Artigo30/11/2016 às 09h29

WhatsApp, o amigo secreto das teles

Fernando Paiva, do Mobile Time

Neste fim de ano, as operadoras móveis já sabem quem é seu amigo secreto (ou oculto, se você mora no Rio de Janeiro): o WhatsApp.

A relação entre as teles e esse serviço de comunicação instantânea é muito mais complexa do que aparentam as manchetes dos jornais e dos veículos especializados. A priori, vemos esses dois lados como inimigos, o que é reforçado constantemente, inclusive pelas declarações de executivos das teles. Mas, no fundo, o WhatsApp é também um aliado estratégico a longo prazo das operadoras, o que pretendo explicar a seguir neste artigo.

Primeiro, porém, é preciso recordar as razões pelas quais os serviços overt the top (OTTs) são tidos como rivais das operadoras, especialmente o WhatsApp, no caso do Brasil, onde o aplicativo é o mais popular do País, presente na primeira tela de nove em cada dez smartphones brasileiros, de acordo com a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box. É indiscutível que o sucesso desses apps de mensageria praticamente matou a troca de mensagens de texto por SMS entre pessoas. Da mesma forma, a possibilidade de enviar mensagens de áudio e de realizar chamadas de voz através desses apps impacta o faturamento das operadoras com ligações telefônicas. Mais do que isso: há um reflexo na quantidade de linhas celulares em serviço no Brasil. O sucesso do WhatsApp é um dos responsáveis pelo fim das comunidades em torno de cada operadora: em vez de manterem chips de diferentes teles para economizar nas chamadas on-net para os amigos, é mais barato falar com estes via WhatsApp, gerenciando um único chip. Somente este ano, houve uma redução de 29 milhões de linhas pré-pagas no Brasil – embora haja outros fatores, como maior rigor das teles na desconexão de linhas inativas para não pagar impostos sobre elas e a própria estratégia das operadoras em oferecer tarifa única por minuto independentemente de ser uma chamada on ou offnet. Por fim, as OTTs fazem dinheiro sem ter que investir em infraestrutura de acesso, o que fica a cargo das operadoras. E não se trata de um investimento barato.

Diante disso tudo, nos acostumamos a ouvir declarações agressivas por parte das teles contra os serviços OTT. Um dos pleitos é de que as OTTs sejam reguladas. Ou que as teles sejam menos reguladas. O argumento é "mesmo serviço, mesmas regras". Já houve quem pedisse que as OTTs dividissem o custo com infraestrutura de acesso. E até acusações de que o WhatsApp seria uma operadora pirata, porque se aproveita do número telefônico das teles. Epa! Mas é justamente este o ponto controverso. Será que  o uso do número telefônico como fator de identificação por parte dos WhatsApp é ruim para as teles? Eu acho que não, muito pelo contrário.

Há várias maneiras de se identificar um usuário em um serviço digital. O mais tradicional é o endereço de correio eletrônico. Outro, mais recente, mas que vem ganhando muita popularidade em apps móveis por causa da sua simplicidade, é a identificação através do Facebook ou pela conta do Google, em um único clique. Uma terceira maneira é pelo número do telefone celular.

Alguns serviços criam seu próprio sistema de cadastro, com a geração de um nome de usuário e senha. É o caso do Snapchat, por exemplo. Mas a recuperação de uma conta, caso o usuário esqueça sua senha, precisa ser feita por um meio de identificação externo, que pode ser um dos que citei anteriormente.

Alguns dos maiores rivais internacionais do WhatsApp são Line, Kakao Talk e WeChat, fortes no Japão, na Coreia do Sul e na China, respectivamente. Os três, embora peçam inicialmente a confirmação do número telefônico, permitem que uma conta seja recuperada por email. No caso do Line, dá para recuperar também pelo Facebook. Faltou citar o Messenger, que é um rival-irmão do WhatsApp, pois pertence ao mesmo grupo. No seu caso, a identificação é feita pelo Facebook, que, por sua vez, usa o email como principal caminho para a recuperação de uma conta.

De todos os OTTs de comunicação instantânea mais populares do mundo, o WhatsApp é o único cuja conta de usuário é o seu número telefônico e tão somente ele. Se alguém quer continuar usando seu WhatsApp, com seu histórico de conversas e lista de contatos, precisa manter seu número telefônico. Se trocar, precisará avisar a todos os seus contatos sobre a mudança. E ainda corre o risco de algum desconhecido herdar seu número e, consequentemente, seu WhatsApp.

O uso do número telefônico como fator de identificação é um ativo valioso das teles. Há um projeto internacional chamado Mobile Connect, liderado pela GSMA, entidade que representa as teles e os fabricantes de telefonia móvel, que visa reforçar isso, promovendo a identificação móvel como um serviço para bancos e sites comércio eletrônico. Como envolve um elemento físico, o SIMcard no telefone, trata-se de um sistema de identificação mais seguro que o email. E é inteiramente controlado pelas teles.

Hoje o WhatsApp não paga para usar o número telefônico como fator de identificação. Mas, ao fazê-lo, valoriza esse meio. Para as operadoras, estrategicamente falando, é melhor que o WhatsApp use o número telefônico do que a identificação pelo Facebook ou por email.

As teles têm três ativos imensamente valiosos em suas mãos. O primeiro é a sua rede. As chamadas de voz e mensagens de texto por SMS podem acabar, mas a transmissão de dados em redes móveis continuará sendo fundamental por muito tempo, enquanto não se inventa alguma nova maneira de comunicação em mobilidade. O segundo ativo é a sua plataforma de cobrança. Em países emergentes, com baixa bancarização e baixa penetração de cartão de crédito, como a América Latina, trata-se de um ativo que atrai parceiros diversos, inclusive as próprias OTTs, se quiserem vender serviços para as camadas da população com menor renda mensal. E o terceiro ativo é a numeração. Nesta última, o WhatsApp, é um aliado de primeira ordem. As teles só não admitem isso. Preferem tratá-lo como um amigo secreto. Só falta ver se trocarão algum presente neste fim de ano.

Fernando Paiva é editor do Mobile Time