Artigo08/03/2017 às 09h41

A afobação com os wearables

Fernando Paiva

Acho que a indústria móvel errou no "timing" com os wearable devices. Ou, para usar uma outra expressão popular, "queimou a largada". Isso ficou claro para a mim nesta última edição do Mobile World Congress. Os wearable devices, que haviam sido a coqueluche da feira dois anos atrás, quando os stands dos fabricantes pareciam relojoarias, agora mal foram vistos, tendo tido pouco destaque.

Na minha opinião, a indústria se afobou na promoção desses produtos, dois anos atrás. Deslumbrada com a possibilidade de estar criando uma nova categoria de bem de consumo, cuja demanda poderia substituir eventualmente aquela dos smartphones, que já está diminuindo, a indústria apostou alto nos wearables, mas lançou os produtos um pouco antes da hora, quando ainda não estavam suficientemente maduros para a massificação desejada.

Houve, sim, um boom de compras no início, incentivado pela empolgação dos fabricantes e da mídia especializada – e aqui faço um mea culpa, pois no Mobile Time surfamos essa onda também. Eu mesmo fui dos primeiros usuários de smartwatch no Brasil, com um Moto 360 comprado tão logo chegou às lojas. Assim como eu, vários outros early adopters, como são chamados os consumidores que gostam de experimentar novas tecnologias, adquiriram smartwatches dois anos atrás. Porém, no dia a dia, constatei os problemas de um produto que ainda precisava ser melhorado. Listo aqui os principais:

1) O primeiro problema é ser obrigado a carregar a bateria do relógio todo dia. Mal suportamos ter esse trabalho com o smartphone, o que dirá de um novo produto que ainda não comprovou ser essencial em nosso cotidiano.

2) Outro problema é a falta de flexibilidade na configuração das notificações em nosso pulso. Quando testei, dava para escolher quais apps podiam enviar notificações. Mas não é suficiente. Explico: posso querer receber no pulso notificações de mensagens do Whats App ou de emails, mas não de todas as mensagens e emails, mas talvez de apenas alguns remetentes. A notificação no relógio chama muito a atenção do usuário, muito mais que no celiular, e você fatalmente olha o pulso para ver do que se trata. Por isso mesmo, deveria ser possível restringir de maneira mais criteriosa as notificações no relógio.

3) Há ainda os problemas de design. Faltam modelos de tamanho pequeno, atraentes para o público feminino. A maioria dos relógios são gradalhões.

4) E há uma questão relacionada à durabilidade... Em um ano e meio tive dois smartwacthes e ambos quebraram. O primeiro não resistiu a um mergulho em uma piscina infantil, embora suas especificações indicassem que aguentaria até 30 minutos em até 1 metro de profundidade. Insisti comprando um segundo relógio, mas o encaixe com a pulseira quebrou depois de alguns meses de uma maneira que era impossível consertar, nem mesmo trocando a pulseira. Talvez tenha quebrado de tanto ter que tirar e botar pra carregar ou entrar no banho.

Depois disso, resolvi dar um tempo com o smartwatches. Ao parar de usá-los, percebi que o que mais sentia falta era de ver as horas no pulso, em vez de tirar o celular do bolso. E para isso não preciso de um relógio inteligente, basta um tradicional com ponteiros. Enfim, aguardo agora o amadurecimento dos smartwatches para voltar a experimentá-los. Pelo visto, não sou o único. Acho que a indústria resolveu pisar no freio, retornar aos laboratórios e ser mais cautelosa na promoção desses produtos..