Varejo31/01/2017 às 09h02

Fintech Ekko será lançada após seis anos de maturação e R$ 21 milhões investidos

Fernando Paiva

Nos tempos atuais, em que start-ups nascem e morrem da noite para o dia, é raro encontrar exemplos como o da fintech Ekko, cuja entrada em operação está prevista para o próximo dia 10 de fevereiro. Seu criador, o empreendedor Permínio Moreira, oriundo do ramo de restaurantes, conta que teve a ideia seis anos e meio atrás, em um sonho. Desde então veio amadurecendo-a e lapidando-a. Consultou economistas renomados, que deram aval à proposta, e atraiu como sócio o executivo Luis Filipe Cavalcanti, convidado para tocara a operação da Ekko. Ao longo desse período, R$ 21 milhões foram investidos no projeto, montante que também salta aos olhos quando comparado com outras start-ups, que precisam passar por várias rodadas de investimento já em operação para conseguirem levantar quantias similares – com a contrapartida de cederem generosas participações acionárias aos fundos de investimento. Moreira teve o cuidado de patentear sua ideia em 182 países antes de finalmente colocá-la em prática. E se deu ao luxo de negar diversas propostas de sociedade. Ele e Cavalcanti esperam recuperar o dinheiro investido em até dois anos de operação.

A Ekko consiste em uma solução para aumentar as vendas do varejo, por meio da construção de um ecossistema que fideliza os consumidores, com o aumento do seu poder de compra, e premia os estabelecimentos que trouxerem mais pessoas para dentro da plataforma. Para tanto, foi criada uma unidade de economia homônima à empresa, a Ekko. A cada compra nos estabelecimentos parceiros, os consumidores recebem 1 Ekko para cada Real gasto. Ao mesmo tempo, toda compra tem seu preço dividido entre Reais e Ekkos. A proporção varia constantemente, dependendo do estabelecimento, do produto e da hora do dia. O cálculo é feito por um algortimo desenvolvido pela empresa, que leva em conta o histórico de vendas de cada estabelecimento. O objetivo é trazer consumidores para dentro das lojas em horários tradicionalmente ociosos.

"Os grandes centros de compra enfrentam um problema sério. O lojista paga para operar sete dias da semana, mas há dias sem movimento nenhum. À medida que o e-commerce for resolvendo seus problemas de segurança e pós-vendas, os shoppings se transformarão em centros de entretenimento e lazer, ou meros showrooms de lojas. As pessoas vão para lá ver os produtos e depois compram pela Internet", diz Moreira, em entrevista para Mobile Time. O objetivo principal da Ekko é evitar essa tendência, aumentando a frequência e o consumo dentro das lojas físicas, e elevando o faturamento dos lojistas.

A operação da Ekko será estruturada em comunidades, que consistem em grupos de aproximadamente 50 estabelecimentos comerciais localizados em um mesmo bairro. Há um gestor para cada comunidade, que fica encarregado por escolher os estabelecimentos parceiros. A proposta é ter um de cada gênero: uma padaria, uma floricultura, um posto de gasolina, uma lanchonete etc.

Cada estabelecimento define um percentual médio que gostaria de ceder para os consumidores nas compras com Ekkos. Esse percentual médio costuma ser em torno de 30%. O lojista informa para o gestor da comunidade quais são seus horários de pico e os períodos de maior ociosidade. O gestor também coleta os preços e as descrições dos principais produtos e serviços de cada estabelecimento e os adiciona na plataforma. A partir daí, o algoritmo do Ekko calcula automaticamente a proporção do preço entre Reais E Ekkos para cada produto em cada período do dia. A proporção em Ekkos varia de 5% (nos períodos de pico) a 70% (nos períodos de grande ociosidade). Um produto que custe R$ 100 pode ser vendido em um período de ociosidade por R$ 30 + 70 Ekkos, por exemplo. Quando esse percentual for maior que aquele originalmente acordado pelo lojista, a Ekko arca com a diferença de preço. Esses percentuais são alterados diariamente, de acordo com os resultados e o histórico de vendas. Eles vão sendo ajustados automaticamente pelo algoritmo, de maneira que o consumidor e o próprio lojista só têm visibilidade das proporções entre Reais e Ekkos dos produtos para as 24 horas seguintes.

Ao mesmo tempo, cada estabelcimento comercial recebe de graça uma máquina de POS da First Data, rede de adquirência parceira da Ekko nesta fase inicial. É através dessa máquina que as vendas do sistema Ekko devem ser feitas. Outra vantagem: as vendas com cartão para clientes Ekko na máquina da First Data têm taxa zero para o lojista. É a Ekko quem remunera a First Data por essa taxa de utilização.

O lojista tem acesso a um painel na web onde acompanha todas as vendas feitas através da plataforma da Ekko e enxerga informações sobre os consumidores que compraram com o sistema.

A Ekko recebe um pequeno percentual (não revelado) sobre o aumento do faturamento de cada loja.

Como funciona para o consumidor?

Para fazer compras com Ekkos, o consumidor precisa primeiro se cadastrar no serviço. Se o fizer por conta própria, pelo app ou pelo site, recebe 200 Ekkos de prêmio. Se o consumidor for cadastrado por um estabelecimento comercial parceiro, ganha 1 mil Ekkos. Os lojistas são estimulados a cadastrar novos consumidores no sistema porque passam a ser remunerados com R$ 100 por cada R$ 1 mil que aquele consumidor gastar no ecossistema da Ekko. Seus funcionários também são estimulados: a cada cliente que adicionam ao Ekko, ganham R$ 10 em um cartão Visa da Brasil Pré-pagos e R$ 20 em créditos para celulares de qualquer operadora, em uma parceria com a Minutrade.

Pelo app, o consumidor pode ver as lojas participantes próximas da sua localização e a composição dos preços em Reais e Ekkos para cada produto e em cada horário, ao longo das 24 horas seguintes. Quando estiver na loja, basta dizer que é um cliente Ekko e digitar seu CPF e sua senha na máquina de POS da First Data. Um detalhe importante: o pagamento não precisa necessariamente ser feito com cartão de crédito na máquina. Pode ser em dinheiro vivo, cheque ou até em vale-refeição. Para cada R$ 1 gasto dentro do ecossistema do serviço, o consumidor ganha de volta 1 Ekko. Mas esses Ekkos não podem ser usados no mesmo estabelecimento comercial. Precisam necessariamente ser usados em outros. Além disso, os Ekkos têm validade de 90 dias.

Moreira prevê que a Ekko tem potencial para acabar com a necessidade de liquidações do varejo, já que seu algoritmo conseguirá estabilizar a frequência nas lojas e aumentar o faturamento. "A Black Friday vai acabar. Ou melhor, a Black Friday será todo dia", afirma. Ele enfatiza que a Ekko é diferente de tudo o que já foi lançado até agora no Brasil e rejeita a comparação com programas de fidelidade, soluções de cashback ou moedas virtuais. Nas suas palavras, sua solução é um "sistema cooperativo de economia, vantagens e benefícios, que integra consumidores e estabelecimentos comerciais, em que todos ganham."

Lançamento

No dia 10 de fevereiro, a Ekko entrará em operação em projetos-piloto em duas comunidades em São Paulo: uma no bairro de Moema, com 50 estabelecimentos comerciais, e outra em Santo André, com 30 lojas, esta com foco nas classes C e D.

Até o final do ano a Ekko será lançada em seis capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba e Salvador. A expectativa é chegar a dezembro com 500 comunidades. A empresa avalia também a possibilidade de abrir um modelo similar ao de franquias, em que empreendedores parceiros implementam o modelo em outras cidades.