Bots19/04/2016 às 18h03

Nascem os primeiros chatbots brasileiros

Fernando Paiva

A onda dos chatbots – robôs que interagem com as pessoas através de aplicativos de comunicação instantânea – já chegou ao Brasil. Pelo menos três empresas do mercado brasileiro de conteúdo móvel contactadas por este noticiário estão construindo novos produtos e serviços seguindo essa tendência: Movile, Elo7 e Take.net. O assunto ganhou força depois que o Facebook disponibilizou na semana passada uma API para a construção de bots para o Messenger.

"Com a entrada do Messenger, o jogo começou para valer", avalia Andreas Blazoudakis, vice-presidente de inovação da Movile. "Temos seis células de inovação totalmente focadas em bots, cada uma delas trabalhando três ideias diferentes. Estamos testando cerca de 20 bots diferentes", diz. A Movile tem neste momento 25 pessoas da área técnica dedicadas à construção de bots e que contam com orçamento exclusivo para essa finalidade. Até o final do ano serão 70 profissionais.

Pelo menos três bots da Movile já estão prontos para funcionar no Messenger. O primeiro se chama "Stadium" e traz resultados de jogos de futebol. Ele foi originalmente desenvolvido para o Telegram e rapidamente adaptado para o Messenger. O segundo é um bot do serviço de música Superplayer com foco em faixas que aprimoram a produtividade das pessoas, para serem reproduzidas no ambiente de trabalho. Esse bot  foi criado seis meses atrás para o Slack e acumula mais de 170 mil usuários – ou "contatos", para adotarmos um termo mais apropriado a essa interface. Por fim, a Movile desenvolveu um bot para o Messenger do seu serviço de consultoras de beleza "Amei, amiga". Neste caso o atendimento será híbrido, metade feito por um robô, metade pelas cerca de 200 atendentes cadastradas. O usuário pode começar vendo algum vídeo ou outro conteúdo multimídia sobre determinado produto servido pelo bot e, caso se interesse, prosseguir no processo de compra conversando com uma pessoa de verdade. Além desses três, a Movile também trabalha na criação de bots para o iFood, seu serviço de delivery de comida, e para o CinePapaya, seu serviço de venda on-line de ingressos de cinema em alguns países da América Latina.

Como se percebe, bots não são assunto novo não Movile. A empresa está de olho nisso há pelo menos dois anos, desde que identificou a tendência ganhando força na Ásia, especialmente dentro do WeChat, principal app de comunicação instantânea da China. "Esse é um dos primeiros movimentos de inovação em tecnologia móvel que não nasceu no Vale do Silício", comenta Blazoudakis. Além do desenvolvimento dos bots em si, a empresa teve uma primeira experiência com comércio em bate-papo através do app Resolve Chat, sobre o qual publicamos uma matéria à parte (leia aqui).

A Movile aposta em duas frentes a serem exploradas com bots: conteúdo e comércio local, com foco especial nesta última. "A revolução dos bots estará em serviços O2O (online to offline). A parte de conteúdo vai ser legal, só que é mais do mesmo. Na China a revolução aconteceu em local commerce: o pequeno comerciante, que não podia criar um app e, portanto, estava fora da revolução móvel, passou a fazer parte dela com bots", descreve o executivo.

Talk7

Outra experiência brasileira com bots parte do Elo7, marketplace para a venda de produtos artesanais. Ele está testando um app chamado Talk7, voltado para seus vendedores que através do qual conversam com os consumidores e são auxiliados por um assistente virtual. Ao longo do bate-papo, esse assistente envia mensagens tanto para os vendedores quanto para os compradores com informações relevantes a cada etapa do processo, como o recebimento do pedido, o cálculo do frete e alertas sobre o fechamento da compra e envio da encomenda. O Talk7 está funcionando em caráter experimental desde o fim do ano passado e já acumula mais de 3,5 milhões de mensagens trocadas entre vendedores e compradores, além de outros 3,5 milhões enviadas pelo assistente virtual.

"Percebemos um aumento de mais de 10% em conversões em função da dinamização dos pedidos feitos dessa forma. Acontece um engajamento maior do vendedor. Além disso, o tíquete médio desses pedidos tende a ser maior, assim como a propensão à recompra. Mas são indicadores preliminares", relata Guto Araújo, co-fundador do Talk7. "O diferencial é poder fazer uma compra dentro da conversa, com todas as funcionalidades de e-commerce: pagamento, acompanhamento de entrega etc", descreve.

O próximo passo é conectar o Talk7 a outros canais de vendas dos artesãos, como WhatsApp e Instagram. Também há planos de adicionar elementos de inteligência artificial ao assistente, especialmente para responder às perguntas feitas mais frequentes, como o cálculo do frete.

Take.net

Pioneira na venda de ringtones no Brasil, ainda na época em que eram monofônicos, a Take.net também está se preparando para a era dos chatbots. Seu CEO e co-fundador, Roberto Oliveira, prefere usar o termo "smart contacts", ou "contatos inteligentes", pois entende que a automação não necessariamente é o mais importante nesta primeira fase, mas, sim, a migração de voz para mensageria na comunicação entre marcas e consumidores.

"Uma grande parte do que é feito via voz hoje em dia vai migrar rapidamente para mensageria. E a abertura dos aplicativos de comunicação instantânea para terceiros vai representar para os apps móveis o mesmo que o web browser representou para os softwares de desktop", prevê o executivo.

Oliveira entende que a Take.net está bem posicionada para surfar nessa nova tendência porque já trabalha com bots há 16 anos, só que dentro do SMS. Afinal, a compra de um ringtone através de mensagem de texto era, na prática, um exemplo de "conversational commerce". Havia inteligência por trás para buscar a música desejada, independentemente da forma como o usuário escrevia seu nome na mensagem, por exemplo.

"Estamos muito felizes porque fazemos isso há 16 anos e agora está virando moda. Eram aplicações que antes aconteciam via SMS e eram monetizadas por carrier billing. E agora estarão em outros canais e poderão ser monetizadas de outras maneiras", resume.

A Take.net está trabalhando há dois anos no desenvolvimento de novas soluções dentro desse conceito de "smart contacts" e vai apresentá-las em um painel no 15º Tela Viva Móvel, evento que acontecerá nos dias 3 e 4 de maio, no WTC, em São Paulo. Oliveira participará do painel "A migração do SVA 1.0 para o SVA 2.0", no dia 3, entre 16h e 17h30, junto com Alberto Leite, CEO da FS; Armindo Motta Jr, CEO e co-fundador da Wappa; Paulo Curio, vice-presidente da Movile; e Rafael Lunes, sócio-diretor da Gold360.

O Tela Viva Móvel é organizado pela Converge Comunicações e promovido por MOBILE TIME e TELETIME. A grade do evento e informações sobre inscrições podem ser encontradas no site do congresso ou pelos telefones 0800-77-15028 e 11-3138-4619. Inscrições até 20 de abril contam com 15% de desconto.

Série bots

Esta é a quarta matéria da série sobre chatbots publicada por MOBILE TIME. As demais podem ser encontradas nos links abaixo.

Notícias relacionadas