|Mobile Time Latinoamérica| A América Latina deu um passo histórico no desenvolvimento de inteligência artificial com o lançamento do Latam GPT, o primeiro modelo de linguagem de grande escala projetado e treinado especificamente para compreender os idiomas, culturas e realidades da região.

O lançamento da iniciativa ocorreu nesta terça-feira, 10 de fevereiro, em Santiago do Chile, e contou com a presença do presidente da República, Gabriel Boric; do ministro da Ciência, Aldo Valle; do diretor do CENIA, Álvaro Soto; do Especialista Principal de Cidades Inteligentes e Desenvolvimento Digital do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), Marcelo Facchina; do líder de Tecnologia da Amazon Web Services para o Cone Sul, Rafael Mattje; e do diretor executivo do Data Observatory, Rodrigo Roa.

A iniciativa é coordenada pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial (CENIA) e reúne mais de 100 profissionais, 60 instituições acadêmicas e tecnológicas, 65 alianças formais e colaboradores de mais de 15 países, consolidando-se como um dos projetos colaborativos de IA mais ambiciosos do hemisfério sul.

Diferentemente dos modelos predominantes, treinados majoritariamente com informações em inglês e referências culturais do Norte Global, o Latam GPT foi concebido desde a origem com dados, línguas e contextos próprios da América Latina e do Caribe, permitindo captar nuances linguísticas, históricas, políticas e culturais do território.

“Latam GPT não é apenas um desenvolvimento tecnológico, é um sinal concreto de que a região pode trabalhar de forma coordenada para criar capacidades próprias em um campo estratégico como a inteligência artificial”, destacou Marcelo Facchina durante o lançamento.

Segundo ele, trata-se do primeiro modelo de linguagem de grande escala construído a partir da América Latina e do Caribe, capaz de compreender a diversidade de línguas, identidades e realidades sociais da região.

Um modelo aberto e colaborativo

Para a CAF, o Latam GPT faz parte de uma agenda mais ampla voltada a reduzir lacunas digitais e fortalecer capacidades regionais, sob uma abordagem aberta e colaborativa.

O modelo foi construído a partir do Latam GPT Corpus, um conjunto de dados com aproximadamente 300 bilhões de tokens, um dos maiores repositórios linguísticos sobre a América Latina.

“Os modelos atuais sabem muito pouco sobre nossa região. Apenas entre 2% e 3% dos dados que os treinam vêm da América Latina e do Caribe”, explicou Álvaro Soto, diretor do CENIA e líder da iniciativa. “O Latam GPT demonstra que podemos ser protagonistas do desenvolvimento tecnológico global, com talento local e ferramentas de alto nível.”

O modelo foi treinado para compreender as variantes do espanhol e do português, além das histórias, memórias e identidades culturais latino-americanas, permitindo processar, gerar e analisar linguagem de forma contextualizada, com aplicações potenciais em pesquisa científica, gestão pública, educação e desenvolvimento tecnológico.

Para Rodrigo Roa, diretor executivo do Data Observatory, o impacto do projeto vai além da tecnologia: “Este projeto não entrega apenas um modelo próprio de inteligência artificial, conectado com nossa identidade cultural e diversidade, mas também fortalece nossa soberania digital.”

Infraestrutura e computação em larga escala

O desenvolvimento do Latam GPT exigiu uma infraestrutura tecnológica robusta, capaz de sustentar um modelo com 70 bilhões de parâmetros, treinado continuamente a partir do modelo base Llama 3.1 na nuvem da Amazon Web Services (AWS).

“Aqui é onde a infraestrutura se torna fundamental. Desenvolver um modelo dessa magnitude requer capacidade computacional massiva, armazenamento seguro de dados e redes de alta velocidade”, afirmou Rafael Mattje.

Um bem público e aberto

O Latam GPT foi concebido como um bem público e um modelo aberto. Seu código, dados do corpus, benchmarks e relatórios técnicos serão publicados, com algumas restrições para grandes empresas comerciais de IA. Em contrapartida, empreendedores e desenvolvedores latino-americanos terão acesso para criar soluções alinhadas às necessidades locais.

“Ter um modelo que compreende profundamente o que significa ser latino-americano — nossa adaptação, resiliência e contexto — nos permite desenvolver soluções que realmente respondam aos desafios da região”, disse Mattje.

Identidade e futuro digital

O lançamento também contou com apoio político. O presidente do Chile, Gabriel Boric, destacou o valor estratégico da iniciativa: “A linguagem atual, gostemos ou não, está sendo moldada pela inteligência artificial. Não precisamos temê-la, mas vê-la como uma oportunidade. É isso que o Latam GPT está fazendo.”

Para o mandatário, o projeto vai além do aspecto técnico. Longe de ser um desenvolvimento restrito a especialistas, o Latam GPT representa a defesa da identidade cultural e do direito da América Latina de existir e crescer dentro do ecossistema digital global.

“Para alguns, criar um gerador de linguagem a partir da América Latina pode parecer algo de ‘nerds’, mas na verdade estamos defendendo nossa identidade e nosso direito de existir”, afirmou.

Com um impacto projetado que pode aumentar a produtividade de até 50% da força de trabalho latino-americana, o Latam GPT fica disponível para governos, universidades e empreendedores como uma plataforma aberta para o desenvolvimento de soluções éticas, transparentes e alinhadas às necessidades da região.

 

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As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA