Em 2024, a Apple fez um gesto de boa vontade a reguladores europeus e abriu o iOS para o RCS, a evolução do velho (e péssimo) SMS. Ótimo, porém tarde demais.

RCS, sigla de Rich Communication Service, é o SMS via internet, com todos os benefícios decorrentes dessa melhoria, como suporte a imagens de alta qualidade, recibos de leitura e indicadores de digitação e mensagens de áudio.

Em outras palavras, é a “versão WhatsApp” do SMS.

Brasileiros com iPhone tiveram que esperar mais um ano. O suporte depende das operadoras e de uma negociação com a Apple (acho?). As brasileiras não demonstraram urgência para oferece o RCS a esses clientes.

Quem usa Vivo, recebeu o RCS no iOS 26. Clientes da TIM foram agraciados no iOS 26.2. Há indícios de que a Claro ganhará suporte no iOS 26.3.

No Android, o RCS é passageiro de primeira classe há muitos anos. Não por acaso, já que o Google é o principal ator na tragicomédia da adoção do iMessage nos Estados Unidos.

Sim, porque onde o WhatsApp reina, ninguém liga para RCS, SMS ou qualquer outro app de mensagens. E o WhatsApp reina no mundo inteiro, com exceção de EUA e China.

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Empolgado com a chegada do RCS ao Brasil, resolvi fazer alguns testes. Não só pelo desgosto em depender de um aplicativo da Meta, mas porque o WhatsApp é muito, muito ruim. Pesado, invasivo, cheio de extras que não me interessam (Status, canais etc). O de computadores é inacreditável de ruim. Inconcebível que um app de troca de mensagens precise de 1,5 GB de memória para funcionar.

O Mensagens, aplicativo padrão da Apple para SMS, RCS e iMessage, não é a melhor coisa do mundo, mas está anos-luz à frente do do WhatsApp. É leve, econômico e direto. Ainda. A cada grande atualização do iOS/macOS, a Apple enfia mais penduricalhos no Mensagens, um esforço notável em tentar piorar um negócio que estava bom do jeito que era há uns dez anos.

Este teste com pretensão de se tornar permanente começou com o grupo de assinantes do Manual do Usuário, que funciona no — adivinhe — WhatsApp. Em um belo dia, ocorreu-me que seria legal migrar o grupo para o RCS. E… por que não? Afinal, não precisava acabar com o do WhatsApp para ter o grupo no RCS; os dois poderiam coexistir por algum tempo.

O primeiro teste acabou se revelando o mais desafiador. O RCS não foi feito para grupos grandes com pessoas desconhecidas ou semi-conhecidas. Faltam ferramentas de moderação (qualquer um pode mudar tudo no grupo) e detalhes que, no acumulado, incomodam.

Um detalhe bobo, mas que enche o saco? Quando alguém do lado da Apple conversa com uma pessoa que tem Android, as reações são informadas com uma repetição da mensagem em questão. Assim:

reacoes rcs

Imagine isso em um grupo grande, com algumas dezenas de pessoas. Não demora muito para o ambiente tornar-se caótico.

Outra regressão é a ausência de respostas diretas a mensagens. No iMessage (o “WhatsApp da Apple”), o sistema é dos mais elegantes. No RCS, sequer existe.

A identificação também não funcionou, mesmo com ambos os apps (Mensagens do Android e do iOS) tendo campos para você colocar seu nome e uma foto. Em poucas pessoas deu certo, mas a maioria aparecia com um avatar padrão e o número de telefone como identificador. Brinquei que passaríamos a chamar uns aos outros pelos quatro últimos dígitos do número.

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É difícil não imaginar que esses lapsos sejam intencionais, a exemplo da bobagem dos balões de mensagens verdes/azuis. (Para quem está por fora: balões azuis significam iMessage e os verdes, SMS ou RCS.)

Soa a mesquinharia, mas não surpreende. Em 2022, em uma coletiva com jornalistas, um deles perguntou sobre o suporte a RCS, então inexistente no iOS, argumentando que sua mãe não conseguia ver os vídeos que ela enviava. O CEO da Apple, Tim Cook, disse a ele que comprasse um iPhone para sua mãe. Quanta classe!

O pior problema, porém, demorou algumas semanas para se manifestar. Quando o grupo já estava às moscas, mandei uma mensagem perguntando se havia sobrado alguém ali.

A mensagem quebrou o grupo.

