A MiQ, empresa global de mídia programática, anunciou em março a assinatura de acordo para a aquisição das operações latino-americanas da empresa de publicidade digital Adsmovil. Com a aquisição, a dona do sistema operacional Sigma, baseado em IA para conectar o ecossistema de mídia, chegou ao Brasil.
E, em abril, a MiQ adquiriu a Rocket Lab, mobile App Growth Hub que fortalecerá sua a proposta omnichannel e aprimorará o Sigma, ao integrar dados críticos mobile e regionais aos mais de 700 trilhões de sinais capturados pela empresa.
Confira a entrevista com Gurman Hundal, cofundador e CEO global da MiQ, e Eric Tourtel, CEO da MiQ para a América Latina, em que falam sobre a importância dos mercados da América Latina e brasileiro.
Mobile Time – A MiQ adquiriu recentemente a Rocket Lab e, em março, anunciou um acordo para comprar as operações latino-americanas da Adsmovil. Esses movimentos deixam claro que a empresa está fazendo uma grande aposta na América Latina. Qual é a importância desse mercado para a MiQ e quais países são considerados prioridades estratégicas?
Gurman Hundal – A América Latina é uma região extremamente estratégica para a MiQ, não apenas por seu tamanho, mas também pela velocidade com que vem evoluindo digitalmente. Vemos um ecossistema cada vez mais sofisticado, com anunciantes e agências em busca de soluções mais inteligentes, mensuráveis e integradas em um ambiente de mídia cada vez mais fragmentado.
As aquisições da Rocket Lab e da Adsmovil refletem precisamente nossa visão de longo prazo para a região. Queremos fortalecer nossas capacidades locais, ampliar nossa oferta tecnológica e nos aproximar ainda mais das necessidades específicas dos mercados latino-americanos.

Gurman Hundal, CEO Global da MiQ. Foto: divulgação
O Brasil é claramente uma prioridade devido à sua escala, maturidade digital e liderança em inovação publicitária na região. Mas também vemos enorme potencial em mercados como México, Colômbia, Argentina e Chile, onde o crescimento da TV conectada (CTV), do retail media e das soluções programáticas avançadas vem acelerando de forma muito consistente.
Nosso objetivo é construir uma operação verdadeiramente regional, combinando inteligência local com a escala e a tecnologia global da MiQ para ajudar as marcas a obter melhores resultados de negócios.
Quais são as expectativas da MiQ para o Brasil? A empresa manterá os escritórios da Adsmovil na América Latina?
O Brasil ocupa um papel central em nossa estratégia regional. É um dos mercados mais dinâmicos e avançados da América Latina em termos de adoção digital, consumo de streaming e evolução do ecossistema programático. Além disso, as marcas brasileiras estão cada vez mais focadas em desempenho, mensuração e sofisticação no uso de dados, o que cria um contexto muito favorável para as soluções oferecidas pela MiQ.
Nossa expectativa é continuar crescendo de forma consistente no país e fortalecer nossa presença local para estarmos mais próximos de clientes, agências e parceiros estratégicos.
Em relação à expansão regional, sim, nosso objetivo é continuar consolidando operações locais nos principais mercados da América Latina. A integração com a Adsmovil é muito importante nesse sentido, porque a empresa já possui presença estabelecida em diversos países da região e um conhecimento profundo das dinâmicas locais.
A ideia é preservar e potencializar essa proximidade com o mercado, combinando a experiência regional da Adsmovil com as capacidades globais de tecnologia, inteligência e ativação da MiQ.
Com a aquisição da Adsmovil, a companhia passa a contar com capacidades de retail media, mobile e DOOH impulsionadas por um sistema operacional baseado em IA. Como será a estratégia da MiQ para a mídia móvel na região? E qual é a importância do mobile para o futuro da publicidade?
Eric Tourtel – O mobile continua sendo um dos pilares fundamentais do ecossistema publicitário global, especialmente na América Latina, onde, para milhões de consumidores, o smartphone é a principal porta de entrada para conteúdo, entretenimento, comércio e conexão digital em geral.
Mas acredito que a discussão já não gira apenas em torno da “publicidade móvel” como um canal isolado. O verdadeiro desafio hoje é entender como o celular conecta e alimenta experiências omnicanal muito mais amplas. O smartphone tornou-se o centro do comportamento do consumidor moderno: TV conectada (CTV), retail media, comércio, inteligência de localização e experiências físicas e digitais em tempo real.
A incorporação das capacidades da Adsmovil fortalece enormemente nossa capacidade de compreender esses sinais de comportamento e ativar audiências de forma mais inteligente e relevante. Sua experiência em mobile, retail media e DOOH complementa muito bem a visão da MiQ de construir um ecossistema programático mais conectado, impulsionado por inteligência e orientado a resultados.
Nossa estratégia será ajudar marcas e agências a aproveitar o mobile não apenas como inventário publicitário, mas como uma fonte essencial de inteligência para aprimorar planejamento, segmentação, mensuração e desempenho omnicanal.
No futuro, veremos que as campanhas mais eficazes serão aquelas capazes de integrar múltiplos pontos de contato a partir de uma compreensão muito mais profunda do consumidor, e o mobile continuará sendo uma peça central dessa evolução.
A Adsmovil construiu uma posição sólida em dados móveis, audiências hispânicas e retail media. Como essas capacidades serão integradas ao portfólio global da MiQ e que novos produtos ou soluções podem surgir dessa combinação?
Eric Tourtel – O aspecto mais interessante dessa integração é que não se trata simplesmente de somar capacidades, mas de combinar competências altamente complementares para criar uma proposta muito mais robusta para o mercado.

Eric Tourtel, CEO para América Latina. Crédito: divulgação
A Adsmovil desenvolveu um conhecimento muito profundo sobre audiências multiculturais, comportamento mobile e ecossistemas de retail media, especialmente na América Latina. A MiQ, por sua vez, aporta uma infraestrutura global de inteligência programática, capacidades avançadas de IA e uma plataforma projetada para unificar dados, insights e ativação omnicanal.
A combinação desses dois universos abre oportunidades bastante relevantes. Por exemplo, poderemos desenvolver soluções mais sofisticadas de inteligência de audiência, estratégias omnicanal mais precisas e modelos de ativação muito mais conectados entre mobile, CTV, retail media e DOOH.
Também acreditamos que haverá um enorme potencial na evolução de soluções de commerce media e mensuração cross-channel, áreas nas quais as marcas buscam cada vez mais visibilidade e capacidade de otimização em tempo real.
Mais do que lançar produtos específicos, o objetivo é ajudar os clientes a operar em um ecossistema menos fragmentado, onde os dados possam ser transformados em decisões mais rápidas, inteligentes e acionáveis.
Quais são os principais desafios de operar em um mercado como a América Latina? Que tipo de investimentos a MiQ pretende realizar para aumentar a sofisticação do ecossistema programático da região nos próximos anos?
Gurman Hundal – A América Latina é uma região extremamente diversa, e isso representa tanto uma oportunidade quanto um desafio. Existem diferentes níveis de maturidade digital, infraestrutura de dados, capacidades de mensuração e adoção tecnológica entre os mercados, de modo que não existe uma fórmula única para toda a região.
Ao mesmo tempo, observamos uma enorme velocidade de evolução. Os consumidores latino-americanos adotam rapidamente novas plataformas, formatos e hábitos de consumo, especialmente em streaming, mobile e commerce media. Isso obriga toda a indústria a evoluir em um ritmo mais acelerado.
Na MiQ, acreditamos que o desenvolvimento do ecossistema passa por três pilares fundamentais: tecnologia, talento e educação. Continuaremos investindo fortemente em capacidades de inteligência artificial, mensuração omnicanal, dados e automação para ajudar marcas e agências a tomar decisões mais inteligentes e eficientes.
Mas também acreditamos muito na construção de capacidades locais. Queremos continuar investindo em talentos regionais, parcerias estratégicas e capacitação do mercado para acelerar a sofisticação do ecossistema programático na América Latina.
Nossa visão é contribuir para a construção de um mercado publicitário mais conectado, transparente e orientado a resultados reais de negócios.
O mercado programático passa por mudanças profundas com a ascensão da IA generativa, o fim dos cookies de terceiros e a crescente pressão regulatória em torno da privacidade dos dados. Como a MiQ pretende diferenciar sua oferta tecnológica em um cenário em que as plataformas de mídia estão cada vez mais padronizadas?
Eric Tourtel – A indústria está entrando em uma nova fase na qual a vantagem competitiva não virá apenas do acesso à mídia ou ao inventário publicitário, mas da capacidade de gerar inteligência real a partir de dados, automação e interoperabilidade.
Muitas plataformas tendem a se padronizar porque oferecem acesso semelhante a inventário ou ferramentas relativamente comparáveis. O diferencial está em quem consegue ajudar os clientes a navegar melhor pela complexidade do ecossistema e transformar essa complexidade em resultados de negócios mais eficientes.
Na MiQ, investimos há anos em IA aplicada de forma prática, muito antes da atual onda em torno da inteligência artificial generativa. Nossa visão sempre foi utilizar a IA para ampliar a inteligência humana, simplificar a tomada de decisões e melhorar o desempenho em escala.
Além disso, acreditamos que o futuro será cada vez mais aberto e interoperável. As marcas não querem depender exclusivamente de ambientes fechados; elas procuram parceiros capazes de conectar diferentes ecossistemas, integrar múltiplas fontes de dados e oferecer transparência e flexibilidade.
A privacidade também será um elemento central dessa evolução. O ecossistema precisa de modelos mais responsáveis e sustentáveis, nos quais dados, relevância e proteção ao consumidor possam coexistir.
Nesse contexto, acreditamos que a combinação de IA, inteligência omnicanal, expertise humana e uma arquitetura tecnológica aberta posiciona muito bem a MiQ para a próxima geração da publicidade programática.
Grandes holdings de publicidade e plataformas como Google e Amazon Ads vêm ampliando suas soluções proprietárias de compra de mídia e dados. Como a MiQ avalia seu posicionamento competitivo diante desses players globais?
Gurman Hundal – Ao contrário de plataformas fechadas ou soluções centradas em um único ambiente, a MiQ atua de forma agnóstica e flexível, ajudando marcas e agências a navegar por um ecossistema cada vez mais complexo e fragmentado. Nosso foco não é competir com plataformas específicas, mas maximizar o valor que os clientes podem extrair de todo o ecossistema programático.
Acreditamos que as marcas precisam hoje de parceiros estratégicos capazes de integrar dados, tecnologia, mensuração e ativação omnicanal de maneira muito mais inteligente. É nesse contexto que nossa combinação de inteligência artificial, expertise humana e capacidade global de execução cria uma proposta muito sólida.
Além disso, um aspecto muito importante para nós é manter uma abordagem totalmente orientada a resultados e transparência. Em um cenário em que os anunciantes buscam cada vez mais eficiência e prestação de contas (accountability), acreditamos que esse posicionamento se tornará ainda mais relevante no futuro.

