Realidade aumentada09/03/2018 às 17h42

Iniciativas em AR no Brasil mostram tecnologia amadurecida

Isabel Butcher

O grande público comprovou o potencial da realidade aumentada (AR) durante a febre Pokémon Go. A mídia social Snapchat também virou febre com tecnologia para inserir objetos em 3D em fotos e vídeos, mas com o nome de “world lenses”. E, no momento, a grande expectativa para seu uso está no game da Niantic, Harry Potter: Wizards Unite, que promete mesclar AR com gráficos 3D, bem nos moldes de Pokémon Go. Seu lançamento está previsto para o primeiro semestre de  2018 e vai transformar seus jogadores em verdadeiros magos de Hogwarts. Para completar a grande onda de AR o Google anunciou no fim de fevereiro o lançamento da sua plataforma ARCore de realidade aumentada. Sua versão 1.0 está disponível para mais de 100 milhões de dispositivos Android. No Brasil, a tecnologia também está em processo de amadurecimento e é possível encontrar uma série de iniciativas em diferentes verticais. Mobile Time apresenta algumas delas nesta matéria.

As tecnologias mais relevantes

A realidade aumentada é uma das tecnologias mais importantes para os próximos anos. De acordo com a pesquisa realizada pela PwC Tech breakthroughs megatrend: how to prepare for its impact (ou, em português, Tendência dos avanços tecnológicos: como se preparar para seu impacto), o mercado da realidade aumentada deve passar os US$ 80 bilhões até 2022. Não é à toa, portanto, que Tim Cook, CEO da Apple, afirma que a AR será tão importante quanto a criação dos smartphones.

A PwC detectou uma preocupação por parte dos CEOs sobre o impacto das tecnologias nas indústrias. Muitos se sentem atordoados e, de acordo com a Pesquisa Global da empresa, 61% disseram que estavam preocupados com a velocidade da mudança tecnológica em suas indústrias.

Para ajudar os CEOs em suas jornadas tecnológicas, a PwC avaliou mais de 150 tecnologias em todo o mundo e desenvolveu uma metodologia para ajudar a identificar as mais pertinentes a uma determinada empresa ou indústria. Dessas 150 opções, a prestadora de serviços em auditoria e asseguração destacou oito delas e afirmou que estas serão as mais influentes em empresas em todo o mundo num futuro próximo. A realidade aumentada faz parte desse seleto grupo, além de Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, robótica, impressoras 3D, realidade virtual, drones e blockchain.

“Essas oito tecnologias que a gente acabou escolhendo são aquelas que a gente entende que têm maior adoção neste momento de mercado. No caso da realidade aumentada, ela já é uma realidade. O Pokémon Go foi uma coqueluche, mas hoje você tem empresas que adotaram a tecnologia. Hoje, no Brasil, algumas já usam realidade aumentada em livros, canecas, logos. Por exemplo, num estande de demonstração, o atendente pode colocar um tablet sobre um livro e aparecem todas as informações sobre aquele exemplar, inclusive posicionamento nas gôndolas”, explica Tomas Roque, um dos sócios da PwC.

Concentrix

Mas não é apenas no entretenimento que a AR pode se fazer presente. Imagine entrar numa farmácia, apontar seu celular para um medicamento e, ali mesmo, sem abrir o remédio, ler sua bula, informações clínicas e até mandar uma mensagem via Facebook ao laboratório, clicando em ícones de AR. Ou então apontar o celular para o logo de uma marca e, a partir daí, navegar por um mar de dados sobre ela. A Concentrix, empresa de contact center, desenvolveu um aplicativo de realidade aumentada para incrementar a relação entre consumidor e laboratórios farmacêuticos.

"Com essa solução saímos do lugar comum. O consumidor terá tudo na palma da mão, na tela do celular, e não vai mais precisar procurar pelo telefone, Facebook de determinada empresa ou consultar a Internet para saber as especificidades de algum produto. Tudo muito alinhado não apenas à nova geração, mas ao ambiente digital que todos nós vivemos hoje", comenta o country manager da Concentrix no Brasil, Daniel Moretto.

A compania imagina que o serviço poderá beneficiar diferentes verticais. Para os setores de tecnologia, mídia e telecomunicações, por exemplo, os consumidores poderão resolver problemas técnicos por meio de vídeos com conteúdos e dicas de suporte técnico para problemas; carregar assistentes virtuais que podem proporcionar interação digital com o cliente; e carregar widgets em que o cliente possa acessar a página da marca nas redes sociais, site e comunidade.
Já na área automotiva, o cliente poderá assistir a vídeos com instruções para substituição de peças quando o motor apresentar problemas; tutoriais com consultas típicas disponíveis no manual do veículo, entre outros.

Os setores de varejo e bens de consumo também foram contemplados. Empresas do ramo de alimentos e bebidas poderão se beneficiar ao lançar um novo produto no mercado ou promover uma campanha para seu lançamento, oferecendo jogos promocionais, por exemplo. Além disso, com a ferramenta, os consumidores poderão obter informações sobre o produto, podendo verificar a embalagem através de seus smartphones e conhecer os benefícios daquele produto para a saúde, além de outras informações.

PlayKids

O PlayKids (Android, iOS), aplicativo que desenvolve produtos tecnológicos para crianças, criou o Kit Explorer, uma série de itens personalizados que inclui, além de um livro, cards mágicos, ou seja, cartões interativos que, por meio da realidade aumentada, libera games e curiosidades sobre o tema do livro. Para usá-los é preciso baixar o app e clicar em “câmera mágica”. Por exemplo, se o livro é uma história com dinossauros, então os cards mostram Tiranossauro Rex, Velociraptor, Estegossauro, e Pterodonte. Com esses cards, basta apontar o celular para as imagens que o dino aparece no meio da sua sala. É possível girá-lo, fazê-lo andar ou até mesmo correr (ou voar). Um áudio complementa as informações do card, com curiosidades sobre os animais. Um outro card se transforma num jogo de colorir os animais pré-históricos.

"Com essa tecnologia, somos capazes de levar a criança a lugares que ela jamais imaginou ter acesso. Consigo trazer, com um nível alto de detalhes, objetos, cenas, locais, experiências que ela jamais teria, e promover a interatividade dela com esses elementos. Nosso roadmap está bem completo, então, ao longo dos meses, a criança terá diferentes experiências com a realidade aumentada”, conta o diretor de produto e tecnologia da PlayKids Breno Masi.

Para os próximos meses, a equipe promete incrementar ainda mais os produtos que vêm no kit com AR. Ela estará, em breve, nos livros: as crianças poderão interagir ainda mais com a câmera e com elementos 3D ao gravar vídeos ou tirar fotografias.

“Com a realidade aumentada, a criança não se fecha. Ela consegue interagir com amigos, com os pais. Você consegue brincar em conjunto. A partir do momento que você coloca uma realidade virtual, onde você depende de um device externo, você está fechando a pessoa naquilo. Você a coloca num ambiente que é só dela. Isso é ruim para a criança. Por isso, não adotamos a realidade virtual”, explica Masi.

Via Varejo

O mundo do varejo também está de olho no potencial da AR. Para o diretor de TI da Via Varejo, Marcos Teixeira, a tecnologia finalmente chegou à sua maturidade. “O consumidor está mais preparado para receber esse tipo de tecnologia e os desenvolvedores estão mais experientes. No varejo, temos um leque de oportunidades. Hoje, é possível um ciente comprar um sofá com muito mais certeza. Ele visualiza o sofá no ambiente que deseja e, no aplicativo de realidade aumentada, consegue ter boas noções de dimensão, cor, textura e aquela dúvida de como encaixar o sofá pode ser tirada com alguns cliques. Isso é só o início do uso da AR”, afirma.

A tecnologia também pode ajudar o consumidor na fase de pós-venda para obter mais facilmente informações sobre como montar/instalar um produto (quem nunca sofreu com um manual?) e ter acesso a dicas técnicas de utilização do produto. Basta apontar a câmera do celular para a caixa ou para o objeto e a ajuda chega.

“Também podemos fazer promoções personalizadas, por exemplo. Caso um cliente chegue a uma de nossas lojas e aponte seu celular para um produto, podemos oferecer uma oferta especial e interagir melhor com essa pessoa. É importante que todas essas ações que podemos fazer por meio da tecnologia tragam valor ao cliente e melhorem sua experiência de compra”, diz Teixeira.

A Via Varejo está preparando um novo aplicativo para suas marcas Casas Bahia e Pontofrio. No momento, começam as fases de teste do app em abril e estimam o lançamento para até o fim de maio.