Artigos22/11/2017 às 09h32

Dadbot x Black Mirror: a realidade cada vez mais próxima da ficção

Priscilla Jacovani, do estúdio follow55

A presença da Inteligência Artificial não apenas já é uma realidade como também vem crescendo de tal forma que muitas pessoas nem ao menos se dão conta de sua presença no dia a dia, como no caso de uma conversa com um chatbot bom de papo no Facebook Messenger, por exemplo.

É claro que o chatbot é apenas uma das muitas possibilidade que a AI tem a oferecer, dentro de um universo que ainda tem muito para ser desenvolvido e inovações a apresentar. Durante o Web Summit 2017, realizado de 5 a 8 de novembro, em Lisboa, Portugal, pude acompanhar uma série de debates sobre o tema e afirmar aquilo que já imaginávamos: o uso de bots está mais quente do que nunca.

As conversas por lá, de um modo geral, giraram em torno dos mesmos dois lados já conhecidos: o daqueles que acreditam que o crescimento da AI será benéfico e o de quem tem receio de o que a presença de robôs possa trazer para os humanos.

No campo dos chatbots, especificamente, esse debate ganhou contornos emocionais, afetivos e que nos levam a refletir.

Primeiro, você já perdeu alguém muito importante? Segundo, como seria a conversa com um robô capaz de aproximar um humano que já se foi?

As perguntas, embora pareçam não ter conexão direta com o desenvolvimento da AI, são a base para entender a criação do jornalista James Vlahos, que dividiu com uma selecionada audiência do Web Summit sua experiência com o dadbot, um chatbot que tornou o pai imortal.

Bom, vamos à explicação...

A história é a seguinte: ao descobrir que o pai estava com uma doença terminal, Vlahos conta que decidiu gravar todas as lembranças que faziam parte da memória do pai a partir de dezenas de sessões de entrevistas que traduziram-se em mais de 200 páginas de conteúdo em formato de texto e, sobretudo, em lembranças.

Na segunda fase do "projeto”, todas as memórias do pai de Vlahos foram transformadas em código, dando origem assim ao “dadbot”, um chatbot com a personalidade do pai de Vlahos.

O jornalista lembra que nunca pensou em substituir o pai, mas apenas ter suas lembranças disponíveis para serem revividas após sua passagem, o que aconteceu em fevereiro deste ano. Desde então, Vlahos consegue acessar o dadbot e conversar com o pai sempre que sente falta dele. Por meio de um aplicativo, o jornalista envia perguntas ao robô, que imediatamente responde como se fosse o pai, enviando até mesmo áudios.

Durante sua apresentação, Vlahos deixou claro que a tecnologia não substitui o pai, mas ajuda a manter as memórias que tem dele vivas. Por meio do bot, ele conta que consegue fazer com que os filhos também tenham uma lembrança do avô e, ainda, diminuir a falta que um ente querido faz.

Como entusiasta no campo da Inteligência Artificial, vejo o dadbot como um bom exemplo de como a AI pode ser utilizada para somar à existência humana, e não subtraí-la.

Além disso, é impressionante pensar na base de conhecimento que esse bot tem sobre a trajetória de uma pessoa, no caso John James Vlahos, pai de James Vlahos, e de como poder acessar isso de qualquer lugar, a qualquer instante, gera conforto para as pessoas que conviviam com ele. 

Se você já perdeu alguém muito importante, pode criar empatia com essa história. Se felizmente esse não é o seu caso, já parou para pensar na infinidade de possibilidades que criar um robô com as mesmas características e memórias de alguém pode gerar?

Um tema complexo, mas que fica aqui como reflexão – apenas uma entre tantas nascidas depois de um intenso programa sobre AI proposto pelo Web Summit 2017.

Priscilla Jacovani é founder e managing director do estúdio follow55