Artigo09/11/2016 às 14h46

Fraude OTT bypass: ameaça ou oportunidade?

Sandra Costa, da WeDo Technologies

No mundo conectado de hoje, a maneira como usamos a tecnologia para se comunicar está em constante evolução. A disponibilidade de acesso rápido à Internet móvel, juntamente com o aumento da adoção de smarthphones, possibilitou uma onda de serviços over the top (OTT) como Viber, WhatsApp, Google Messenger, Skype, etc. Esses serviços oferecem aos usuários móveis uma alternativa aos serviços tradicionais de propriedade das operadoras de redes móveis (MNOs, na sigla em inglês), tais como voz, mensagens de texto, mensagens multimídia entre outros.

Hoje não é incomum observar as pessoas deslizando ferozmente a tela do seu telefone para acessar os vários aplicativos OTT ao mesmo tempo, saltando de um para o outro, VoIP, jogos, vídeos ou quaisquer outros serviços de comunicação disponíveis dentro da sua assinatura de dados móveis, evitando pagamento de tarifas de uso adicional. Isto é definido como OTT bypass. OTT bypass se origina como uma ligação convencional, de um número de telefone para outro, mas a chamada acaba sendo roteada para ser atendida num aplicativo, como o WhatsApp e o Viber.

Este uso em grande escala de aplicações OTT como OTT bypass está capturando uma parte importante do mercado de telecomunicações, com as operadoras de redes móveis enfrentando o desafio da redução de preços nos pacotes de dados derivados de planos ilimitados ou com taxa zero. Isto também significa que as operadoras não estão mais no controle dos aplicativos ou dos conteúdos, e, de certa forma, os serviços móveis tradicionais estão sendo completamente engolidos pela infinidade de aplicações disponíveis através da Internet.

O mercado

Esta ampla adoção de aplicações OTT formou um ecossistema capaz de estimular os usuários finais a mudarem a maneira como eles interagem e se comunicam uns com os outros. Este novo ambiente, muito mais dependente de requisitos de Internet e de banda larga, está contribuindo para o  norme crescimento do uso e do tráfego de dados.

De acordo com o estudo da Analysys Mason (Analysys Mason’s 2015 Connected Consumer Survey), a categoria mais amplamente adotada de serviços OTT é a de mensagens, principalmente devido à melhor experiência do usuário quando comparada com o SMS. Estes serviços de mensagens OTT facilitam as conversas estilo bate-papo, oferecem recursos como chats em grupo, a troca de gráficos, mensagens de áudio e vídeo, bem como selos e emoticons, com custo zero ou mínimo.

O problema

A popularidade dos aplicativos OTT e a mercantilização do OTT bypass entre os usuários móveis está no entanto tornando mais difícil de ignorar o enorme impacto dos prestadores de OTT nas operadoras, que estão sendo profundamente afetadas em duas dimensões vitais dos seus negócios: operacional e financeiro.

No lado operacional, o grande volume do tráfego impulsionado pelo aumento do uso de dados está colocando pressão sobre os novos investimentos em infraestruturas que são fundamentais para o sucesso do lançamento de projetos de banda larga. Do ponto de vista financeiro, as receitas provenientes do uso de voz e SMS estão em risco devido à ameaça financeira causada pela fraude OTT bypass. As operadoras móveis também estão vendo seus rendimentos serem afetados devido à ineficácia da monetização do uso de dados.

Em um ambiente de negócios dinâmico, é vital para as operadoras estarem conscientes das ameaças deste tipo de fraude, e, acima de tudo, compreender os vários desafios que surgem a partir dela.

O surgimento da fraude OTT bypass

Onde houver oportunidade, a fraude pode existir, e OTT bypass traz uma infinidade de novas possibilidades de fraudes. Embora muitos dos serviços OTT sejam caracterizados por não serem dependentes de plataforma e disponíveis para os assinantes em uma base livre, eles são intrusivos às rede das operadoras. Isso piora nos mercados onde os serviços de comunicações OTT são amplamente adotados. Nesse caso a probabilidade de fraude é significativamente maior.

