Internet das coisas11/04/2017 às 08h48

Brasil terá rede dedicada a IoT cobrindo 95% da população até 2018

Fernando Paiva, de São Paulo*

Está em construção no Brasil desde meados do ano passado uma rede sem fio para aplicações de Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) usando o padrão de origem francesa Sigfox na frequência não-licenciada de 902 MHz. Já existem 200 antenas implementadas, a maioria no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também algumas em Belo Horizonte, Curitiba, Campinas e Ribeirão Preto. Até junho a lista será ampliada para 12 cidades brasileiras. E até o final de 2018 a meta é ter 4,5 mil antenas cobrindo 95% da população brasileira. O investimento no projeto está sendo feito pela WND, empresa que tem contrato para a exploração do padrão Sigfox em toda a América Latina e no Reino Unido. As rede brasileira vai custar um investimento entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões. O Brasil é um dos 32 países que contam com operadoras Sigfox. Serão 60 até o fim do ano. Na América Latina, a rede já está sendo implementada também na Argentina, na Colômbia e no México

As antenas são pequenas, com a estação rádio-base do tamanho de uma torradeira. Elas estão sendo instaladas nos topos de prédios, em acordos com empresas que administram sites de operadoras celulares, e também a partir de parcerias com provedores de Internet e com universidades e centros de pesquisa. Em áreas urbanas, cada antena cobre um raio de 1,5 Km a 2 Km. Em áreas rurais pode chegar a 40 Km. Para se ter uma ideia, Paris foi cobertura com 40 sites. Em São Paulo, onde há cerca de 1 mil antenas de telefonia móvel, a expectativa é garantir uma cobertura Sigfox com apenas 150 antenas. Os equipamentos são fabricados pela Sigfox e importados para o Brasil pela WND. Para o backhaul é aproveitado o que houver disponível em cada site, como 3G, 4G ou ADSL.

A corrida para a implementação da rede está no contrato com a Sigfox, que define uma série de metas de cobertura para os seus operadores. Por trás disso está a estratégia de evitar um impasse que costuma emperrar outras tecnologias de telecom: enquanto não há rede, não são produzidos aparelhos e vice-versa. A construção de uma rede única e global é tida como uma vantagem competitiva do Sigfox, pois as empresas que adotarem a tecnologia não precisam se preocupar com o investimento em infraestrutura, ao contrário do que acontece com outros padrões concorrentes, como o Lora.

Do lado dos aparelhos, a Sigfox desenhou um módulo e fez acordo com dois fabricantes asiáticos para que o produzam a preços baixos, mesmo que ainda não haja escala para isso – a diferença de preço é subsidiada pela Sigfox. Vale lembrar que a empresa francesa tem entre seus investidores companhias como Samsung, Intel Capital, Telefônica, SK Telecom e Salesforce.

Os terminais não requererem configuração ou pareamento para se comunicarem com a rede. Uma vez ligados, já estão prontos para transferir informações. Cada device conta com um número único de identificação, próprio da rede Sigfox. E o roaming é automático: o mesmo aparelho funciona em qualquer país que conte com uma rede Sigfox implementada na mesma frequência – aquela adotada no Brasil é a mesma em todas as Américas, por exemplo.

“The power of the low”

A rede Sigfox foi desenvolvida para servir a aplicações com baixo consumo de banda. Os aparelhos que nela se conectam conseguem mandar mensagens de até 12 bytes. Parece pouco, mas, dependendo do serviço, é mais do que suficiente. Coordenadas de localização cabem em 6 bytes, por exemplo. Uma informação de temperatura, apenas 2 bytes. O aviso sobre o rompimento de um lacre, 1 byte. Enquanto não está enviando mensagens, os aparelhos Sigfox permanecem "adormecidos", para poupar energia. Não há envio de dados de sinalização, ao contrário do que ocorre entre smartphones e redes celulares. Assim, um aparelho Sigfox pode permanecer até dez anos sem a necessidade de troca de bateria. “É uma rede que nasceu para IoT. Não foi adaptada para isso”, explica Eduardo Koki Iha, diretor comercial da WND.

Eric Villa, country manager da Sigfox no Brasil, descreve a estratégia da seguinte forma: “Atuamos na base da pirâmide de IoT, com aplicações simples, mas que trazem muitos benefícios”. O lema da empresa é “the power of the low”. O topo da pirâmide de IoT à qual Villa se refere seriam as tecnologias móveis, como o 5G, que vai oferecer altas velocidades e baixa latência, de forma a viabilizar aplicações como streaming de vídeo em 360 graus e carros autônomos.

O fato de ser uma tecnologia proprietária é vista como uma vantagem pelos executivos envolvidos no projeto. Embora no passado haja exemplos de outras tecnologias proprietárias de rede que fracassaram diante do avanço de padrões mais abertos (vide a guerra entre CDMA e GSM no começo dos anos 00), no caso da Sigfox espera-se que o desfecho seja diferente, porque no seu caso a Sigfox está incentivando ativamente a construção de uma rede única global com foco bastante específico, além de um modelo de negócios com preços acessíveis e tabelados mundialmente em Dólar.

Modelo de negócios

A Sigfox disponibiliza APIs para quaisquer desenvolvedores ou integradores criarem gratuitamente aplicações para a utilização da sua rede global. Para acessar a rede, contudo, é preciso contratar um plano com a operadora do país onde estiver o cliente – no caso dos mercados latino-americanos, a WND. A cobrança é feita por mensagem. O plano mais barato, de duas mensagens por dia, custa US$ 0,50 por ano por device. Há um limite máximo de 140 mensagens por dia, o que equivale a praticamente uma a cada dez minutos. A receita com conectividade é dividida entre a operadora e a Sigfox.

Ainda não há nenhuma aplicação comercial em funcionamento com a rede Sigfox no Brasil. Mas está em andamento um prova de conceito com um cliente do setor agrícola cuja expectativa é de lançamento neste primeiro semestre, informa Villa.

Nesta semana, para estimular a adoção do Sigfox por desenvolvedores brasileiros, a WND promoveu um evento no laboratório Ocean, da Samsung, na USP, em São Paulo, fornecendo kits gratuitos para criação de aplicações de IoT com a sua tecnologia.

*O jornalista viajou a convite da WND