Pagamentos móveis25/04/2018 às 15h19

O maior desafio do DCB não é técnico, mas político

Fernando Paiva

Em vários países de diversos continentes, as operadoras de telecomunicações atuam também como um meio de pagamento, oferecendo sua plataforma de billing para a cobrança de serviços digitais variados e até mesmo de mercadorias físicas. Trata-se do chamado direct carrier billing (DCB), uma alternativa de pagamento bastante atrativa em mercados emergentes onde há baixa bancarização e baixa penetração de cartões de crédito. No Brasil, contudo, a regulamentação é uma barreira, assim como a carga tributária: a incidência dos altos impostos de telecom afugenta os potenciais interessados em contratar esse tipo de serviço. Na opinião de especialistas, a saída seria o setor reivindicar alterações na regulamentação e na legislação para viabilizar o DCB no País.

"O principal desafio não é técnico. O problema hoje é politico e financeiro. Qualquer coisa que se venda pela conta do telefone paga impostos de telecom. Se eu comprar uma camisa, ela vai sair mais cara que na loja por causa dos impostos. O grande desafio é a revisão das regras de taxas e da política de tarifação em cima de itens que não são de telecom", disse Gustavo Taveira, gerente de planejamento de VAS e de data core network da Telefônica Vivo, durante o evento 5G LTE Latin American, esta semana, no Rio de Janeiro.

Falta, contudo, um movimento coordenado dos atores interessados nesse assunto para levar a reivindicação às autoridades competentes. Além das operadoras, empresas globais como Bango e Boku, que funcionam como integradores para pagamento em DCB, também são interessadas diretas no assunto. "As empresas precisam levar a questão às autoridades, como foi feito em outros países. DCB não é telecom. Precisamos definir o que é", diz José Kosminsky, diretor de desenvolvimento de negócios da Boku na América Latina.

Entre os principais clientes de DCB estão grandes provedores de serviços digitais no mundo, incluindo lojas de aplicativos. Na Alemanha, por exemplo, Apple, Google, Microsoft, Playstation e Spotify oferecem o DCB como um meio de pagamento a seus consumidores, usando a integração da Boku com operadoras locais. Em alguns mercados, até produtos físicos podem ser vendidos, quando a regulamentação permite – ou quando simplesmente não proíbe. Na América Latina, isso é possível no México e na Bolivia, por exemplo.

Outros caminhos

Enquanto isso, para viabilizar economicamente alguns projetos de DCB no Brasil, há caminhos alternativos. Um deles, sugerido pelo vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Bango na América Latina, Fernando Dias, seria exigir que os provedores dos serviços digitais vendidos via DCB reinvistam parte da sua receita em mídia nas operadoras móveis.

Kosminsky, da Boku, por sua vez, lembra que existe também a possibilidade de se cobrar uma pequena taxa adicional pela venda via DCB, que ficaria com a operadora, sem entrar no revenue share com os parceiros. Seria algo similar à taxa de conveniência cobrada pela venda de ingressos de cinema pela Internet, por exemplo.

DCB não é SVA

Vale ressaltar que DCB é diferente de serviços de valor adicionado (SVAs). No caso do DCB, não se trata da venda de um serviço da operadora ou de um parceiro homologado, mas de produtos e serviços de empresas de fora do ecossistema móvel tradicional. Se o consumidor for cancelar a assinatura, por exemplo, não vai falar com a operadora, mas diretamente com o provedor do serviço. "Os clientes (empresas que contratam DCB) querem apenas mais um meio de pagamento para atingir pessoas sem cartão ou desbancarizadas. Não adianta trabalhar o modelo de VAS em um negócio que não é VAS. DCB não é um serviço de telecom. A Boku é como se fosse a Visa ou a Mastercard da operadora", explica Kosminsky.

Mobishop

O potencial do DCB como meio de pagamento e os desafios para a sua implementação no Brasil será tema de debate durante a primeira edição do Mobishop, seminário que será organizado por Mobile Time no dia 10 de setembro, no WTC, em São Paulo. A agenda prévia do evento será divulgada nas próximas semanas no site www.mobishop.com.br, mas ingressos já estão à venda com 30% de desconto.