Cerca de 15 anos atrás, no começo da explosão dos smartphones, vivíamos a onda das over-the-top (OTT), termo cunhado para se referir aos serviços digitais prestados sobre as redes de telecomunicações fixas e móveis sem qualquer acordo comercial com as operadoras. Assim eram chamados os primeiros apps de mensageria e VoIP, como WhatsApp e Viber. A alcunha também era aplicada aos primeiros serviços de streaming, como o Netflix.
O sucesso das OTTs contribuiu para o declínio do modelo de walled garden das operadoras móveis, cuja fundação começou a ruir alguns anos antes, com o advento das lojas de aplicativos para iOS e Android.
O problema é que as OTTs não ameaçavam apenas a venda de serviços de valor adicionado (SVAs) das operadoras móveis, mas seu core business: chamadas de voz e mensagens de texto. Por muito tempo as OTTs foram vistas como inimigas das teles, mas estas precisaram dar o braço a torcer e aceitar a convivência/competição com os novos players. Com alguns deles até se aliaram, através do zero rating. E um dos reflexos da resignação foi a mudança de planos de minutos para Gigabytes. De todo modo, o assunto ainda não está totalmente resolvido, vide a bandeira do fair share.
A vez das OTTs de OTTs
Hoje em dia, um outro fenômeno está acontecendo. Estão aparecendo as OTTs das OTTs. São empresas que estão agregando valor com serviços que rodam por cima de plataformas de OTTs. Os casos mais emblemáticos aparecem no WhatsApp, porque, afinal, o app de mensageria virou praticamente um superapp no Brasil, instalado em 98% dos smartphones brasileiros, de acordo com a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box.
Todo player que controla uma ferramenta massiva procura também controlar o ecossistema que gira ao redor dela… e garantir uma fatia da receita que terceiros fazem em cima do seu ativo. É um movimento natural e compreensivo. Foi o que fizeram as operadoras, por muitos anos, com sua estratégia de walled garden em SVAs. É o que faz o WeChat, na China, permitindo miniapps em sua plataforma.
O WhatsApp trilhou o mesmo caminho ao criar a uma API para disparo de mensagens (WhatsApp Business API) e instituir um processo de homologação dos parceiros autorizados a acessá-la, chamados de BSPs (Business Solution Providers). Até mesmo os templates das mensagens são controlados pelo WhatsApp, com o argumento de evitar contatos abusivos/indesejados que degradem a experiência do usuário final dentro do app.
Só que é difícil manter controle absoluto em um serviço massivo. Sempre há brechas a serem exploradas, sejam de ordem tecnológica ou contratual. No caso do WhatsApp, começaram a surgir serviços de IA generativa dentro do app, mas sem qualquer vínculo com a Meta. O caso mais emblemático e de maior sucesso no Brasil foi o da Luzia, um chatbot com IA generativa. Ela é uma verdadeira OTT de OTT.
A Meta não gostou dessa inversão de papéis, até porque tem outros planos de exploração de IA generativa dentro dos seus apps, através de sua assistente nativa Meta AI. Para conter o problema, decidiu mudar os termos de serviços da sua API e proibir serviços como a Luzia. No Brasil, a disputa foi parar no Cade, que abriu inquérito a partir de denúncia feita por representantes da Luzia.
Outro caso recente de OTT de OTT virou notícia esta semana, desta vez no exterior e envolvendo o Google. A big tech entrou com uma ação contra a SerpApi, empresa que construiu uma solução que, na prática, revende os resultados de busca do Google para empresas de bots.
Meta e Google têm poder econômico suficiente para impedir que empresas pequenas atrapalhem seus modelos de negócios. A não ser que encontrem pela frente órgãos judiciais independentes e dispostos o suficiente a defender os mais fracos em prol da livre concorrência.
Difícil prever o final desses casos em particular, mas não deixa de ser interessante acompanhar as voltas que o mundo dá. Como diz o ditado popular: um dia é da caça e outro, do caçador.
A ilustração no alto foi produzida por Mobile Time com IA


