Privacidade11/04/2018 às 21h32

Zuckerberg reconhece a necessidade de regulamentação

Isabel Butcher

Mark Zuckerberg foi recebido para seu segundo dia de sabatina no Congresso dos Estados Unidos, nesta quarta-feira, 11, com perguntas mais afiadas e críticas mais duras do que em seu primeiro dia. Os questionamentos orbitaram em torno de temas como privacidade, vigilância, censura e política, ou mais especificamente, da capacidade de a empresa rastrear os movimentos, hábitos de compras e históricos de navegação de seus usuários. Os deputados e deputadas pediam regularmente respostas com um simples "sim" ou "não", o que ele se esforçou para fornecer.

O ceticismo neste segundo dia foi ainda maior entre os congressistas, tanto do Partido Democrata quando entre republicanos. Uma pergunta simbólica desse sentimento geral, que resume bem os dois dias, foi feita pela deputada Janice Schakowsky: “Quem vai nos proteger do Facebook?”, sinalizando, mais uma vez, que a autorregulamentação está com os dias contados. O próprio Zuckerberg afirmou em seu depoimento que a autorregulamentação falhou. “A Internet vem crescendo tanto em importância que é inevitável que precisaremos de alguma regulamentação”.

Outra pergunta, dessa vez feita pelo deputado Eliot Engel, foi sobre se o Facebook pensava em processar Aleksandr Kogan, a Universidade de Cambridge ou Cambridge Analytica. Zuckerberg respondeu que uma ação legal foi considerada. "O que descobrimos agora é que há todo um programa associado à Universidade de Cambridge, onde... havia vários outros pesquisadores construindo aplicativos semelhantes. Precisamos entender se algo ruim está acontecendo na Universidade de Cambridge em geral, o que exigirá uma ação mais forte de nossa parte.”

Em resposta, a Universidade de Cambridge disse que ficaria surpresa em saber que o CEO só estava ciente agora de seus trabalhos do centro de psicometria. "Nossos pesquisadores têm publicado essas pesquisas desde 2013 em importantes revistas científicas revisadas por pares, e esses estudos foram amplamente divulgados na mídia internacional", acrescentou. “Entre eles, está incluído um estudo realizado em 2015 e liderado pelo Dr. Aleksandr Spectre [Kogan] e com coautoria de dois funcionários do Facebook”, declarou a universidade.

Contra o feiticeiro?

Durante as cinco horas de depoimento, Zuckerberg revelou que ele próprio foi um dos 87 milhões de usuários de sua rede social a ter os dados violados pela Cambridge Analytica, por meio do aplicativo “thisisyourdigitallife”. Ao ser questionado pela congressista Anna Eshoo se suas informações estavam incluídas nos dados vendidos a terceiros, depois de uma breve hesitação, ele disse, simplesmente, “sim”, sem dar mais detalhes.

É pouco provável que o próprio executivo tenha usado o app de teste de personalidade.  Mas é importante lembrar que o aplicativo coletava dados do usuário do app, mas também as informações de todos os seus amigos. Ou seja, é mais plausível que algum de seus amigos tenha feito o teste.

A mesma congressista afirmou que os termos e condições sobre privacidade do Facebook eram um verdadeiro “campo minado”, e fez ao empreendedor uma pergunta direta: “Você está disposto a mudar seu modelo de negócios para proteger a privacidade dos usuários?”, o que fez Zuckerberg desviar pela tangente com respostas evasivas para, enfim, dizer: “Deputada, não tenho certeza do que isso significa.”

Na berlinda

O deputado Mike Doyle acusou Zuckerberg de fechar os olhos aos abusos dos desenvolvedores: “Há uma lacuna de confiança real aqui. Esse problema de dados do desenvolvedor é apenas um exemplo. Por que devemos confiar em você para seguir essas promessas?”. Zuckerberg retrucou: “Tivemos um processo de revisão de aplicativos por anos. Revimos dezenas de milhares de apps por ano. ”

A deputada Kathy Castor, depois de algumas observações, afirmou: “Facebook agora evoluiu para um lugar onde você está acompanhando todos. Você está coletando dados sobre quase todo o mundo... Eu não acho que o americano comum realmente entenda isso. Você está seguindo os usuários do Facebook mesmo depois quando eles saem da plataforma.” Até que ela foi enfática: “Você está coletando dados pessoais de pessoas que não são usuários do Facebook. Sim ou não?"

O CEO não conseguiu responder sim ou não e foi novamente interrompido por Castor: “Você observa aonde nós vamos. Não está correto?

Ele disse: "Todo mundo tem controle sobre como isso funciona." Mas, novamente, Castor interveio: "Você está dizendo que não coleta dados sobre para onde as pessoas viajam?". Zuckerberg não conseguiu responder.