A fraude OTT bypass não é sinônimo de uso de aplicativos OTT sobre as redes de dados das operadoras. Um ataque de OTT bypass consiste em redirecionar o tráfego de terminação de chamadas móveis legítimas para aplicativos OTT. Assim, as chamadas originadas para números móveis são redirecionadas (geralmente na fase de interconexão de conexão de chamada) para a rede de atacado, que por sua vez termina as chamadas para as aplicações de OTT. Isto é facilitado principalmente como resultado das aplicações OTT serem linkadas ao usuário móvel através de um MSISDN (Mobile Station International Subscriber Directory Number  – normalmente chamada de número móvel).

Este tipo de fraude geralmente acontece nas chamadas de celular para celular, onde a fraude é cometida durante a intercepção e redirecionamento da chamada originada na rede móvel legítima, para a rede de atacado/interconexão sem o consentimento do assinante. Além disso, a parte chamada (MSISDN) não terá conhecimento do método do fluxo de chamadas, e vai pagar pela chamada através do seu plano de dados, se o fornecedor OTT não entregá-lo a custo zero.

O ecossistema em que a fraude de OTT bypass ocorre é composto por várias partes (assinantes, operadoras móveis, operadoras de interconexão/ atacado e prestadores de OTT), que imprimem vários desafios complexos. Por exemplo, alguns dos provedores de OTT podem ter estabelecido as plataformas de rede por atacado em seus ambientes. Essas plataformas oferecem provedores OTT com a capacidade não só redirecionar chamadas da rede móvel de origem mas também para interceptar as chamadas dentro da rede por atacado; assim, redirecionando-as para uma conexão de dados que termina no aplicativo OTT, que é configurado no terminal associado MSISDN da parte chamada.

Por possuir plataformas por atacado, provedores OTT não apenas geram receitas extras, mas também diminuem os custos de terminação de chamadas. Por outro lado, a operadora móvel,  proprietária do número recebe uma compensação residual ou nula, com base no plano de dados mínimo subscrito pelo MSISDN em substituição das receitas provenientes das chamadas de voz tradicionais.

Pela sua natureza, a fraude OTT bypass é uma ameaça real para as operadoras móveis, e pode mudar drasticamente os seus seu modelos de negócios. A fraude OTT bypass significa uma mudança de paradigma.

Conclusão

Hoje, no ambiente das telecomunicações, as operadoras móveis sabem o que é a fraude OTT bypass, no entanto muitas desconhecem realmente o impacto deste tipo de fraude nos seus negócios. O problema vai além de seu alcance. Como resultado, os governos em todo o mundo precisarão ter um decisivo (ou pelo menos um mais ativo) papel na criação de uma melhor regulamentação, bem como ajustar a legislação fiscal e promover uma aplicação rigorosa  da lei.

Nós todos sabemos que OTT bypass não é ilegal, mas isso não significa que não possa ser regulada para atingir uma maior transparência e igualdade entre as partes e, é claro, assinantes!

Na circunstância de OTT bypass, os assinantes não podem optar por usar (ou não usar) um serviço simplesmente porque o operador atomou a decisão de fazer parceria com um provedor de OTT. A chave para combater a fraude OTT bypass está no estabelecimento de parcerias que permitam a introdução de mecanismos de controle que ajudem a identificar quando intercepções e/ou reorientação de serviços OTT através da rede de dados deva ser permitida ao encerrar uma chamada.

Se as operadoras móveis pretendem recuperar a relevância no seu mercado, elas precisam encontrar novas maneiras de alcançar os seus usuários finais. Do ponto de vista dos serviços digitais, as operadoras têm a oportunidade de aumentar a sua participação na cadeia de valor dos conteúdos através do investimento em serviços OTT. Além disso, como surgem muitos modelos de negócios juntamente com muitas novas formas de serviços de telefonia móvel, uma situação mutuamente benéfica é necessária para as operadoras e os prestadores de OTT. Esse investimento certamente vai solidificar o valor das operadoras na cadeia de fornecimento de serviços digitais.

Sandra Costa é especialista em marketing de produto para telecom na WeDo Technologies