O head de tecnologia da NEO Estech, Rafael Cocchiaro, estima um prejuízo de até R$ 3,8 milhões ao estado de São Paulo caso todos os supermercados paulistas sofressem um ataque cracker como o que aconteceu em lojas na França.
Na última segunda-feira, 12, sistemas de refrigeração de diferentes redes varejistas na França foram invadidos e ficaram sem controle por seis horas. Estima-se que mais de 400 supermercados do país tenham registrado um aumento substancial da temperatura dos congeladores, chegando a até 50 °C. Todos eles utilizavam software da Danfoss, Copeland ou Dixell. Como resultado, os lojistas tiveram que descartar toneladas de alimentos. Em situações mais graves, foram registrados pequenos incêndios.
A Danfoss afirmou que parte dos equipamentos já havia chegado ao fim da vida útil e não recebia mais atualizações ou estava com o firmware desatualizado.
Em entrevista ao Mobile Time, o executivo da NEO Estech explica que o ataque não foi complexo. “Não foi necessária nenhuma sofisticação. Simplesmente exploraram equipamentos antigos, sem atualização e que tinham conexão à internet”, diz. Por essa razão, ele acredita que a lista de suspeitos pode ser bem longa. No entanto, destaca que três possibilidades são as mais plausíveis:
- Sabotagem com o objetivo de provocar desestabilização;
- Extorsão ou teste para, futuramente, vender o acesso ao sistema;
- Demonstração de capacidade técnica para ganhar notoriedade.
Vulnerabilidade de longa data
A invasão, segundo a agência de notícias Reuters, pode não ter afetado apenas a França, mas também outros países europeus, como Alemanha, Bélgica, Espanha, Luxemburgo, Polônia e Portugal. A vulnerabilidade dos sistemas de refrigeração já havia sido alertada em incidentes ocorridos em 2023 e em agosto de 2026. Painéis de controle de automação responsáveis pelo gerenciamento da temperatura e da rotina de manutenção dos congeladores estavam expostos. Quando não estavam sem atualizações, apresentavam senhas fracas.
O head da NEO Estech afirma que supermercados normalmente centralizam o funcionamento de câmaras, balcões e racks de compressores dos aparelhos de refrigeração em um controlador central, chamado de supervisório. “É um pequeno computador com uma tela web onde o técnico ajusta temperaturas, programa degelos e vê alarmes”, detalha.
Para facilitar a manutenção, diversas lojas publicaram essa tela na internet. De acordo com Cocchiaro, há buscadores que identificam essas telas. A partir daí, os atacantes entram no sistema e acionam o degelo. “O degelo é uma função normal, só que foi deixado ligado por horas, e o equipamento passou a aquecer os produtos em vez de resfriar”, ressalta.
A exposição de telas na web representa um risco para qualquer tipo de automação, como sistemas de climatização de hospitais, geradores, bombas d’água, processos industriais, controles de acesso e câmaras de vacinas e medicamentos, entre outros. “O padrão se repete: equipamento antigo, acesso remoto para facilitar a manutenção, senha fraca ou falha conhecida, e ninguém olhando de fora se aquilo está visível”, critica o executivo.
Dá para prevenir?
Tanto no Brasil quanto na Europa, há diretrizes que obrigam setores essenciais a gerenciar riscos cibernéticos. A questão é que a regulação brasileira não inclui o setor de alimentos como infraestrutura crítica, deixando a responsabilidade nas mãos de cada rede ou prestadora de serviços.
O especialista acredita que a medida mais eficaz e barata é justamente retirar os supervisórios da internet, restringindo o acesso para que só possa ser realizado por meio de VPN ou de endereços IP autorizados.


