Nos anos de 2000, a lanterna era não era uma ferramenta disponível dentro do sistema dos celulares. Dessa forma, quem queria fazer do flash ou da tela do celular a luz no fim do túnel precisava baixar aplicativos. Acontece que muitos não apenas iluminavam o caminho, mas também coletavam informações sobre o usuário. 

Com uma série de permissões concedidas pelos usuários – às vezes com pouca ou nenhuma transparência –, diversas empresas ganhavam acessos a diferentes funções, como excluir apps, alterar a conexão Bluetooth, além de acesso à localização e visualização de detalhes de chamadas, conforme um relatório da SnoopWall de 2014. Na época, a empresa alertava que as exigências dos apps deveriam se ater apenas ao seu funcionamento, como o uso da câmera do dispositivo. 

Embora o documento fosse apenas de ferramentas para Android, a SnoopWall, empresa de segurança cibernética que não existe mais, observou que também havia apps semelhantes para iOS e Windows Phone. No entanto, no caso desses sistemas operacionais, as aplicações não conseguiam operar em segundo plano de forma oculta, apesar de ainda conseguirem levantar um perfil sobre a pessoa, baseado na localização e no uso da rede.

Nesse período, os aplicativos de lanterna começaram a dominar os rankings dos mais baixados. Um dos mais emblemáticos foi o Brightest Flashlight Free (Android), que acumulou dezenas de milhões de downloads no Android Market – atual Play Store – mas também enfrentou consequências na Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC, na sigla em inglês), por violar sua própria política de uso e enganar seus usuários.

Flash na justiça

Em 2013, a desenvolvedora do app, Goldenshores Technologies, fechou um acordo com a FTC. Segundo investigações, a empresa compartilhava a localização e o ID do dispositivo de usuários com terceiros – como redes de publicidade –, embora oferecesse a opção de não compartilhamento. Além disso, sua política de uso afirmava que as informações seriam usadas apenas pela própria Goldenshores e não por outras companhias. Para piorar, o acesso a dados já começava antes mesmo de o consumidor aceitar ou recusar os termos de uso. 

No acordo, ficou estabelecido que a empresa deveria explicar como os dados dos usuários eram compartilhados e o nível de controle que eles tinham sobre seu compartilhamento. A FTC também exigiu que a Goldenshores explicasse sobre como, quando e por quais razões informações a respeito da localização do consumidor eram coletadas, usadas e compartilhadas. Outra exigência foi de que a companhia de tecnologia apenas acessasse as informações mediante o consentimento do usuário. Apesar do episódio, o aplicativo continua disponível até hoje na Play Store, mas com um nome mais curto: Brightest Lanterna.

Lanterna

Imagem: wirestock_creators/Freepik

Não é coisa tão do passado

Pode soar estranho, mas muitas pessoas ainda utilizam esses aplicativos. Em um estudo feito pela Avast em 2019, com 937 ferramentas do gênero na versão Android, 408 delas solicitavam dez permissões ou menos, 267 entre 11 e 49 permissões, enquanto outros 262 apps apresentavam entre 50 e 77 solicitações de permissão. Entre os pedidos de acesso apareciam solicitações inusitadas, como direito de gravar áudio.

É claro que com o aumento de smartphones com a função lanterna dentro do sistema operacional, essas ferramentas começaram a perder espaço. Hoje, segundo o site AppMagic, há apenas 237 apps de lanterna. Aquele com maior número de downloads, 500 mil, é o homônimo na versão Android da Splend Apps, que ocupa a posição 3.031 entre os mais baixados.

Imagem: ilustração da própria GoldenShores na Play Store para o seu aplicativo Brightest Lanterna.

 

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