O Hospital das Clínicas (HC) está apostando na interoperabilidade para resolver um problema cuja solução é discutida há cerca de dez anos: o compartilhamento de informações de pacientes entre instituições de saúde. Atualmente, os dados ficam fragmentados em diferentes locais de atendimento, o que prejudica atendimentos de emergência e até a continuidade do cuidado.
A iniciativa faz parte do OpenCare, projeto do InovaHC, braço de inovação do hospital. De acordo com Márcia Ogawa, consultora sênior do InovaHC, o OpenCare terá uma segunda camada com a chegada do OpenCare Interop. A primeira (OpenCare 5G) está em operação desde 2022, cujo foco foi usar infraestrutura 5G para levar atendimento médico a áreas mais distantes, de exames a consultas. “Só que não adianta oferecermos esse serviço, se as informações ficam retidas no local onde o paciente está passando pelo exame”, disse Ogawa, em evento realizado pela Deloitte, nesta quarta-feira, 4.
Intrigada com a ausência de um sistema que integrasse os players do setor de saúde, a consultora do HC lembrou de sua experiência na Deloitte na área financeira, mais precisamente da assistência que a empresa deu à Câmara Interbancária de Pagamentos para implantar o TED, que funciona a partir do compartilhamento de dados. “Foi aí que eu pensei ‘por que não aplicar esse conceito no setor da saúde’?”
No entanto, o debate de uma década não era por acaso. Empresas do segmento mostravam preocupação com a gestão de dados e como isso poderia ferir sua competitividade. “Essa responsabilidade era um dos entraves para a interoperabilidade. Porque além da sensibilidade dos dados, havia a preocupação sobre o que divulgar sem ficar vulnerável ao concorrente”, apontou.
HC à frente
Diante desses dilemas, a governança do OpenCare Interop é responsabilidade do HC. Segundo a consultora do hospital, o entendimento foi de que a instituição é um agente neutro, por ter parcerias com o setor privado e ser do sistema público.
Para garantir a segurança das informações, o compartilhamento será a partir da leitura de prontuários por uma IA – conforme o padrão universal de saúde HL7 FHIR para essa troca de dados –, uma espécie de tokenização com a tecnologia da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), algo inédito no mundo.
O Open Care Interop será financiado pela B3 e terá diversos players do setor como membros, a exemplo de hospitais, laboratórios, seguradoras, indústrias, redes de farmácia e o próprio SUS. “Ter essa estrutura dentro do OpenCare será um facilitador para o paciente, porque além da praticidade, ele poderá ter acesso a um atendimento melhor e mais rápido. Isso porque o médico terá uma visão completa sobre ele, com base em atendimentos anteriores na rede de saúde”, destacou Ogawa, dizendo que o acesso às informações só acontecerá mediante autorização do paciente.
Em prova conceito controlada, a iniciativa do HC vem agradando seus membros, de acordo com a consultora do InovaHC. Ela acredita que com o maior fluxo de informações, o uso de IA pelas empresas do setor de saúde deverá ser ampliado.
Ilustração produzida por Mobile Time com IA.


