E neste início de 2026 de nova ordem mundial e redes sociais de robôzinhos agentes, vamos ficando mais impressionados com alguns dos números e dados que resumiram o ano que findou. Além de entrarmos de vez no deserto do real  e questionarmos este mundo pós-verdade, vai se firmando a tendência de que as indústrias criativas serão inundadas por conteúdos sintéticos, seja na música, com artistas que não existem, na publicidade e redes sociais com o já cunhado “AI slop” ou até mesmo em corridas de automóveis, onde já temos robôs competindo, ainda que pessimamente.

Este trem imparável do progresso que nos acelera ao fim da década é tema de discussões infindáveis sobre nosso caminho como sociedade e até aí temos que rever nossos conceitos diante da inovação. Preocupante é o pouco que se comenta sobre um efeito colateral deste baile metalizado, onde se aproxima o fim do jornalismo como o conhecemos.

É o que demonstra o Relatório Reuters sobre Tendências e Previsões de Jornalismo, Mídia e Tecnologia para 2026, onde o ano que passou experimentou uma queda expressiva no uso das ferramentas até então mais utilizadas para o público se informar, com quedas de 24% globalmente, 28% nos EUA e 19% na Europa. Nas pesquisas feitas com editores de periódicos, um quinto deles mencionou esperar uma queda de 75% em suas audiências até o fim de 2026.

Os números em si, contudo, não refletem totalmente a realidade e há relatos, no Brasil, de veículos que perderam ao menos metade de sua audiência em 2025. Logo, não estamos mais simplesmente acelerando uma tendência em lermos notícias mais rapidamente e com menos profundidade, mas também a não acessar os veículos de notícias, já que elas nos são resumidas. Textos longos? Não temos tempo pra isso.

O que nos prende a atenção atualmente são links resumidos no WhatsApp, vídeos curtos no YouTube, Instagram e TikTok. Textão tem que começar com polêmica ou não vamos ler. Vendemos a polarização para gerar o engajamento, a lacração nos basta para nos sentirmos nobres. Abrimos mão da complexidade nos filmes para não tirar a atenção de quem está na outra telinha, a do smartphone. 

Ler um livro se torna um exercício sisífico, tal o esforço, daquelas letras ali, sem piscar, sem dançar, no papel que não brilha e não te notifica. Concentração já é item de luxo.

PressGazette, que avaliou e repercutiu a pesquisa anual da Reuters, menciona algumas das soluções apontadas pelos editores, como investimento maior em vídeos (preferencialmente curtos), análises de jornalistas com credibilidade, pontos de vista e opiniões, destacando que os robôs ainda não conseguem transformar notícias em grandes narrativas ou identificar grandes histórias em fatos do cotidiano. Mas concordam que, sim, o jornalismo tradicional sofre uma crise de confiança em si e da sociedade em seu trabalho, o que se reflete na pesquisa.

Nos resta entender, no entanto, que esta pressão sobre os atuais modelos de jornalismo não simbolizará apenas uma inflexão de modelos de negócios, com desinformação e pós-verdades. A sociedade moderna, democrática e liberal se funda, se apoia e se baseia no conceito de livre mercado de ideias e informações, no poder da imprensa em cobrar quem deve ser cobrado, na capacidade de se checar e confirmar fatos, na apuração do que afinal ocorreu e onde estão a verdade ou as verdades.

Ao não pagar ou não ver valor em pagar por notícias com mais escrutínio e credibilidade, o que estamos colocando em risco não é só o jornalismo, mas a democracia como a conhecemos. E este fenômeno está ocorrendo em todo o mundo liberal que se preza civilizado, não apenas por aqui, como alerta Harari.

Ao permitirmos a escalada da polarização e da radicalização, ao mesmo tempo em que popularizamos o uso de ferramentas de IA que impedem o consumo e monetização da indústria jornalística, podemos estar criando, sim, a tempestade perfeita para  terminarmos nosso (não tão longo) experimento democrático. E talvez com muita simpatia e indiferença, sob os aplausos à nossa maravilhosa criação robótica que nos mima e acalenta, que pede desculpas e está sempre disponível. We’re sorry we upset you, Carol

Não será por falta de aviso, seja de especialistas como Harari, Geoffrey Hinton e outros, mas talvez pela curiosidade inata dos inovadores em tentar simplificar uma sociedade tão conectada e tão complexa, para que esta seja mais palatável em sua velocidade desgovernante (com duplo sentido por favor).

Como participantes deste baile, contudo, muito nos serviria cobrar políticas públicas e conversas sobre maneiras de minimizar o fim do jornalismo aprofundado, apurado e com credibilidade, diante do abandono da audiência e sua migração para os mimos dos resumos.

Lembremos, com alguma dose de saudosismo, de Ben Franklin, que, quando quis fundar um país, imprimiu panfletos e os fez distribuir na França do século XVIII. Sua democracia se impôs com jornais. Sim, o rapaz não está na nota de US$100 à toa.

Muito provavelmente é chegada a hora de discutir a sério o financiamento público de veículos investigativos e de produção de jornalismo aprofundado, o mecenato e estímulo a veículos independentes, o patrocínio a eventos jornalísticos de renome, criando e estimulando o que considerávamos garantido até então, o fluxo de informações, em sua eterna caminhada até a luz do esclarecimento. Sem escolhas políticas, sem controles governamentais, sem vieses tão comuns no Brasil de 2026, utilizando dados de audiência, credibilidade e histórico como bases para políticas de estado, não de governo.

O fim da indústria jornalística ou sua captura pelos poderes de então ao final só prejudicará a nós mesmos, condenados à simpatia pasteurizada em um deserto da modernidade. Afinal, como bradava o poeta, o tempo é o remédio e o proceder se mostra no dia-a-dia, a caozada, a simpatia, já tá virando epidemia.

 

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