Após enfrentar críticas na mídia e ser contestada pela ANPD, a Tools for Humanity alterou seus processos no Brasil e está pronta para voltar a expandir sua operação no país. A empresa, que tem o CEO da OpenAI, Sam Altman, entre seus fundadores, desenvolveu uma solução de verificação de humanidade a partir da autenticação biométrica pela íris. A proposta é diferenciar seres humanos de robôs na Internet.
O processo de prova de humanidade é feito presencialmente. Uma foto de alta qualidade é tirada por um equipamento chamado Orb. Os dados biométricos são transformados em um código numérico único, que é transferido para o celular da própria pessoa, aonde fica guardado com segurança, criptografado. Nada é armazenado na Orb: nem a foto, nem o código numérico. Portanto, trata-se de uma solução em que o próprio usuário tem o controle sobre os seus dados, o que a empresa chama de uma solução “autocustodial”.
Esse código numérico é batizado de World ID. É como uma credencial digital anônima. A autenticação pode ser feita através de um app da Tools for Humanity chamado World App ou por meio de apps que integram essa tecnologia – é o caso do Tinder no Japão, por exemplo.
Mais de 17 milhões de pessoas no mundo e 500 mil no Brasil já geraram um World ID com suas íris. A Tools for Humanity oferece como benefício a cada pessoa uma quantia de seu token digital, o Worldcoin. Isso é que foi proibido pela ANPD no Brasil.
Mobile Time entrevistou a diretora geral da Tools for Humanity no Brasil, Juliana Felippe, sobre a sua tecnologia e os planos para o país.

Juliana Felippe, diretora geral da Tools for Humanity no Brasil (Crédito: divulgação)
Mobile Time – Quais são as vantagens técnicas da biometria por íris em comparação com outras técnicas, como reconhecimento facial, leitura de digital etc?
Juliana Felippe – Acredito que segurança é a palavra-chave. Em 2018, o Alex Blania e o Sam Altman entenderam que a inteligência artificial estava evoluindo muito rápido e que cada vez mais a tecnologia consegue se passar por um ser humano. Então foi desenvolvido um trabalho de como criar uma prova de humanidade, em que se consiga provar que a pessoa está viva, que a pessoa é única, e que é humana, mas sem expor todas as suas informações, preservando a privacidade. Com isso, criou-se a Orb, que gera um código numérico que é autocustodial.
Como funciona a Orb?
A máquina tira uma foto do seu rosto, dos seus olhos, e através da sua unicidade gera um código numérico. Esse código é processado em menos de sete segundos, enviado para o seu celular e deletado. Não há nenhuma armazenagem desse código, que é criptografado, anonimizado e não contém nenhum dado pessoal. Ou seja, é um código numérico que não traz nenhuma característica biométrica.
Eu identifico essa base de autocustódia como uma grande salvaguarda. Na Internet, os dados de contas de usuários costumam ficar armazenados em servidores de empresas. Se um servidor é hackeado, a empresa corre um risco de os dados vazarem e as pessoas serem expostas. E o usuário não tem nenhum controle das suas credenciais digitais. Com a autocustódia, você aprimora esse controle. Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é a privacidade e o teste de conhecimento zero. Hoje, como as biometrias funcionam? Se eu quero entrar em um prédio, tiram minha foto, que fica armazenada em um banco de dados. Quando eu fizer minha validação facial, meu rosto precisa bater com uma base de dados que está no servidor. Então, a minha foto pode ser hackeada, pode ser clonada.
Já no caso do World ID existe um código numérico que não diz nada sobre a pessoa, que é anonimizado e enviado para o celular. A pessoa faz uma validação facial para garantir que esse código está no seu celular, provando que ela é humana, mas sem abrir nenhuma informação pessoal.
O que distingue uma íris da outra?
É a entropia. A íris tem características específicas. Nem gêmeos têm a mesma íris. Ela pega a temperatura, pega várias outras informações para garantir que o código seja gerado de forma única para cada pessoa.
E onde eu posso usar a autenticação pela íris da World ID?
Primeiro vou falar do nosso ecossistema. O World App tem mais de 380 aplicativos, que são empresas que tiveram interesse em oferecer um serviço para uma rede de humanos. Tem jogos, doações, apps de idiomas etc. E você também consegue usar o World ID para provar que você é humano. E, em escala global, a gente tem hoje o Tinder no Japão, que usa o World ID para três coisas: provar que a pessoa é humana, comparar a foto que é enviada para o celular da pessoa com a validação do seu perfil e garantir que a pessoa é maior de idade. Essa é uma utilidade de rede social muito importante. Também atuamos no mercado de games com a Razer e Mythical Games também. A ideia é identificar quem é humano e quem não é. Isso garante um jogo entre humanos que provam pelo World ID, sem precisar incluir nenhuma informação pessoal, e tornando o jogo mais justo.
A gente está presente operando em 20 países, incluindo Estados Unidos, vários da América Latina, Portugal, Espanha, Reino Unido, Japão…

Orb (Crédito: divvulgação)
Dá para se autenticar com qualquer câmera de celular?
A captura inicial para geração do código precisa ser com a Orb, mas depois a autenticação acontece com qualquer câmera de celular. E ele bate com os dados que estão dentro do seu celular, esse código numérico, com a foto que você está tirando. É possível fazer em diversos celulares, porque a ideia é para ser para toda a humanidade. Então, qualquer resolução de câmera de celular consegue fazer essa validação.
Mas para a criação da prova de humanidade é necessário ir na Orb, porque precisa de uma alta qualidade que só a Orb tem.
A beleza desse processo é que você seja realmente o dono ou a dona desses dados, sendo autocustodial, e que você tenha esse backup e segurança na validação, no uso do World ID.
Como funciona o modelo de negócios?
Hoje a empresa está focada em educação global, para entender o poder que isso pode trazer na segurança. O Brasil é o segundo maior país em fraudes digitais. O primeiro ponto é educar. O segundo ponto é levar a prova de humanidade para todo mundo.
E como a gente vai ter receita no futuro? A gente pensa sempre no modelo de negócios B2B. Vamos procurar um comércio eletrônico, uma empresa varejista ou um banco que queiram adicionar uma camada de segurança. O World ID funciona muito bem para comprovar a humanidade.
Rede social, varejo, banco: muitos mercados podem realmente se beneficiar dessa camada adicional de segurança. No futuro as empresas terão um custo relacionado a esse uso pela segurança que a solução pode trazer. Mas hoje a gente quer criar utilidade, quer trazer educação e garantir que realmente humanos e bots sejam identificados da forma correta.
Já tem alguma conversa aqui no Brasil para alguma empresa brasileira testar?
Existem várias, mas eu não posso abrir. Eu posso compartilhar que existem diversas utilidades que a gente pensa hoje no Brasil.
Houve contendas com a ANPD. Isso já foi resolvido?
Nossa comunicação sempre foi muito transparente. A questão com a ANPD foi sobre o incentivo. O que aconteceu? O protocolo tinha dois objetivos: identidade descentralizada e finanças descentralizadas através do protocolo. Quando a pessoa faz a verificação, ela ganha o Worldcoin. Assim é feito em 19 países onde atuamos, menos no Brasil. A ideia é ser descentralizado e ter a governança com os seus participantes, para que todo mundo tenha um pedacinho que possa votar e construir o futuro do protocolo. No Brasil, a ANPD, depois de estar confortável com o modelo de negócio, veio a opinião pública, veio um pouco de desinformação sobre o processo, pelo o projeto em si…. Acredito que a grande desinformação seja o não entendimento da autocustódia. A ANPD questionou o incentivo, não a tecnologia. Com base nisso, a gente abriu uma exceção do projeto global e no Brasil a gente faz a prova de humanidade sem nenhum incentivo relacionado.
O entendimento da ANPD foi que o incentivo poderia influenciar no consentimento. Então, nós respeitamos e atualizamos o nosso modelo de negócios no Brasil especificamente. Nos outros 19 países você ganha o token quando faz o processo (de prova de humanidade). E no Brasil, a gente faz a prova de humanidade sem nenhum incentivo atrelado, nem o token, nem nenhum outro incentivo financeiro.
A tecnologia não está proibida, a gente pode operar normalmente. O incentivo é que não pode ser atrelado a esse processo de criação da prova de humanidade. Hoje a gente participa de vários eventos aonde as pessoas fazem a prova de humanidade. A gente tem um projeto para 2026 para termos Orbs em vários lugares, mas garantindo que o incentivo esteja fora da equação.
Como é que você vai estimular as pessoas a captarem a sua íris?
Eu acredito muito na educação, no letramento digital, em entender a importância da tecnologia, porque eu entendo que se é autocustodial, se é anônimo, se é privado, é muito diferente da lógica atual, em que as pessoas compartilham seus dados de maneira banalizada. A gente tira foto em todo lugar e fica exposto. A partir do momento que a pessoa usa isso e vê que a internet fica mais segura, todo mundo vai entender o conceito e a gente vai conseguir escalar. O Tinder é um ótimo exemplo, que vai ser escalado globalmente.

Os executivos Gabriel Moreira e Juliana Felippe, da Tools for Humanity no Brasil, com um exemplar da Orb, máquina que registra a íris e transforma em um código numérico individual (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)
Aonde estão suas Orbs hoje?
A gente tem uma fixa em São Paulo e operamos em vários eventos de tecnologia. A gente tem um planejamento em 2026 de expansão, mas aí em breve a gente consegue compartilhar mais informações. Tem alguns projetos e parcerias bem bacanas para anunciar no início do ano que vem.
De quantos brasileiros vocês já registraram a íris?
Hoje a gente tem meio milhão de brasileiros que já fizeram o processo. E no mundo são 17 milhões de pessoas.
Qual o tamanho da empresa hoje no Brasil?
Hoje a gente tem um time de seis pessoas.
O único país que viu problema com o incentivo foi o Brasil?
Pouquíssimos… Existe um esforço de cada regulador em conhecer a tecnologia, mas eu diria que bons benchmarks que temos são Reino Unido, Europa, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Coreia, Japão…
Eu vejo isso como um processo natural de questionar uma nova tecnologia. E vejo a autocustódia como algo muito novo, e a privacidade de dados como algo muito diferente de como a gente vem utilizando na internet. É normal que haja questionamento. Tenho certeza que em breve a gente consegue trazer mais luz para esse tema.
A imagem no topo foi produzida por Mobile Time com IA


