O movimento de parar a tramitação de aprovação do Redata (PL 278/2026) por parte do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, está fazendo com que as empresas mantenham congelados os novos investimentos em data centers. É o que explica Marcus Vinícius de Oliveira, diretor de estratégia da Engemon Engenharia.

Em conversa exclusiva com Mobile Time nesta semana, o executivo detalha que quando o governo federal lançou o Redata, a maioria dos projetos foram congelados pela expectativa de uma melhora no cenário com a promulgação, em especial na importação de equipamentos.

Sem a aprovação do texto do Redata em um cenário instável e de incerteza jurídica, os empresários do setor que fariam novos centros de dados mantiveram os projetos congelados, ou seja, o momento é de “projetos represados”. Porém, Oliveira reforça que os projetos estão em pausa e não foram cancelados ainda.

Atualmente, a Engemon é parceira dos players de cloud na construção de data centers no Brasil, em especial na região de Barueri, cidade da região metropolitana de São Paulo. Esse apoio é feito por meio de quatro empresas do grupo:

  1. Engemon Engenharia, a mais antiga do grupo, com 35 anos e atuação em data centers desde os anos 2000;
  2. Engemon Services, empresa voltada à operação e manutenção dos espaços;
  3. Engemon IT, que entra com serviços de infraestrutura e aluguel de equipamentos;
  4. E a mais nova é a Engemon Energy, voltada para o fornecimento de soluções de energia para o mercado de data centers.

Tarifaço e os data centers

Outro problema que surge é o recente tarifaço (resolução 852/2026) imposto pelo Comitê de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Apesar do colegiado ter recuado em 120 produtos TICs na última sexta-feira, 27, os equipamentos de informática voltados ao desenvolvimento e upgrade de data centers não entraram na mudança e seguem como alíquotas de 18% para equipamentos de média capacidade e 25% para servidores de grande capacidade.

Para o diretor da Engemon, o cenário das tarifas não é o ideal, pois incide nos produtos que a companhia oferece a seus parceiros. Mas lembra que há maneiras de contornar esse problema, ao lembrar que atuam como EPCistas (Engineering, Procurement and Construction, no original em inglês), em outras palavras, um fornecedor de engenharia, aquisição e construção em grandes projetos.

“Ou seja, eu tomo conta de toda a cadeia necessária para entregar a chave do data center na mão ao meu cliente. Portanto, como uma empresa habituada a trabalhar em toda essa jornada, nós temos diversas medidas para mitigar os impactos desses de imposto sobre esses equipamentos que estão sob o meu poder”, diz. “Vou trabalhar, por exemplo, em uma negociação comercial e dividir com o meu parceiro essa sobretaxa para não chegar no cliente final. Em outros casos, nós vamos nos aproveitar do momento de queda do dólar. Então, essa situação específica tende a ser contrabalanceada por uma diminuição, por um enfraquecimento do poder do dólar frente ao Real”, completa.

No entanto, uma outra celeuma são os equipamentos que não atuam como os servidores. Oliveira lembra que o aumento da alíquota eleva o custo de capital (Capex). Isso força muitos clientes da Engemon (em maioria, multinacionais) a considerarem se mantém a construção de seus data centers no Brasil ou se levam para outro país da América Latina.

Expectativas e projetos da Engemon

Apesar de incertezas regulatórias, jurídicas, tarifárias e projetos represados, a Engemon segue com uma previsão otimista sobre o mercado brasileiro de centros de dados. O executivo de estratégia acredita que a demanda pelos serviços de inteligência artificial e de processamento de dados continuarão crescendo no Brasil e no mundo, um cenário que favorece o país pela disponibilidade de energia renovável.

Com este cenário, a companhia segue para inaugurar nesta quarta-feira, 4, sua nova sede em Alphaville para atender uma forte demanda de serviços gerenciados em operações críticas. Após crescer 109% em 2025 e mirar uma receita de R$ 100 milhões para 2026, o novo espaço chega para atender os clientes e possui 1 mil metros quadrados com 200 posições de atendimento (service desk, no original em inglês). O local também conta com uma assistente proprietária com IA que reduz em 30% os chamados prioritários, a EVA.

Também está em curso o Projeto DNA, um campus tecnológico para quatro data centers em uma área de 150 mil metros quadrados também em Alphaville. Desses, dois centros de dados já estão prontos com 25 mil metros quadrados e capacidade de 20 megawatts (MW) cada.

Com arquitetura que inclui redução de ruído (por estar em área residencial), formato horizontal e circuito fechado de resfriamento para não consumir água de forma recorrente, os data centers atenderão o mercado de atacado (um hyperscaler) e varejo (vários clientes menores). Os nomes dos clientes não foram divulgados, mas Oliveira estima que o investimento inicial de um hyperscaler para colocar seus equipamentos, serviços e profissionais no espaço varie entre US$ 450 milhões e US$ 500 milhões.

Os dois data centers remanescentes do projeto estão atualmente em fase de desenvolvimento de engenharia com expectativa de construção e desenrolar dos empreendimentos nos próximos três anos.

Alphaville (ainda) a rainha dos data centers

O diretor da companhia conta ainda que Alphaville é estratégico para a construção de data centers. Apesar de muitos players estarem caminhando para outras localidades, como Ceará, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, e do imposto municipal (ISS) não ser atraente como era no passado, o bairro de Barueri tem vantagens como:

  • Disponibilidade de linhas de transmissão de energia robustas;
  • Proximidade com ponto de presença (PoP) e facilidade de acesso às empresas e serviços de telecomunicações;
  • Custo do terreno é muito mais barato que na capital, São Paulo, algo que viabiliza o Capex.

Mas principalmente, Oliveira explica que “a definição geográfica do data center depende da aplicação” e da natureza da sua operação, em especial considerando operações de inteligência artificial e de aplicações que demandam baixa latência: “Se começamos a falar de uma natureza de operação para IA, por exemplo, a sua distância para o público dos grandes centros se torna um requisito negociável”, diz ao reforçar que muito do core das operações de IA ocorrem em locais mais distantes do consumidor.

“O data center não precisa estar perto da população. Portanto, isso não é um requisito para essas operações de IA. Mas para aplicações que operam processos cuja latência tem que ser menor, você precisa estar mais perto da população. Aí sim faz sentido estar em local próximo aos grandes centros”, detalha.

Imagem principal: Ilustração produzida por Mobile Time com IA.

 

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