Estratégia14/08/2015 às 11h20

Cresce o número de parcerias entre operadoras e OTTs na América Latina

Fernando Paiva

As operadoras de telecomunicações latino-americanas estão se rendendo à necessidade de firmar parcerias com serviços over the top (OTTs). Antes vistos como inimigos, agora eles são entendidos como possíveis aliados na tentativa das teles de se diferenciarem da concorrência. De acordo com a Ovum, somente no primeiro semestre deste ano foram firmadas 24 parcerias entre operadoras e OTTs na região. Esse número representa 43% do total de 56 parcerias do gênero acertadas desde 2010, quando a Ovum começou a monitorá-las através de seu relatório Telco-OTT Tracker, atualizado duas vezes por ano.

Para efeito de comparação, no mundo foram mapeados pela Ovum 557 acordos entre teles e OTTs desde 2010. A região que lidera essa tendência é a Ásia-Pacífico, com 176 parcerias identificadas. A Europa vem em segundo lugar, com 171, seguida das Américas (115), África (71) e Oriente Médio (24).

No Brasil, a Ovum enumerou ao longo dos últimos seis anos 16 acordos entre teles e OTTs. Desse total, sete foram fechados este ano. Em 2014 foram cinco. Em 2013, três. Em 2012, nenhum. O primeiro no Brasil data de 2011, entre Oi e Rdio para streaming de música.

"É desconfortável para as operadoras, mas elas estão seguindo o inevitável. É um aprendizado para as teles. Se o cliente não tiver delas o que quer, vai conseguir de outra maneira", avalia Ari Lopes, analista principal da Ovum para a América Latina. "Por sua vez, as OTTs veem as operadoras como um canal de distribuição com poder de marketing e base de clientes grande. Ter acesso a esse canal é bastante importante", acrescenta o analista.

Redes sociais e música

Os serviços OTT mais procurados pelas teles no mundo para o estabelecimento de parcerias são redes sociais e música, que respondem por 21,5% e 21% do total de acordos mapeados, respectivamente.

Na América Latina a predominância é de acordos com serviços de música, redes sociais e mensageria. Na Colômbia, por exemplo, todas as grandes operadoras e até as virtuais (MVNOs) têm o WhatsApp incluído em seus pacotes. O aplicativo também é oferecido no Brasil por TIM e Claro. Entre as redes sociais, Facebook e Twitter são os parceiros mais frequentes.

Acordos com OTTs de vídeo são menos comuns em mercados emergentes, mas começam a ganhar força no exterior. Lopes cita como exemplo a Vodafone na Inglaterra, que oferece para o seu cliente pós-pago com smartphone 4G a escolha entre Sky Sports ou Netflix com acesso embutido no pacote de dados.

Modelo de negócios

Uma parcela significativa dos acordos seguem o modelo chamado como ganha-ganha, em que não há pagamento entre as partes e o serviço é provido gratuitamente para o usuário. É comum não haver desconto da franquia pelo tráfego de dados na utilização do serviço, ação conhecida como "zero rating". A oferta de "zero rating" para apps populares, como WhatsApp, Facebook e Twitter, acaba sendo um diferencial competitivo a favor das operadoras que adotam essa estratégia. É como se elas transformassem aquele serviço OTT em parte integrante do seu plano.

No Brasil, o assunto é polêmico e há quem entenda que o zero rating fere a neutralidade de rede prevista no Marco Civil da Internet. Há também divergências entre as teles: a Vivo, que é a líder do mercado em quantidade de usuários, não tem interesse em firmar acordos desse tipo com o WhatsApp, por exemplo, chamado pelo seu presidente na semana passada de "operadora pirata".

Uma das poucas categorias de serviço cujas parcerias com as teles gera receita direta para ambas as partes é a de música. "É assim no mundo inteiro, da Suécia à Colômbia", informa Lopes.