O presidente da Watch (AndroidiOS) e líder do conselho antipirataria da Abotts, Maurício Almeida, afirmou que a tecnologia traz a possibilidade de virar o jogo contra a pirataria de conteúdo no streaming, assim como de conscientizar o consumidor a não adquirir esses conteúdos de forma ilegal, inclusive no mobile.

Em conversa recente com Mobile Time, Almeida explicou que o combate à pirataria no mobile é mais difícil e complexo, em especial pelo volume de aplicativos que precisam passar pelo crivo dos markeplaces de apps: “Uma fabricante do exterior [com loja de app própria] compartilhou que antes eles avaliavam 50 apps por semana. Agora são 1 mil apps por semana. Quer dizer, a quantidade de apps que passam pelo crivo deles é insana”, disse.

“Vejo uma vontade e uma responsabilidade deles (marketplaces) de quererem resolver, mas o volume de desenvolvimento e de produção dos aplicativos ficou muito grande. Hoje com no code e low code, qualquer um cria um aplicativo muito rápido”, disse.

Pirataria no mobile

Em sua visão, a única estratégia viável contra apps é notificar a Anatel e solicitar que sejam removidos. Deu como exemplo o aplicativo My Cinema, que foi bloqueado recentemente em operação da Anatel.

Mas o líder da Abotts acredita que também é necessário um trabalho de conscientização do consumidor. É o caso do próprio My Cinema, que enviava aos usuários o arquivo de instalação (APK) do app no celular. Ou seja, o consumidor fazia o desbloqueio (jailbreak) e baixava um aplicativo que não estava nas lojas de apps.

“Olha o risco que o consumidor estava correndo. A pessoa baixava um app fora da loja e traz um código-fonte para rodar no seu celular. Eles (consumidores) não fazem ideia da porta que estão abrindo. Estão abrindo a segurança do handset que tem os apps de banco, o Gov.BR. Quer dizer, a nossa vida está no celular hoje. Dependendo, um criminoso pode assinar por você, fazer um contrato, vender sua casa. É surreal”, relatou.

“Porém, acredito que os consumidores brasileiros correm o risco por desconhecimento, não por má-fé”, completou, ao lembrar do caso de usuários que abriram chamado no Reclame Aqui com o fim do My Cinema, pois não sabiam que o serviço era pirata.

CDNs e meios de pagamentos

Outra dificuldade apontada pelo executivo são os provedores das redes de distribuição de conteúdo (CDN). Almeida explicou que a relação dos players que combatem a pirataria com as CDNs é complicada, devido ao conflito de interesses que muitos deles passam por receberem dinheiro dos piratas. Também vê dificuldade no apoio dos meios de pagamentos que aceitam as transações dos piratas.

O líder do grupo antipirataria da associação acredita que tanto CDNs como os meios de pagamentos podem ajudar no combate com o uso da tecnologia, como ao reconhecer que aquele recebedor de pagamento vende produto pirata ou identificar o alto volume de tráfego das CDNs em dias de jogos por pessoas que não são distribuidores de conteúdo credenciados.

“A hora que trouxermos (para o combate aos piratas) as CDNs, os meios de pagamento e as empresas de DNS que fazem a gestão dos endereços de internet, eu te digo que vai ser praticamente impossível fazer pirataria não só no Brasil, mas no mundo”, disse.

Ações e combate

Como ações práticas para 2026, Almeida revelou que o mercado de streaming e conteúdo legal está trabalhando com Anatel e Ancine para diminuir a janela de bloqueios. Isso será feito com apoio da ABTA e um fornecedor de tecnologia para criar um sistema com 2,4 mil provedores para informar em tempo real o avanço dos piratas no tráfego das ISPs, de modo a apoiar a ação dos reguladores.

Com este “exército de ISPs” atuando contra a pirataria, o executivo acredita que será muito mais fácil caçar os piratas, inclusive no mobile, uma vez que grande parte dos consumidores utilizam aplicativos móveis em rede domésticas (Wi-Fi) e faixas etárias mais jovens preferem usar o mobile em casa. Deu como exemplo o uso de tablets por crianças de até 12 anos de idade e o mobile empatado com PC no grupo de 25 até 40 anos. Depois dos 40 anos, a preferência é pela TV.

Também acredita que haverá mais ações de Anatel e Ancine, como a operação 404, a principal ação de combate contra crimes de propriedade intelectual que envolve órgãos de Argentina, Brasil, Equador, Paraguai, Peru e Reino Unido.

Criatividade

Apesar das atividades de combate aos piratas, o CEO da Watch explicou que é um jogo de “gato e rato” contra os criminosos que utilizam a criatividade para piratear os conteúdos, como assinar e vender senhas de streamings famosos. Almeida dá como exemplo um próprio caso de sua empresa que pegou um pirata por meio de sua área de cibersegurança.

Neste golpe, um assinante de um provedor do nordeste adquiriu o serviço de banda larga com os conteúdos da Watch. A partir do acesso, o criminoso percebeu que um assinante ficava sempre online. Com isso, o assinante abriu abas diversas no navegador com o conteúdo distribuído pela Watch e vendia para outras pessoas como links privados no YouTube, algo que durou uma semana: “Ele (criminoso) chegou a abrir 50 abas e em cada uma delas transmitia um canal linear nosso”, detalhou.

A área de cibersegurança da Watch notou a movimentação, devido ao alto volume de requisições feitas por este único assinante e agiu com tecnologia: “Hoje, um usuário da Watch pode ter até oito acessos simultâneos [dependendo do pacote que possui]. Com isso, nós começamos a criar essas limitações para entender quem era o usuário e o que estava fazendo. Ou seja, era aquela máquina do usuário no acesso, o mesmo IP, mas também começamos a consultar o MAC Address. A partir do MAC Address, o usuário não poderia ter mais do que uma URL rodando”, completou.

Imagem principal: Maurício Almeida, presidente da Watch Brasil (divulgação: Watch Brasil)

 

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