Uma geração antes da minha, o fazer música de verdade significava estudar muito ou ter um conhecimento empírico forte. Nada de ‘viver a vida na flauta’. Era necessário ralar. A minha geração começou a ter uma automação com os DJs que passaram a criar músicas a partir de sample e mashups em equipamentos eletrônicos e computadorizados. Para alguém que estudou teoria musical, prática de instrumento durante 12… 18 horas por dia e tocou em ambientes hostis, tóxicos e mega competitivos, o simples apertar de um botão e dizer que estava fazendo música era uma afronta.

Mas agora chegou a inteligência artificial e os aplicativos de criação de música, como o Suno (Android, iOS). O que era uma afronta virou um choque de realidade e um exercício de reflexão, ao ver que qualquer pessoa pode pedir para o aplicativo fazer uma música com uma simples descrição em uma caixa de texto (prompt).

Suno funciona para criar uma música instrumental ou cantada com letras baseada no prompt, mas também adicionando informações de estilos musicais e até colocando outras músicas como inspiração. Basta escrever algo como ‘faça um forró com cordas e metais abordando bem as características do nordeste brasileiro’ ou ‘faça um jazz na linha cool baseado em instrumentos eletrônicos, como sintetizadores dos anos 1970 e 1980’ e o app traz uma música.

Também é possível conhecer a comunidade de 100 milhões de criadores e suas obras no Suno. Mas a experiência não é boa porque o aplicativo é uma versão reduzida da página web da plataforma. E a versão gratuita limita apenas para uso próprio não comercial e à criação de dez canções por dia com um minuto de áudio.

Suno pago

Para quem quiser avançar mais, há a opção paga a partir de R$ 40, que permite fazer edições mais acertadas para aumentar ou diminuir o grau experimental e de aproximação ao gênero pedido, além de dividir a música em 12 vozes e instrumentos, sendo possível criar 500 músicas por mês de até oito minutos com direito a uso comercial.

Porém, o app não é um perfeito compositor. Por exemplo, ao pedir forró, ele confundiu com cumbia, tango, mariachis e outros ritmos regionais latino-americanos, além de country e ritmos ciganos e gregos. Portanto, a versão paga é apenas para quem quer brincar, pois é um setup musical.

Mas para uma pessoa que nunca estudou um dia de música, o Suno é bom para criar músicas de elevador, de fundo de conversa, aquilo que é consumido, mas é invisível. Sim. Essa é a retórica da IA nos tempos atuais para todas as áreas.

IA na criação

Seja no jornalismo, na música, na administração, na engenharia, no design, na medicina ou cinema, a inteligência artificial é uma ferramenta que surge para substituir aquelas funções que estávamos acostumados a fazer ou consumir de maneira simples, rápida e fácil. É uma tecnologia que nos tira da zona de conforto e, com isso, sobe a barra da criatividade, da qualidade e da produtividade nos trabalhos que temos.

IA é ferramenta. É complemento. Não é substituto de humano. E lá vem minha crítica que muita gente pode não gostar: o criador em um app como o Suno nunca vai ser um compositor. Não digo que é um farsante, mas é um simples criador de conteúdo auditivo. Ele é um usuário de um algoritmo.

Por exemplo, o Suno nunca vai substituir um grande compositor de música, como Milton Nascimento, Esperanza Spalding, Herbie Hancock ou Jessie Montgomery. Nada troca a habilidade de uma pessoa saber onde vai a pausa (o silêncio) na música. Isso a IA não sabe, pois ela não é humana.

Mas a IA vai forçar os compositores a fazerem mais daquilo que fazem hoje. Ou um músico pode usar aquela música criada por algoritmo para treinar um ritmo que não está acostumado ou se inspirar em uma linha de uma partitura ou tablatura, o seu algoritmo original.

Se compararmos com o passado, um Photoshop não me tornou designer da Playboy, o Excel não me tornou economista do Plano Real, o BlackBerry não me tornou Barack Obama. Mas essas ferramentas melhoraram a produtividade.

 

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