Entrevista21/02/2017 às 10h36

Inteligência artificial precisa ser debatida por toda a sociedade, recomenda professor da USP

Fernando Paiva

O medo de que um dia os seres humanos sejam dominados pelas máquinas é tema recorrente em obras de ficção há séculos. De certa forma, contudo, essa dominação já acontece e mal percebemos, de tão grudados que estamos em nossos smartphones e laptops. A alfinetada não parte de um monge budista ou de um ermitão avesso ao mundo moderno, mas de um dos maiores especialistas em inteligência artificial do Brasil: Marcelo Finger, professor titular do Departamento de Ciência da Computação do IME-USP. Em entrevista para Mobile Time, ele fala sobre a importância de se democratizar o acesso à tecnologia e de se debater em todos os setores da sociedade sobre os avanços da inteligência artificial, inclusive com a elaboração de leis para evitar, por exemplo, a criação de armas que possam causar danos catastróficos à humanidade. Finger participará do seminário Bots Experience Day, no dia 20 de março, em São Paulo, com uma palestra sobre inteligência artificial e processamento de linguagem natural.

Mobile Time - Qual é a sua definição de inteligência artificial?

Marcelo Finger - Inteligência artificial basicamente difere da computação em geral porque desde o seu começo ela não se interessou em resolver um problema com a resposta precisa. A inteligência artificial se permite errar. Eu dou uma ordem para um robô e ele pode até cumprir, mas também pode errar. Não tem uma visão de 0 ou 1. E o nome "inteligência artificial" é sexy, para chamar a atenção e atrair grana para investimento. É um nome sexy que pegou. Não está e nem nunca esteve presa à inteligência humana. Pode ser considerada como uma forma de inteligência que vale a pena ser estudada e desenvolvida. Da mesma forma que a inteligência de um chimpanzé não é a inteligência humana, mas é reconhecível e vale a pena ser estudada. É muito mais fácil falar das diferenças entre inteligência artificial e inteligência humana e animal do que de suas semelhanças.

Quais são as diferenças?

As diferenças estão no ambiente em que cada inteligência está embarcada. A inteligência artificial está embarcada em computadores com hardware de silício e com toda a eletrônica subjacente. E a inteligência natural, ou animal, está embacarda em seres vivos que têm preocupações de sobrevivência, de reprodução, de alimentação, de locomoção e de outras cosisas mais prementes que a inteligência artificial não precisa. Os ambientes em que as duas estão embarcadas são muito diferentes. Logo, fazer qualquer comparação de que determinado programa tem a inteligência de certo animal é perda de tempo. Além disso, muitas vezes a inteligência artificial é burra.

E a maior parte da inteligência artificial não está em robôs mas em software. A maior empresa de inteligência artificial do mundo é a Google. A busca personalizada e dependente de contexto é uma atividade eminentemente de inteligência artificial. Aliás, uma das vertentes de nascimento da inteligência artificial era o problema de busca. As primeiras técnicas em um curso básico de inteligência artificial são técnicas de busca. E muitas coisas mais sofisticadas que ocorrem lá na frente, como planejamento e prova automática de teoremas, são transformadas em problemas de busca.

Você tem percebido um aumento da demanda por pesquisas envolvendo inteligência artificial nas universidades brasileiras?

O fato de aparecerem produtos (com inteligência artificial) agora não quer dizer que o tema esteja crescendo neste momento no mundo acadêmico. O que se faz na universidade fica invisível para o resto do mundo por muito tempo. Se analisar as subáreas de ciência da computação você vai ver que a inteligência artificial é a que tem mais densidade há mais de uma década. Se houve crescimento não foi agora. O que há neste momento é muito barulho. Inteligência artificial desperta interesse acadêmico há décadas. É uma área que tem atraído no Brasil um número preponderante de pesquisadores de pós-graduação há bastante tempo. Não é mais uma área na sua infância no que tange a pesquisa acadêmica no Brasil. Muitos dos grandes eventos de inteligência artificial já ocorreram no Brasil ou em outros países da América Latina com forte presença brasileira.

Quais setores têm demandado mais pesquisas nessa área? Por quê?

Inteligência artificial tem potencial para ser aplicada em diversas áreas. Mas tenho visto muitas publicações nas áreas biológicas. Tenho um projeto com o Butantã para segurança sanitária. Estamos trabalhando com análise dos efeitos da vacina da dengue na população. É um trabalho de análise de português. Pegamos as avaliações dos médicos sobre as reações e precisamos tabular e encontrar o código de cada uma... Por exemplo: o que om descreve como coceira, outro chama de erupção na pele etc. Na fase atual são 17 mil pessoas, quantidade que não é nada para inteligência artificial, mas depois que a vacina for aplicada em São Paulo inteira serão milhões de pessoas e aí vamos encontrar reações que não foram previstas. A técnica que estamos usando pooderá ser aplicada para outras vacinas, como da zika ou da febre amarela.

Também estou envolvido com o pessoal de linguística e do direito. Tem desde gente tentando automatizar a geração de contratos, até a análise de dados. Estou fazendo um projeto com o Supremo Tribunal Federal que consiste em automatizar uma série de atividades relacionadas ao direito. Gente que provê auxílio jurídico para pessoas de baixa renda também tenta automatizar processos. Em inteligência artificial primeiro você precisa conseguir os dados, depois aplica técnicas de data mining e de exploração de conhecimento. Dá para fazer muita coisa quando se tem um grande volume de dados. A tradução simultânea do Google foi criada com base em mais de 10 anos da versão antiga do Google Translate. Quando tinham toneladas de textos em várias línguas, aplicaram redes neurais. Elas só funcionam bem com muitos dados.

