Artigo13/09/2017 às 07h52

O iPhone 9 que nunca existiu

Fernando Paiva

O iPhone 9 vai entrar para a história como aquele que nunca existiu. A Apple esta semana lançou de uma vez só o iPhone 8, o 8 Plus e o X, que chama de dez, em algarismo romano. Poderíamos inventar uma infinidade de explicações para o salto. A mais provável, contudo, está no marketing. A Apple queria abrir uma nova faixa de smartphones top de linha, com outro patamar de preço, na casa dos US$ 1 mil. Para marcar a diferença, adotou o algarismo romano, quebrando a regra que seguia até então. E achou melhor pular logo para o dez (X) em vez do nove (IX), que ficaria um pouco estranho em algarismos romanos.

Com o iPhone X, a Apple procura reforçar uma característica que talvez não estivesse mais tão nítida nos últimos anos devido ao lançamento de aparelhos Android de gama alta com preços muito próximos: o iPhone é o smartphone da elite do planeta.

Para fazer esse movimento de aumento de preço ela precisava de novidades que o justificassem e chamassem a atenção. O Face ID cumpre bem esse papel. Embora, o reconhecimento facial em si não seja exatamente algo novo, a forma como a Apple desenvolveu parece ser muito mais assertiva e precisa que as experiências realizadas anteriormente por outros apps e fabricantes. E, claro, a Apple sabe melhor do que ninguém comunicar isso de forma a atiçar o seu público cativo e fazê-lo abrir a carteira.

A julgar pelo que foi apresentado no anúncio oficial, se o Face ID funcionar como o esperado, o iPhone X tem tudo para ser um sucesso. Mas é preciso aguardar as primeiras avaliações de blogueiros especializados e de formadores de opinião, quando estes puserem suas mãos no device. Um dos receios que tenho é caso a identificação facial demore mais que aquela pela digital. Mesmo que a diferença seja de poucos milissegundos já seria suficiente para incomodar muita gente, se levarmos em conta que estamos falando de um produto que olhamos em média 150 vezes por dia.

Bom, se a Apple aparentemente acertou com o iPhone X, não tenho certeza se posso dizer o mesmo em relação ao iPhone 8 e 8 Plus. Acredito que o público cativo e fã da empresa vai preferir, em sua grande maioria, esperar um mês a mais e comprar o iPhone X. Os modelos 8 e 8 Plus seriam voltados para quem não tem US$ 999 para pagar pelo top de linha. Mas acho que esse público em questão já não tem iPhones hoje. Ou, se tem, comprou ou ganhou iPhones de segunda mão, a preços muito mais baixos.

Vale lembrar que outras tentativas da Apple de lançar modelos baratos, como o iPhone C ou iPhone SE, não deram muito certo. A diferença é que agora o 8 e 8 Plus não são posicionados exatamente como aparelhos de baixo custo. Pelo contrário. Eles estão sendo lançados com preços iniciais até mais altos que o 7 e 7 Plus do ano passado. É como se a Apple quisesse dividir o segmento premium em três categorias de preços. Pode ser que nos EUA ou em alguns mercados mais ricos seja viável tal segmentação, mas no Brasil não me parece fazer sentido. Aqui, existe aquele 1% da população que praticamente paga qualquer preço pelo novo iPhone e outros 4% que compram iPhones usados a preços baratos. Esse 1% talvez não se importe de pagar R$ 6 mil ou mais pelo iPhone X, porque almeja o status de ter um aparelho de mega vip premium. Só não sei quem vai querer comprar o iPhone 8 por R$ 4 mil.

Quanto ao iPhone 9, a Apple entregou de bandeja um presente para humoristas e para fabricantes piratas. Aguardo ansiosamente as piadas com o que poderia ter sido o iPhone 9, assim como as suas primeiras versões falsas nas prateleiras da Uruguaiana e da 25 de março.