Mensageria27/04/2017 às 10h45

Aliança entre Google e teles trará impacto profundo no mercado de mensageria

Fernando Paiva

O serviço de mensageria móvel, outrora controlado pelas operadoras com o SMS, passou por uma transformação profunda nos últimos dez anos, com o advento dos smartphones e das lojas de aplicativos. Quem dá as cartas hoje nesse mercado são players over the top (OTT), como WhatsApp e Facebook Messenger, no Ocidente, e WeChat, Kakao Talk e Line, no Oriente. Neste novo cenário, chama a atenção a perda de protagonismo das donas das redes, ou seja, as operadoras, cujo tráfego SMS entre usuários final caiu drasticamente, e a ausência do Google na lista de OTTs líderes. Isso pode mudar nos próximos anos com a aliança mundial que está em formação entre Google e operadoras móveis na área de mensageria. Essa reação tem potencial para causar um impacto profundo no mercado e nos modelos de negócios, podendo transformar a relação existente hoje entre operadoras, integradores de SMS, fornecedores de plataformas de mensageria, marcas que usam o SMS como canal de comunicação e, claro, os consumidores.

Enquanto a Apple tem o iMessage, seu aplicativo oficial que funciona de forma híbrida, trocando mensagens OTT entre donos de iPhone mas também SMS tradicional, no mundo Android não há nada parecido. Ao contrário, cada fabricante Android pode incluir em seu aparelho um aplicativo próprio de SMS. É, portanto, um universo fragmentado. Ao mesmo tempo, o Hangouts, primeiro aplicativo de mensageria OTT oficial do Google, não decolou, levando a empresa a criar recentemente outros dois: Allo e Duo (este restrito a videochamadas).

Do lado das teles, a experiência com o SMS se tornou obsoleta, quando comparada com os apps de comunicação instantânea OTT. A mensagem de texto comporta apenas… texto, fazendo jus ao nome. Enquanto isso, no WhatsApp e similares o usuário troca imagens, vídeos, contatos, arquivos diversos, além de poder realizar chamadas de voz e videochamadas, sendo, portanto, uma experiência verdadeiramente multimídia.

As operadoras têm ciência da perda de importância do SMS e vêm perseguindo uma solução há bastante tempo. Em parceria com a GSMA, associação que as representa mundialmente, criaram alguns anos atrás um padrão chamado RCS (Rich Communication Services). Ele pode ser considerado “a evolução do SMS”, embora alguns especialistas prefiram evitar essa expressão, por questões de marketing – o termo “SMS” é percebido pelo consumidor como algo antigo e defasado. Na prática, o RCS opera como um OTT de comunicação instantânea e multimídia, mas com a vantagem de ser capaz também de receber e enviar o SMS tradicional, viabilizando a comunicação com quem não tem smartphone. Com o RCS o consumidor consegue fazer tudo o que faz no WhatsApp, menos chamadas de voz e videochamadas, por enquanto. O fato de ser o serviço nativo de mensageria das operadoras o torna universal por natureza: não requer a instalação de um app e nem a preocupação de saber se o destinatário tem um telefone compatível. O RCS foi adotado por algumas operadoras em mercados isolados, como a Espanha, onde as três principais teles formaram uma parceria chamada Joyn, que acabou sendo descontinuada. O grande problema é que o RCS, inicialmente, requeria um investimento pesado das operadoras em hardware, especialmente a compra de uma plataforma de rede chamada IMS (IP Multimedia Subsystem).

O custo e a dificuldade de atrair várias teles para um projeto unificado viraram um obstáculo para o RCS. Foi então que o Google entrou nessa história, comprando a Jibe, uma fornecedora de plataforma de RCS. Sua proposta é resolver dois problemas de uma vez só: construir uma plataforma de mensageria universal para o Android e trazer de volta o protagonismo das operadoras nesse mercado. Como parte do plano, foi desenvolvido o Android Messages (Android), app compatível para RCS, e a plataforma da Jibe passou a ser oferecida a operadoras ao redor do mundo a praticamente custo zero, pois está instalada nos servidores do Google, sem necessidade de compra do IMS – basta conectar a plataforma de SMS existente na tele com o hub da Jibe. A norte-americana Sprint, a canadense Rogers e a norueguesa Telenor foram algumas das primeiras a aderirem à ideia e já lançaram o serviço de RCS com o Google.

Mas não basta ter as teles. É preciso que os fabricantes de handsets se juntem ao projeto, para que o Android Messages venha embarcado de fábrica. LG, Motorola, Sony, ZTE e vários outros toparam. E as negociações estão em curso com a Samsung, maior produtora de smartphones Android do mundo. Integradores e grandes marcas que usam o SMS para se comunicar com seus consumidores também foram convidados e estão participando de um programa de acesso prévio à plataforma da Jibe, para testar suas funcionalidades. A brasileira Movile faz parte desse grupo.

Ou seja, aproveitando o seu prestígio e sua ampla rede de relacionamento com empresas do mundo todo, o Google era a força externa e independente da indústria móvel necessária para ressuscitar o RCS. Em fevereiro, a empresa anunciou que seu projeto contava com a adesão de 27 companhias, entre operadoras, OEMs, integradores e grandes marcas que usam SMS – incluindo a brasileira Natura entre essas últimas.

Para a América Latina, o Google contratou o executivo Silvio Pegado como líder de RCS/mensageria. Ele veio do mundo de telecom e conhece bem o setor. Sua tarefa é justamente promover o projeto na região. Ele está mantendo conversas com todas as principais operadoras que atuam no Brasil e no resto da América Latina. “Em breve teremos novidades no Brasil e em outros países da região”, disse Pegado, em entrevista para Mobile Time.

A2P

O único serviço de SMS que ainda cresce na América Latina é o de disparo de mensagens corporativas, conhecido como A2P (application to peer). Trata-se, basicamente, da comunicação entre marcas e seus consumidores. Bancos usam para envio de comprovantes de transações, por exemplo. E os próprios serviços over the top costumam usar o SMS para autenticar novos usuários, confirmando seu número telefônico. E por que ainda usam o SMS se ele está “obsoleto”? A resposta está em sua universalidade: qualquer telefone celular, seja um smartphone ou feature phone, consegue receber um SMS. Mas o mercado A2P enfrenta problemas também, como o envio de “SMS pirata” por players não homologados pelas teles; o envio de spam; e a carência de dados, como a informação sobre a leitura das mensagens pelos usuários.

A adoção do RCS promete transformar o serviço A2P. São várias as novidades que o tornam mais atraente. A primeira delas é a própria interface, que passa a ser multimídia: dá para incluir uma imagem ou mesmo um vídeo. “As companhias aéreas poderão mandar o cartão de embarque por mensagem. Os bancos, códigos de barras para pagamentos”, exemplifica Pegado. Outra vantagem é que no RCS as marcas podem ter contas autenticadas, ganhando um selo que garante se tratar mesmo daquela empresa – tal como é feito no Twitter, o que reduz o risco de golpes usando os nomes das companhias. Por fim, o RCS permite que as marcas vejam quem recebeu e quem leu as suas mensagens – hoje no SMS elas não têm esse controle de leitura. "O retorno para as marcas será maior do que o SMS é hoje. Entendemos que o RCS vai trazer mais valor para todo o ecossistema”, acrescenta o executivo do Google.

Modelo de negócios indefinido

O que não está claro ainda é como vai funcionar o modelo de negócios entre teles e integradores de SMS no âmbito do RCS, agora com o Google no meio. Em tese, os integradores, que hoje estão conectados à plataforma de SMS das teles, precisariam se conectar também ao hub de RCS do Google. Algumas questões ainda não têm resposta: 1) Haverá uma API para essa conexão ou cada integrador será conectado manualmente pelo Google?; 2) Qualquer integrador poderá se conectar livremente ou haverá algum controle?; 3) Que regras de controle seriam essas?; 4) Como será a integração com o billing das teles e a cobrança pelo envio de mensagens A2P?; 5) O Google ficará com uma participação nessa receita?; 6) O preço da mensagem A2P vai subir por conta da melhoria da interface e dos relatórios de resultados?

Tudo isso ainda está em discussão. Mas, como se pode constatar por tudo o que foi relatado nesta matéria, se essa aliança entre Google e teles prosperar, o mercado de mensageria móvel será transformado inteiramente.

Tela Viva Móvel

O Tela Viva Móvel deste ano será aberto com um painel sobre  futuro da mensageria móvel e contará com as participações de Silvio Pegado, do Google; Pérola Cussiano, líder de marketing de plataformas do Facebook/Instagram no Brasil; Fábio Moraes, diretor de estratégia para a América Latina da GSMA; Cássio Bobsin, CEO da Zenvia; e Roberto Oliveira, CEO da Take. O evento, que é organizado por Mobile Time, acontecerá nos dias 15 e 16 de maio, no centro de convenções WTC, em São Paulo.

Para conhecer a agenda completa do evento e adquirir ingressos, acesse www.telavivamovel.com.br. Ingressos para grupos podem ser adquiridos com descontos pelo telefone 11-318-4619, ou pelo email eventos@mobiletime.com.br.