Estratégia09/03/2017 às 13h30

Nextel considera default se não conseguir comprador ou saída para refinanciar dívidas

Bruno do Amaral

Ao apresentar nesta quinta-feira, 9, seu resultado financeiro referente ao ano passado, a Nii Holdings, controladora da Nextel Brasil (que é seu único ativo atualmente), reconheceu que a situação da empresa está cada vez mais complicada no País. O grupo norte-americano justifica que a pressão da concorrência, o declínio da base iDEN, a desvalorização do real e especialmente a crise econômica brasileira pressionaram o caixa da operadora, deixando-a com duas opções: encontrar um comprador ou tentar achar novas formas de capitalizar a operação. E o prazo é até março do ano que vem. Caso não consiga renegociar acordos para pagar os credores, a empresa considera o calote.

A companhia diz que, apesar dos esforços para melhorar os resultados operacionais, os desafios e a dívida têm "colocado pressão significativa na nossa habilidade de financiar nosso negócio para além do primeiro trimestre de 2018". A companhia e os credores dos empréstimos em bancos brasileiros concordaram no mês passado em colocar emendas nos acordos para suspender os principais pagamentos por quatro meses (efetivos a partir de 2 de março). Assim, a empresa ganha algum tempo para tentar arrolar a dívida, obtendo modificações de longo prazo nos acordos de financiamento, incluindo "potenciais extensões futuras do alívio de amortização existente".

De qualquer forma, a Nii contratou no ano passado uma consultoria de investimentos terceirizada para explorar "opções estratégicas" para achar um possível interessado em comprar a operadora – ou, pelo menos, achar recursos para financiamentos que permitam à empresa atender as obrigações futuras. "Embora continuemos a focar em efetivamente gerenciar nossos negócios no Brasil, a viabilidade de longo prazo de nossos negócios é dependente do resultado de um ou mais dos processos externos descritos serem bem sucedidos", declara a empresa. Caso o default afete os controles de qualidade, a empresa pode perder até a licença do uso da marca Nextel em 60 dias.

Isso significa que a Nextel precisa obter alívio das dívidas ou terá de aumentar o capital para financiar o plano de negócios. No entanto, por conta das incertezas, acredita que será difícil obter recursos. Assim, se não conseguir recuperar o caixa com as garantias de títulos baseados em desempenho, a empresa precisará obter financiamento adicional já nos próximos seis a 12 meses e "reduzir significativamente os gastos planejados para assim preservar a liquidez".

De acordo com a Nii, os recursos em caixa da companhia ao final de 2016 eram de US$ 331 milhões para investimentos em curto prazo, US$ 163 milhões para garantias de obrigações com a venda da Nextel México, e US$ 87 milhões em dinheiro para garantias de certos títulos de desempenho no Brasil. Em 2017, a empresa deverá pagar US$ 225 milhões em juros de dívida, incluindo empréstimos, e espera uma queima de caixa operacional entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões. A empresa gerou fluxo de caixa negativo em 2016, e espera que isso se repita em 2017, mas a previsão é de manter o Capex. A dívida total da Nextel Brasil era de US$ 756,3 milhões em dezembro de 2016. Desse total, US$ 291,6 milhões é de financiamento de equipamentos, US$ 242 milhões de empréstimos bancários, US$ 125,7 milhões com gastos de espectro, US$ 96,7 milhões com empréstimos e obrigações com torres e US$ 237 mil com demais dívidas.

Cenário difícil

A controladora da Nextel cita o cenário econômico brasileiro como "uma das piores recessões econômicas na sua história", o que afeta a indústria de telecomunicações ao representar menor crédito para o consumidor e pressão na demanda, precificação e valor de negócios para o consumidor. Declara ainda que o setor é caracterizado por uma intensa competição baseada em preço, tipos de serviço, velocidade de acesso e qualidade do serviço, e que muitos dos competidores têm uma capacidade de espectro superior, com melhor cobertura, e a capacidade de vender pacotes convergentes. A Nii ainda fala em instabilidade política, que poderia afetar acesso ao mercado de capitais para obter fundos ou refinanciar a dívida, ou mesmo "expropriar ou nacionalizar nossos ativos pelo governo". E critica o aumento do ICMS em certos estados com "interpretações agressivas da lei tributária".

Para manter a operação durante o ano, a estratégia da companhia continuará focada nos segmentos de alto valor, que geram ARPU maior; lançamento de canais de distribuição totalmente digitais; redução de custos para melhorar a lucratividade; fechamento de lojas físicas não rentáveis; continuar a migração da base iDEN para 3G e 4G; revisar as estratégias de comissão e subsídios; eliminar Capex não crítico; incentivar aquisições de novos serviços para clientes que já têm aparelhos; enxugar as operações no escritório da sede; e continuar a perseguir iniciativas para manter e melhorar a liquidez existente.

Na questão operacional, a companhia cita o RAN sharing com a Vivo e a oportunidade de usar 30 MHz de espectro na banda de 1,8 GHz em São Paulo (onde já opera com LTE desde dezembro passado), frequência obtida por R$ 455 milhões no leilão de sobras de 2015. A Nextel continua a avaliar o uso da faixa de 800 MHz para 4G, a depender de compatibilidade da rede e mesmo de terminais de usuários compatíveis. Além disso, a empresa não tem a mesma fatia da banda utilizada com LTE em outros países como os Estados Unidos, então ela considera que pode ser necessária uma mudança regulatória para reconfigurar o espectro para que possa ser utilizado de forma eficiente com 4G.