Artigo31/01/2018 às 11h18

5G e a globalização reversa chinesa

Fernando Paiva, do Mobile Time

O processo de globalização econômica tem, entre as suas características, a queda de fronteiras para o capital internacional. Para os grandes grupos econômicos, a globalização é importante por dois principais motivos: reduzir o custo de produção, aproveitando mão de obra barata em países emergentes, e, ao mesmo tempo, expandir o seu mercado consumidor para esses mesmos países emergentes. Com o apoio teórico de teses econômicas liberais, a globalização pressiona pela quebra de resistências nacionais em prol do livre comércio, da livre circulação de mercadorias, e também do livre trânsito do capital.

O protagonismo no processo de globalização coube aos grandes grupos econômicos ocidentais e a seus aliados no Oriente (notoriamente Japão e Coreia do Sul). Mas há de se destacar a estratégia chinesa. Inicialmente, a China se propôs a fazer esse papel de mera fabricante de produtos de marcas ocidentais a preços irrisórios, além de oferecer seu gigantesco e crescente mercado consumidor interno. O iPhone serve de exemplo: é desenhado na Califórnia, leva a marca da Apple, mas boa parte de seus componentes provêm da China, assim como a montagem final de uma parcela significativa da sua produção.

Com o passar dos anos, aos poucos, a China foi desenvolvendo tecnologia e marcas próprias. Estas foram crescendo, impulsionadas pela demanda do mercado interno, e começaram o seu processo de internacionalização, para também surfar a onda da globalização, mas ao reverso, do Oriente para o Ocidente. É o feitiço virando contra o feiticeiro.

Em telecomunicações isso é nítido. No segmento de aparelhos celulares, temos o célebre caso da Xiaomi, espécie de Apple chinesa, que já botou seus pés em vários mercados ocidentais. As marcas de smartphone Oppo e Vivo fazem bastante sucesso dentro da China e não seria estranho se vierem para o lado de cá do planeta em breve.

No segmento de infraestrutura de rede, a liderança chinesa é mais clara ainda. Duas das maiores fabricantes de equipamentos para operadoras celulares do mundo são chinesas: Huawei e ZTE. Mais ou menos metade da rede 4G no Brasil, por exemplo, foi fornecida pela Huawei. Com preços baratos e alta qualidade técnica, as empresas chinesas forçaram os concorrentes ocidentais a passarem por um processo de consolidação. A finlandesa Nokia, a francesa Alcatel, a norte-americana Lucent e a alemã Siemens se juntaram e viraram uma coisa só, sob a marca Nokia.

O protagonismo chinês em redes de telecomunicações ganha força em uma época em que o mundo está prestes a dar um passo importante nesta evolução tecnológica, com a migração para a quinta geração de telefonia celular, ou 5G. O curioso é que, diante disso, saiu esta semana a notícia de que o governo federal norte-americano, temeroso de que as redes de 5G de suas operadoras utilizem equipamentos chineses, está cogitando a possibilidade de construir uma infraestrutural estatal para esse novo padrão de telefonia móvel. O medo é de que tais equipamentos poderiam conter vulnerabilidades que permitiriam a espionagem por parte dos chineses. Vale lembrar que os próprios EUA foram acusados por Edward Snowden de fazer o mesmo, espionando cidadãos e líderes de outros países.

A ideia de uma rede 5G estatal nos EUA soa como uma contradição quando lembramos que o atual presidente norte-americano é o ultraliberal Donald Trump, que prega a redução da intervenção do governo na economia e o Estado mínimo. Desse jeito, fica parecendo que a globalização só é boa enquanto você está liderando o processo. Se a maré começa a virar, é hora de mudar as regras do jogo.

Fernando Paiva é editor do Mobile Time