Artigo08/02/2017 às 08h26

Os superphones de antigamente

Fernando Paiva, do Mobile Time

Cerca de cinco anos atrás, em maio de 2012, eu escrevi um artigo no Mobile Time sobre o que chamava de "superphones". O contexto era o seguinte: eu previa que o nome "smartphone" perderia o sentido quando os fabricantes parassem de produzir feature phones e que, mais cedo ou mais tarde, os publicitários inventariam uma nova palavra para classificar os aparelhos top de linha. Eu apostei que esse nome seria "superphone", termo que chegou a circular em alguns sites estrangeiros anos atrás.

Na época, estávamos avaliando no Mobile Time a possibilidade de lançar um site novo que fosse dedicado a esses superphones e que comparasse as especificações dos modelos de cada fabricante. Uma das dúvidas que tínhamos era justamente os critérios para a definição de um "superphone". Eu já tinha um mínimo de experiência no setor de tecnologia para saber que esses critérios mudariam constantemente, por conta das inúmeras inovações que aparecem a cada ano. Lembro que, naquele tempo, nossa ideia era classificar inicialmente como superphone somente os modelos que tivessem processador dual-core ou superior. Eram pouquíssimos produtos, apenas os top de linha.

O site nunca entrou no ar. Por razões diversas, o projeto foi abandonado antes mesmo de nascer. Mas é engraçado lembrá-lo cinco anos depois. Estávamos certos na previsão de que os smartphones dominariam o mercado: hoje, cerca de 90% das vendas no Brasil são smartphones e poucos fabricantes ainda contam com feature phones em seus portfólios. O termo "superphone", por outro lado, não colou. E sequer apareceu algum para cumprir essa função de diferenciação de categoria – na prática, a valorização dos aparelhos mais caros acaba sendo feita através da promoção das marcas, como a família Galaxy S, da Samsung, ou o iPhone, da Apple.

Mas o que me deixa mais curioso é pensar em qual seria o critério hoje para classificar um superphone? Dual-core, por exemplo, virou item comum até em aparelhos de entrada. A LG apresentou esta semana o seu portfólio de 2017: o modelo mais barato é o novo LG K4, que custa R$ 699  e tem processador quad-core de 1,1 GHz. Cinco anos atrás ele seria um superphone, hoje é um aparelho como outro qualquer. Já há modelos com processador de oito núcleos, vide o o Galaxy S7, com quatro processadores de 2,3 GHz e quatro de 1,6 GHz. O iPhone 7Plus é um quadcore de 2,3 GHz.

Uma boa linha de corte poderia ser a memória RAM. São poucos os modelos com 3 GB de RAM ou mais. O S7 tem 4 GB e o iPhone 7Plus tem 3 GB. Mas no fundo qualquer critério adotado poderia ser falho em certa medida ou se tornar obsoleto rapidamente, devido ao avanço da tecnologia. A verdade é que já vivemos a era dos superphones. Os aparelhos que levamos nos bolsos são mais potentes que muitos computadores de mesa. Aliás, têm processadores melhores que aqueles que estavam no foguete que levou o homem à Lua na década de 60. A diferenciação agora virá de funcionalidades especiais, não necessariamente relacionadas à sua capacidade de processamento. Refiro-me a sensores extras, como leitores de digital e de íris; ou maior robustez, como resistência a choque, água e poeira; ou inovações no design, como telas curvas ou, em breve, flexíveis. Podem seguir chamando de smartphone, mas essa categoria de produto não vai parar de se transformar.

Fernando Paiva é editor do Mobile Time