgiram empresas que criavam ringtones e os disponibilizam à venda através de portais WAP ou solicitações por SMS. As pessoas pagavam alguns Reais para baixar o toque com o hino do seu clube de futebol, com o hit do momento ou com a música de abertura da novela.

Em uma primeira fase, os ringtones existiam em um formato conhecido como monofônico, que consistia em tocar uma nota de cada vez. Não era a música em sua gravação original, mas apenas a sua melodia principal em uma sonoridade, digamos, robotizada. Depois vieram os ringtones polifônicos, em que era possível construir uma harmonia, com vários instrumentos artificiais soando ao mesmo tempo. Ainda não era a gravação original, mas a música ficava mais reconhecível. As empresas de desenvolvimento de ringtones contratavam músicos para fazer esse trabalho de reconstruir os arranjos das canções de sucesso em forma de campainhas telefônicas. E havia até mesmo microestúdios em seus escritórios.

A mineira Take foi a maior empresa brasileira nessa era dos ringtones. Seus sócios tinham uma  loja de celulares e logo perceberam que a presença de campainhas telefônicas diferentes na memória era um diferencial de vendas. Incentivados pela Nokia, acabaram construindo uma plataforma própria para a comercialização de ringtones. Suas primeiras campainhas foram da banda mineira Jota Quest. E a primeira operadora a vendê-los foi a extinta Americel, que atuava no Centro-Oeste – hoje faz parte da Claro. Em pouco tempo, a Take, que então se chamava Takenet, levou seus ringtones para todas as operadoras que atuavam no Brasil.

O auge desse mercado foi em 2004, quando a Take chegou a vender 250 mil ringtones em um único dia e cerca de 7 milhões em um mês, seus recordes. O sucesso chamou a atenção e houve até uma tentativa do ECAD de receber direitos autorais com o argumento de que o toque de campainha seria uma execução pública.

De lá para cá os ringtones evoluíram. Vieram os chamados "true tones", que eram ringtones com trechos das gravações reais, geralmente os refrões. E depois os "full tracks", que, basicamente, eram os MP3s inteiros. O advento dos smartphones e o avanço das redes móveis possibilitaram a chegada de serviços de streaming de música, como Rdio, Spotify, Deezer, Google Play Music etc, e o mercado de música móvel se transformou completamente. Talvez o herdeiro dos ringtones sejam os chamados "sons de chamada", ou ringback tones, que consistem na escolha de uma música para ser ouvida por quem liga para o usuário – neste caso não precisa da memória do celular, pois o serviço fica hospedado em uma plataforma na operadora de quem recebe a chamada.

Hoje 90% dos telefones móveis vendidos no Brasil são smartphones. Ninguém fala mais de ringtones. Mas quando foi que os ringtones morreram? Faz quanto tempo? Bom, faz menos tempo do que se imagina. Tive a oportunidade de visitar na semana passada, pela primeira vez, em Belo Horizonte, a sede Take. Fiquei surpreso ao saber que a sua venda de ringtones foi encerrada há apenas quatro meses, em agosto deste ano. E ainda eram comercializados cerca de 10 mil ringtones por mês, somando todos os tipos, inclusive monofônicos. No auge, 12 anos atrás, a empresa chegou a ter 13 músicos entre seus empregados trabalhando na produção das campainhas. Nesses últimos anos de sobrevida dos ringtones, essa tarefa estava sendo terceirizada. Mas o estúdio onde os músicos da Take trabalhavam, com seu vidro duplo e parede com tratamento acústico, continua de pé, no escritório da empresa (veja a foto acima). Agora serve como uma pequena sala de reunião. Para mim, que escrevo sobre conteúdo móvel há 16 anos, foi praticamente uma expedição arqueológica entrar naquele antigo estúdio e imaginar como deve ter sido intensamente usado na década passada. Que os ringtones descansem em paz. Longa vida para o conteúdo móvel, seja de que forma for, ou em que aparelho for!

Fernando Paiva é editor do Mobile Time