Artigos21/03/2018 às 10h56

Blockchain contra notícias falsas

Fernando Paiva

A eleição do Trump foi marcada pela distribuição de notícias falsas no Facebook e por aplicativos de mensagens. No Brasil, o recente episódio da morte da Marielle também chamou a atenção pela quase instantânea produção e distribuição de notícias difamatórias e caluniosas contra a memória da vereadora assassinada, com o agravante de ela não estar mais aqui para se defender. Até uma desembargadora e um deputado federal contribuíram na difusão das mentiras e depois precisaram se retratar publicamente. Por tudo isso, há grande preocupação em torno das eleições deste ano, que correm o risco de serem profundamente influenciadas por notícias falsas espalhadas por meios digitais.

As pessoas espalham notícias sem verificar fonte, data, ou qualquer outro dado básico que poderia indicar seu grau de credibilidade. Acabam sendo cúmplices em uma campanha difamatória, embora não se sintam responsáveis. Para as autoridades, costuma ser difícil rastrear a origem das mentiras, especialmente quando circulam através de aplicativos de mensageria.

Um possível caminho para reduzir o problema seria a aplicação de blockchain na distribuição de conteúdo digital em redes sociais e aplicativos de mensagens. Hoje, essa tecnologia é mais conhecida por sua aplicação em criptomoedas, como o Bitcoin, permitindo rastrear todo o histórico de transações. Por que não fazer o mesmo com mensagens? Com blockchain seria possível saber de onde partiu uma mensagem e todo o caminho percorrido, revelando todos os usuários que a passaram para frente. Poderia ser uma ferramenta opcional dentro de aplicativos como o WhatsApp. Na hora de criar uma mensagem, o autor poderia autorizar o uso de blockchain. A partir daí, a mensagem carregaria os dados de todo mundo que a compartilhasse. Quem a recebesse, poderia verificar que se trata de uma mensagem rastreável e pensaria duas vezes antes de compartilhar: se o conteúdo lhe parecer falso e/ou difamatório, evitaria passá-lo para frente. Da mesma forma, se uma mensagem não estiver protegida por blockchain, isso já seria um sinal de que é potencialmente falsa ou que seu autor quis se esconder. O blockchain poderia ser usado em qualquer tipo de mensagem, seja um texto, uma imagem, um vídeo ou um áudio. As mensagens rastreáveis via blockchain poderiam conter algum selo ou identidade visual ou qualquer outro mecanismo que permitisse tal verificação.

Claro que isso não solucionaria o problema por completo. Pessoas mal intencionadas poderiam perfeitamente criar contas falsas no WhatsApp com um SIMcard com linha pré-paga descartável e espalhar mentiras do mesmo jeito, ainda que usando blockchain. Mas as pessoas que as espalhassem com seu número telefônico de verdade teriam que responder pelo crime de calúnia e difamação, o que provavelmente já diminuiria de maneira significativa o impacto da campanha.

Não sei o quanto aplicativos de mensagem se interessariam em instalar tal mecanismo. No fundo, se beneficiam pela possibilidade do anonimato dos usuários e por essa arquitetura de distribuição em massa com dificuldade de rastreabilidade. Criar tal mecanismo seria um custo a mais, sem um retorno financeiro.

Paralelamente, uma iniciativa interessante para combater notícias falsas vem da Universidade de Stanford, nos EUA. Trata-se de um projeto originalmente batizado como News Quality Scoring, agora renomeado como DeepNews. Trata-se do uso de mecanismos de inteligência artificial e aprendizado de máquinas para analisar notícias na web e medir o grau de confiabilidade das informações, conferindo uma nota que poderia nortear o público durante a leitura.

Enquanto soluções como essas não viram realidade, o melhor é usar o bom senso. Antes de acreditar em qualquer coisa que receber pela Internet, verifique a fonte, desconfie de textos apócrifos, cheque a data da notícia etc. Na dúvida, pense cinco vezes antes de compartilhar. Como disse um amigo, as pessoas tendem a passar para frente aquilo que gostariam que fosse verdade. Precisamos aprender que somos responsáveis por aquilo que compartilhamos. Se for uma mentira difamatória, somos cúmplices. Lembre-se: calúnia e difamação são crimes.