Não há dúvidas que 2025 marcou a consolidação da computação quântica como tema recorrente nas conversas estratégicas. Não à toa, a Organização das Nações Unidas (ONU) o classificou como “o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica”. Ainda que ela não estivesse totalmente no centro das decisões corporativas, as principais empresas do mundo que olham atentamente para a inovação demonstraram interesse em conhecer melhor as oportunidades geradas por essa tecnologia emergente, isso também se refletiu em uma grande repercussão e entusiasmo em torno do tema.
Por isso, 2026 começa com uma pergunta inevitável: o que realmente muda quando uma tecnologia extrapola as manchetes e entra na fase em que precisa provar seu valor? Neste ano, as tecnologias quânticas entram em uma nova fase de amadurecimento conceitual e estratégico. Embora ainda relativamente distantes de grandes disrupções industriais, já exercem influência relevante sobre decisões de arquitetura tecnológica, segurança da informação e estratégia de pesquisa e desenvolvimento corporativo.
O discurso de “vantagem quântica iminente” cede espaço a uma abordagem mais pragmática, centrada em preparação organizacional, integração híbrida e mitigação de riscos de longo prazo. Esse realismo renovado não significa retrocesso. Muito pelo contrário: indica que a tecnologia finalmente tem alcançado uma maturidade intelectual, menos guiada por expectativas futuristas e mais ancorada em decisões práticas.
As máquinas seguem evoluindo de forma contínua, com centenas ou milhares de qubits físicos, ainda ruidosos e instáveis, mas sempre lembrando que o hardware quântico não avança ao ritmo dos ciclos de negócio. A computação quântica tolerante a falhas permanece como horizonte, não como promessa para o curto prazo.
Por isso, o grande movimento de 2026 não nasce das máquinas em si, mas da arquitetura de sistemas. Nossas pesquisas realizadas no Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi), em parceria com algumas das mais renomadas universidades e entidades do planeta mostram que, na prática, o ganho real virá da capacidade de orquestrar sistemas complexos, em que o quântico não substitui, mas complementa. Muitas soluções continuarão sendo avanços clássicos inspirados por conceitos quânticos. E isso é parte natural da maturidade de uma nova tecnologia.
Mas há um vetor que acelera de forma inequívoca: a criptografia pós-quântica. Pressionada pelos padrões do NIST (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, na sigla em inglês) e pela crescente preocupação com o cenário de “coletar agora, decifrar depois”, ela se torna o pilar mais concreto da agenda quântica dentro das organizações. Pela primeira vez, segurança quântica se conecta diretamente à resiliência operacional. Inventários criptográficos, criptoagilidade e migrações graduais passam a compor discussões de conselho e não apenas de laboratórios.
Enquanto isso, uma face menos celebrada do ecossistema avança com surpreendente maturidade: os sensores quânticos. Magnetômetros, relógios atômicos, gravímetros e acelerômetros entram em ciclos reais de uso, impulsionando setores como mineração, defesa, energia, logística e telecomunicações. Não prometem revolução, mas entregam precisão e, principalmente, valor mensurável no curto prazo.
Em contrapartida, áreas como machine learning quântico e otimização financeira passam por um banho de realidade. Em 2026, devem predominar algoritmos inspirados em metodologias quânticas e executados em hardware clássico. Neste contexto, o verdadeiro quantum machine learning permanece como fronteira científica. Isso não reduz sua importância, só reforça que a evolução quântica não será igual entre frentes: algumas maduras, outras emergentes e outras ainda em investigação.
Se 2025 foi o ano em que o mundo passou a olhar de vez para o quantum, 2026 será o ano em que todos terão que aprender a lidar com ele. Dificilmente veremos disrupções transformadoras, mas será um período de consolidação, priorização e clareza. As organizações mais preparadas serão aquelas que começarem agora a estruturar competências, repensar arquiteturas, testar sistemas híbridos e fortalecer sua postura de segurança.
O futuro quântico não chega em um único salto, e sim em camadas. 2026, ao que tudo indica, é a camada da maturidade. Assim, organizações que desde já identificarem talentos, investirem em capacitação e criarem ambientes de experimentação estarão mais prontas para capturar valor quando a virada de fato acontecer. A mensagem é clara: não dá para fechar os olhos, pois o futuro pode estar mais perto do que imaginamos. E muitas organizações podem já estar atrasadas.

