Por sua própria origem, o jornalismo moderno sempre foi uma prática burguesa. Tanto do lado dos produtores quanto das audiências. Essa realidade de casta privilegiada, pelo menos no Brasil, se manteve até pouco tempo. Pelos idos de 2008, segundo reportagem da Folha de S. Paulo sobre uma pesquisa do Ibope, apenas 20% das pessoas liam jornais com assiduidade. Revistas, 27%.

Na verdade, o jornalismo audiovisual (rádio e televisão) foi o único de massa, dentro de um pacote de entretenimento que favoreceu à alienação de toda uma população. Mesmo hoje, no avançado do século XXI, o Brasil tem apenas 35% de brasileiros alfabetizados no nível consolidado, segundo o Inaf.

Só que quando o celular começou a se popularizar, trouxe consigo a notícia para a mão de todo mundo. No começo, ainda como valor agregado, com SMS e WAP. Depois, com a evolução dos dispositivos para smartphone e da rede para 3G, também ali por 2008, os dados começaram a inverter o jogo com a voz.

Leitura de notícias, independentemente da qualidade, virou uma prática universal. As pautas diversas, em um ritmo alucinante, passaram a ser consumidas (e repassadas) nas redes por quem antes não tinha familiaridade com o formato “manchete, subtítulo e imagem”.

Portanto, é lógico assumir que as distorções apareceriam, afinal, à nova audiência embarcava um público pouco preparado e, a bem da verdade, sempre tratado de forma marginal pelo establishment.

Nesse intenso contexto de transição midiática, lógico que oportunistas aparecem, de tudo quanto é lado. Daí o fenômeno das fake news e da desinformação virou praga cognitiva. Ao mesmo tempo, o antigo posicionamento da imprensa como detentora do monopólio do jornalismo se deteriorou. A imprensa continua peça-chave, mas, diante dessa escala universal, é preciso fortalecer a infraestrutura jornalística de todas as organizações com credibilidade.

O período de rearranjo já passou, agora os oportunistas precisam ficar para trás. Todo mundo já sabe que o papel de informar não é mais só da imprensa. Agora a tônica da comunicação de toda marca deve ser informativa, editorial. Ao contrário do sistema anterior, que privilegiou a persuasão.

O atual modelo tem como premissa o compromisso com a informação, com o jornalismo como linguagem para geração de confiança, reputação e marca. Fortalecendo a infraestrutura editorial necessária para a potência da mídia móvel. Não só no conteúdo “boring” (as aspas são intencionais, para quem entende que aprofundamento é chato). Mas, sobretudo, no entendimento de que o meio é a mensagem.

Pois se a mídia e a mensagem se movem juntas, a distribuição se torna ainda mais visceral. É preciso fazer chegar o conteúdo correto e necessário nas mãos de toda e qualquer audiência, sejam pessoas, sejam algoritmos.

Por isso, as organizações economicamente relevantes precisam ser competentes editorialmente. Precisam contribuir com a pauta de forma produtiva, com o contexto completo em plataforma própria, o que garante qualidade de origem do conteúdo. Inclusive para alimentar, com protagonismo, os grandes modelos de linguagem (LLMs).

Com o celular, a universalização do jornalismo já aconteceu. Os formatos, dispositivos e redes estão aí para serem desenvolvidos e usados de forma profícua e legítima. Evoluir a infraestrutura editorial não cabe mais somente à imprensa, pois toda organização com credibilidade deve buscar, de alguma forma, a liderança de pensamento na comunicação contemporânea. O dever e a oportunidade estão justamente aí.

PS: para quem quiser resgatar as origens do jornalismo através do celular, coloco à disposição da audiência desse Mobile Time minha dissertação de mestrado: “Notícias no celular: uma introdução ao tema”. Defendida em novembro de 2005 na ECA-USP, foi a pesquisa pioneira sobre telefonia celular e jornalismo no Brasil, conforme estudo “Mapeamento da pesquisa em Jornalismo Móvel no Brasil (2005-2020)”. De autoria da Prof.ª Dra. Maria Evangelista de Sousa, o estudo mapeou 60 dissertações e teses acadêmicas sobre o tema e está disponível no portal de periódicos da UFSC.

 

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As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA