A eleição presidencial de 2026 vai ficar marcada como a eleição dos canais de WhatsApp. Independentemente do resultado final do segundo turno, que acontecerá em 25 de outubro, a grande novidade este ano é o uso intensivo dessa funcionalidade no app de mensageria mais popular do Brasil.
Esta é a terceira eleição presidencial seguida em que o WhatsApp é protagonista na estratégia digital de partidos e de seus militantes. Em 2018, houve o uso do app para disparo de mensagens em massa. Em 2022, viu-se o fortalecimento de grupos de WhatsApp para a difusão de mensagens políticas. Entre um pleito e outro, a Meta tomou medidas para evitar o encaminhamento em massa de mensagens, limitando a um contato por vez no caso de conteúdos que viralizam.
Agora é a vez dos canais. A novidade foi lançada em 2023 como uma ferramenta de broadcast, para competir com uma similar existente no Telegram, e aonde o ex-presidente Jair Bolsonaro havia priorizado a sua comunicação digital na campanha de 2022 por receio de ser censurado em outras plataformas digitais. Nos canais de WhatsApp, os administradores controlam a publicação de conteúdos. Os membros podem interagir com “reações” e podem compartilhar as mensagens para seus contatos. Ao contrário dos grupos, não há limite de membros nos canais.
A ferramenta chamou a atenção logo depois do primeiro turno de 2026 por uma iniciativa do deputado André Janones (Rede-MG), que criou o canal “Exército do Lula”. Em poucos dias, alcançou 3 milhões de seguidores e nesta terça de manhã, 13, já tinha ultrapassado os 4 milhões. Como resposta, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) criou o canal “Tropa do Flávio”, que, nesta mesma data, tem 1,4 milhão de participantes.
Dentro dos canais, os administradores atuam como um misto de coordenadores de campanhas paralelas e animadores de militância. Publicam mensagens em texto e áudio de incentivo aos eleitores, assim como orientações de como deveriam agir para conquistar votos. O trabalho é multiplataforma: muitos dos conteúdos compartilhados dentro dos canais são de outros apps, como YouTube, Instagram e TikTok.
Há também a preocupação de levar os seguidores para outras contas do mesmo campo politico, pelo medo de o canal do WhatsApp ser fechado pela Justiça ou sofrer alguma invasão hacker. Por sinal, o canal criado por Janones quase saiu do ar por uma decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do TSE, após denúncia de propagação de fake news, mas que acabou revertida, por falta de comprovação.
É fácil entender o sucesso dos canais. O WhatsApp é o app mais popular do Brasil, presente em 98,3% dos smartphones brasileiros e na home screen de 64% deles, de acordo com a pesquisa Super Panorama Mobile Time/Opinion Box de junho de 2026. Dentro do WhatsApp, o canal é a forma mais eficiente e barata de atingir simultaneamente uma grande quantidade de pessoas.
É interessante reparar que iniciativas lideradas por deputados federais estão sendo mais bem sucedidas que aquelas oficiais dos candidatos à presidência. Enquanto o canal criado por Janones tem 4 milhões de seguidores, o oficial do Lula tem 1,4 milhão. O mesmo acontece no lado da oposição: o canal criado por Nikolas tem 1,4 milhão e o de Flávio Bolsonaro, 205 mil.
A explicação está, novamente, na estratégia multiplataforma e na enorme importância que as redes sociais conquistaram no jogo eleitoral. Tanto Janones quanto Nikolas são figuras extremamente populares em plataformas como o Instagram e seus respectivos capitais digitais contribuíram para impulsionar os novos canais de WhatsApp.
A Meta tem consciência do poder de comunicação desses canais. Seu lançamento poderia ter acontecido em 2022 mas foi adiado para o ano seguinte justamente para não impactar aquele pleito. Agora, em 2026, me parece que os políticos até demoraram para “descobrir” a ferramenta.
Talvez essa seja a primeira e última eleição com uso gratuito de canais no WhatsApp. Não me surpreenderia que uma das próximas novidades da Meta seja a cobrança pelo seu uso, tal como faz com outras ferramentas, como o disparo de mensagens pela sua API.
Seja como for, tenho certeza que em 2030 estaremos falando de alguma outra nova ferramenta ou plataforma digital apropriada para o uso eleitoral. No fim das contas, as campanhas estão aonde o povo está.


