As redes comunitárias são um importante meio de acesso à Internet para habitantes de comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombos em áreas remotas, mas também de periferias de grandes cidades, onde falta serviço de banda larga com qualidade a um preço acessível. O tema é uma das prioridades da Anatel, que estuda possíveis ajustes regulatórios em favor das redes comunitárias. Bruna Zanolli, coordenadora de inovação, tecnologia e sustentabilidade da Rhizomatica, entidade que atua com diversos projetos desse tipo em países emergentes, entende que as redes comunitárias não devem se limitar a levar conectividade, mas estimular o desenvolvimento da cultura e da economia locais.

“Quando falamos de redes comunitárias não se trata só de conectividade. Não queremos ser um provedor de Internet alternativo. Temos a sensibilidade de que a conectividade é um dentre muitos direitos ausentes nesses territórios. Onde falta conectividade, faltam outros direitos. Procuramos trabalhar para além da conectividade, com a construção de servidores locais e o fomento de outros tipos de serviços digitais ou de comunicação que não seja só a Internet. A Internet traz muita coisa boa, mas também traz muita alienação e roubo de atenção”, explica Zanolli, em conversa com Mobile Time.

Ela cita como exemplo uma aldeia guarani em São Paulo que instalou uma rede comunitária cujo impacto inicial desagradou aos mais velhos: os jovens passavam muito tempo jogando games e distantes da própria cultura. Para resolver o problema, foram estabelecidos certos limites de tempo de acesso diário e também de tipos de serviços. E foi criado um servidor local para troca de conteúdo entre os habitantes da aldeia. Virou uma espécie de Netflix local, em que eles próprios produzem e assistem aos vídeos. E como o conteúdo está hospedado localmente, o acesso não consome o plano de Internet da rede comunitária.

A conectividade também ajuda a manter os jovens por mais tempo em sua terra natal, diminuindo ou retardando a migração para grandes centros urbanos. “Há jovens que conseguiram entrar em cursos de pós-graduação e professores que fizeram cursos de atualização à distância, pela rede. E, assim, ficaram mais tempo no território. A conectividade contribui para que tenham mais renda e qualificação”, relata.

Desafios

As redes comunitárias enfrentam diversos desafios de ordem regulatória, econômica, social e tecnológica, aponta Zanolli. No âmbito regulatório, o problema é a dificuldade de se conseguir acesso a links de alta capacidade com preço de atacado. “É muito difícil construir um backhaul. Ficamos à mercê de pequenos provedores que atendem regiões distantes e que às vezes acham que somos concorrentes. Uma rede comunitária não pode ter o mesmo ônus tributário e burocrático que uma rede comercial. É preciso uma categoria regulatória específica para redes comunitárias que garanta acesso assimétrico a links e torres”, propõe. 

Na falta de links de provedores próximos, a solução é apelar para o backhaul via satélite, o que eleva o preço e diminui a velocidade de conexão. O desafio econômico, porém, não se limita ao alto custo do backhaul, mas de toda a implementação de uma rede. Para reduzi-lo, são tomadas várias medidas, como a construção de torres com bambu, o uso de software livre para roteadores Mesh e a adoção de energia solar. A Rhizomatica pleiteia também que recursos do Fust possam ser destinados a redes comunitárias.

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Bruna Zanolli: “Qualquer mudança político-social passa pela comunicação. E a desigualdade nos meios de comunicação é um dos principais problemas estruturais e estruturantes das desigualdades (sociais e econômicas)”

Outro desafio é social: é preciso ensinar as pessoas a gerirem a rede, tanto a parte técnica quanto a financeira. “Geralmente a juventude se engaja e lidera o projeto, mas quando sai do território por falta de trabalho, tudo volta à estaca zero”, comenta.

Por fim, a distância geográfica e a falta de cobertura celular é um problema quando há necessidade de manutenção técnica na rede. O ideal é que sejam construídas redes de fácil gestão, que não requeiram um engenheiro para sua manutenção.

Dezenas de redes comunitárias já foram construídas em países emergentes do Sul Global com apoio do projeto LocNet, do qual a Rhizomatica faz parte, em parceria com a APC (Associação para o Progresso das Comunicações). Sobre a importância das redes comunitárias, Zanolli resume: “Qualquer mudança político-social passa pela comunicação. E a desigualdade nos meios de comunicação é um dos principais problemas estruturais e estruturantes das desigualdades (sociais e econômicas)”.

Crédito da ilustração no alto: imagem produzida por Mobile Time com IA generativa