Por algum motivo que desconheço, a mensagem não foi entregue ao grupo. Em vez disso, ela foi distribuída para cada membro em conversas individuais. Quem tinha iPhone recebeu por iMessage; quem não tinha, por RCS. Meu celular estava configurado para não enviar SMS, o que gerou uma cascata de erros para quem não conseguiu receber por RCS.

falhas envio mensagens

A história fica ainda mais estranha porque o grupo só tinha gente com iPhone ou Android com suporte a RCS. Foi feito assim porque o sistema “nivela por baixo”: se uma pessoa sem acesso a RCS ingressa no grupo, ele passa a ser um grupo de SMS, ou seja, cheio de limitações.

Será que alguém mudou de operadora? O celular “esqueceu” do RCS? Ou algum erro de operadora causou uma indisponibilidade temporária que destruiu o grupo?

Esse mesmo problema apareceu em outro grupo menor, que fiz com pessoas da minha família (um iPhone na Vivo, dois iPhones na TIM e um Android na TIM). Com menos gente, foi possível verificar que o telefone que causou a quebra foi um dos iPhones na TIM.

Para conversas privadas, entre duas pessoas, o RCS funciona bem. Minha sócia na Célere topou migrar do WhatsApp para o RCS, sensibilizada pelo sufoco que meu notebook, com seus parcos 8 GB de RAM, passava para rodar o aplicativo web do WhatsApp.

Sim, as pequenas inconveniências já mencionadas (reações esquisitas, ausência de respostas diretas) persistem. De resto, tudo funciona como o esperado, o que significa que funciona bem, mesmo com os balões verdes.

(O incômodo com as cores, aliás, não é infundado. A taxa de contraste das letras brancas sobre o tom de verde adotado pela Apple tem um contraste baixíssimo, o que dificulta a leitura. Os balões azuis não se saem muito melhor, só são um pouco menos pior, o que já faz uma grande diferença.

Consegui, também, falar com pessoas que não são ligadas à tecnologia. Elas ficaram surpresas com a existência do RCS, sigla que desconheciam. Não tivemos problemas nas trocas de mensagens.

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Sem contexto, o RCS funciona bem. Poderia usá-lo no lugar do WhatsApp sem prejuízo e com menos funcionalidades que considero dispensáveis, como figurinhas. (Eu sei que sou chato e minoria aqui.)

A experiência só é quebrada quando se exige um pouco mais do padrão, como o uso para grupos grandes. Mesmo com novidades empolgantes no horizonte, como a vindoura criptografia de ponta a ponta entre iPhone e Android que deve aparecer no iOS 26.3, é difícil um padrão aberto acompanhar o ritmo dos fechados.

O que não seria um problema, se não fôssemos tão sedentos por novidades. A UX perfeita para um app de mensagens se manifestou no primeiro Google Talk. Era uma janelinha com texto e só. Quem precisa de mais do que isso?

Mesmo que o RCS conseguisse, por algum milagre ou imposição estatal, ficar a par dos aplicativos de terceiros, a triste ironia é que não importa. A força gravitacional do WhatsApp em lugares como o Brasil é tão esmagadora que ele conseguiu a proeza de se sobrepôr a um aplicativo padrão, que já vem instalado em todos os celulares. Não é pouca coisa.

As operadoras parecem confortáveis com o domínio do WhatsApp, ou desinteressadas em concorrer com a Meta. A liberação a passos de tartaruga do RCS para o iOS no Brasil é um forte indício nesse sentido. Outro, um problema de longa data, é o sucateamento do SMS/RCS, sinônimo de tentativas de golpe, spam e códigos de segundo fator de autenticação (2FA). A indústria se gaba de transformar o aplicativo em um lixão digital.

Uma amiga com quem tentei conversar por mensagens (iMessage, no caso) sequer tinha notado que eu lhe enviara uma mensagem. Só a viu horas depois, quando mencionei o caso na mesa do bar. Outra já tinha desativado as notificações do aplicativo de mensagens e dei a sorte de ela tê-lo aberto para pegar um código de 2FA poucos minutos depois de eu ter enviado uma.

Ainda acho que daria para virar o jogo: com uma campanha total nos meios de comunicação, melhores condições em todos os planos (ou seja, gratuidade de SMS e RCS), fim do zero-rating para o WhatsApp e outros incentivos. Se isso rolar, será ótimo. Alguém me avise no WhatsApp, por favor.

 

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