Artigo16/03/2016 às 08h52

Cobrança reversa de dados: inovação brasileira

Fernando Paiva, do Mobile Time

Nas décadas de 80 e 90, por conta da hiperinflação, os bancos que operavam no Brasil foram obrigados a investir pesado em tecnologia da informação para se protegerem dos altos e baixos da economia, mas também de fraudes. Essa necessidade transformou o Brasil em um dos mais avançados mercados em TI financeira do mundo. Fomos pioneiros na adoção de várias tecnologias como: cartões chipados; cartões híbridos que funcionam como crédito e débito; máquinas de POS com NFC; e caixas eletrônicos com autenticação por biometria.

Recentemente, a realidade econômica leva o País a inovar em modelos de negócios na indústria móvel, tendo à frente um representante do sistema bancário. Com o intuito de estimular o uso de serviços de mobile banking, que são mais baratos que a manutenção de agências e caixas eletrônicos, o Bradesco percebeu que era necessário arcar com o tráfego de dados dos usuários em seus aplicativos, em vez do contrário. Afinal, a maioria dos brasileiros têm linhas pré-pagas e pouco dinheiro para navegar na Internet móvel. Depois de negociar separadamente com cada uma das quatro operadoras celulares que atuam no País, o banco conseguiu lançar a primeira iniciativa de cobrança reversa de dados multioperadora do mundo. Os correntistas do Bradesco desde então navegam de graça nos aplicativos da empresa em seus celulares e quem paga a conta é o banco.

É diferente de zero rating de Facebook, WhatsApp ou Wikipedia, em que as operadoras liberam o tráfego para fidelizar os usuários. É diferente de tráfego patrocinado, em que uma marca paga pelo tráfego de dados em troca da exposição de propaganda. A cobrança reversa de dados móveis é uma invenção brasileira.

Depois do Bradesco, foi a vez do Netshoes fazer o mesmo, agora contando com a ajuda da MUV, uma spin-off da agência Fbiz. A MUV está se posicionando como uma intermediária para as negociações entre empresas e operadoras móveis e divide com estas parte da receita obtida com esses contratos de cobrança reversa de dados.

Com a recessão econômica enfrentada pelo Brasil, a tendência é que esse modelo se prolifere. É sabido que outros apps de bancos e de comércio móvel querem seguir a mesma linha este ano, e talvez até mesmo apps de táxi podem aderir à ideia, para beneficiar seus motoristas e/ou seus passageiros.

O próximo passo é padronizar a oferta desse produto entre as teles, para facilitar o lançamento de novos projetos. É possível que surjam brokers de dados, assim como existem brokers de mensagens de texto. Eles estariam conectados às operadoras e poderiam revender capacidade para marcas oferecerem acesso gratuito a seus sites e apps móveis.

Também é esperado que esse modelo de cobrança reversa seja exportado a outros mercados emergentes com características econômicas similares ao Brasil. O México, por exemplo, tem grande potencial para isso.

É como dizem por aí: a crise gera oportunidades. É preciso saber fazer do limão uma limonada, ou dos ovos quebrados uma omelete.

Fernando Paiva é editor do Mobile Time