Qual pode ser a contribuição do Brasil na pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial no mundo?

O Brasil já tem trabalhos de nível internacional em diversas áreas. Uma área que não está despontando na mídia mas que sempre tivemos grande participação é aquela de dedução automática e de lógica em geral, porque o Brasil tem uma boa tradição na área de lógica matemática e filosófica e isso transplantou-se para a computação, mas hoje está em baixa, porque a moda é rede neural. Essa área esteve por cima na década de 90.

També somos fortes em redes bayesianas, que são formas de modelar problemas do mundo real através de probabilidade e configurações. Modela-se o mundo como uma rede. Calcula-se a probabilidade envolvida e a partir dela faz-se computação e previsão.

E temos destaque no processamento do português. Neste aspecto, o Brasil tem uma obrigação moral de estar na vanguarda e tem cumprido com essa obrigação. Na área de visão de planejamento automático também estamos avançados. E na área de agentes.

No caso específico de chatbots, um aspecto importante é a chamada "computação afetiva", ou a interpretação dos sentimentos humanos por parte do robô. Quão avançados estamos nesse ponto no Brasil?

A computação afetiva é importante para a análise de mercado, como pesquisas online de produtos, para saber se estão sendo bem ou mal recebidos, ou pesquisas eleitorais etc. E tem que ser feita em português. Uma coisa é ligar para as pessoas, outra é pegar o Twitter e analisar os textos que estão sendo publicados espontaneamente pelo público. É uma área de grande potencial. Contudo, quando tem big data, tem também "big noise", ou seja, muito ruído. Tenho uma aluna trabalhando exatamente nisso. Ela começou monitorando o Twitter para ver o estado das estações do metrô, para saber quando estão lotadas etc. A análise afetiva foi um problema. Se uma pessoa escreve, em tom sarcástico, "isso aqui está uma beleza"?

O uso de inteligência artificial traz à tona também questões de ordem ética. Quais os limites para o uso da inteligência artificial, na sua opinião?

Enquanto se educa parte da população para trabalhar em áreas de tecnologia, inovação etc, uma outra parcela considerável está sendo deixada para trás. Isso pode fazer você perder uma eleição, como aconteceu nos EUA, resultado da revolta daqueles que estão mais ou menos à margem de todo o desenvolvimento tecnológico e de informatização. Essas pessoas, de uma forma ou de outra, decidiram a eleição nos EUA. Isso deveria ser uma preocupação de qualquer tecnologia: quem está ficando de fora?
                                                                                                                                                                                                          Além disso, os efeitos e as interferências que a tecnologia provoca nas vidas das pessoas precisam ser debatidas pela sociedade. Não existe nenhuma regra pronta que cubra todos os casos. Pegue o exemplo das vezes em que o WhatsApp foi bloqueado pela justiça. O Estado pode travar o WhatsApp ou não? É a sociedade que precisa discutir, não tem uma regra pétrea sobre como proceder. A gente precisa sentar e debater. É um processo de negociação social. O Estado brasileiro não está preparado para lidar com isso em suas leis e agora precisamos encontrar uma solução. Vamos proibir a inovação ou criar nichos em que o Estado não pode entrar ou só pode entrar com muito esforço? Não sei, vamos discutir.

Deveria haver uma legislação para definir regras de uso de inteligência artificial? Por quê? Que leis você sugeriria?

Vamos precisar de leis para reger problemas causados por máquinas. Como fazer a distribuição de responsabilidade? A melhor hora de se proibir um armamento é antes de ele existir. Há acordos firmados por vários países para que não sejam desenvolvidas armas que ceguem os soldados. Isso foi proibido antes de existir essa arma. O mesmo valeria para inteligência artificial. A melhor hora de se debater é antes de a tecnologia chegar na capacidade de servir como uma arma. Os robôs atuais não conseguem carregar muito peso, mas vão chegar lá. É bom se discutir agora.

Alguns cientistas revelam preocupação com o avanço da inteligência artificial, e cenários apocalípticos já foram projetados na ficção. Acredita que algum dia as máquinas poderão pensar por conta própria e ter independência sobre os humanos?

Existe um medo, que é legitimo mas bem antigo, de quando houve a revolução industrial mecânica, de que as máquinas dominariam os homens. Isso foi refletido na literartura com obras bem famosas, como Frankstein. É um medo legítimo. Porém, pensando bem, a nossa vida já é dominada pelas máquinas. As pessoas não conseguem mais tirar férias. Não se pode passar uma semana sem responder emails... A nossa qualidade de vida já está sendo afetada pela existência de toda essa tecnologia. Ela ocupa a nossa vida de tal forma que já estamos dominados por ela.

Gostaria de dar um último recado?

Em inteligência artificial você precisa ouvir vários lados da sociedade, não apenas os desenvolvedores. Não temos o monopólio das soluções. Nem queremos ter essa responsabilidade. Todo mundo está sendo afetado. Mas se adotarem uma solução que iniba o desenvolvimento da pesquisa, aí será ruim.