A entrada da IA generativa no cotidiano dos fraudadores começa a afetar não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Durante painel no 19º CMEP realizado em São Paulo nesta quarta-feira, 15, Manuel Barud, head de prevenção de fraude na Naranja X e membro da Câmara de Meios de Pagamentos da Argentina, alertou para o uso da tecnologia entre os criminosos.
Em sua visão, a fraude com IA demanda que o ecossistema local financeiro precise de soluções mais avançadas.
Ou seja, se antes as proteções contra fraudadores eram contra fotos das fotos ou cardboard gang em selfies para acessar apps de bancos, hoje o desafio está na criação de contas falsas (laranja ou mula, no linguajar do mercado) com dados de pessoas verdadeiras e utilização de deep fakes em selfies e vídeos feitos em plataformas de inteligência artificial.
Barud reforçou que neste cenário mais tecnológico e mais organizado, os principais alvos são pessoas vulneráveis e pouco habituadas com o mundo digital, como os aposentados que recebem golpes com engenharia social focada em falso desconto.
Regulação
Para Rodrigo Mella, subgerente de estratégia e novos negócios do banco Bci e membro do Chilepay, o desafio não é necessariamente contra os fraudadores e golpistas, mas contra brechas regulatórias. O executivo explicou que o regulador chileno criou uma lei, em 2020, com a boa intenção de determinar que os bancos deveriam arcar com o prejuízo relacionado a fraudes e garantir que as pessoas afetadas pelo crime recebessem rapidamente o reembolso do dinheiro. Porém, o tiro saiu pela culatra.
Os usuários pararam de proteger suas senhas, de buscar educação financeira e de relatar golpes, criando um espaço percebido pelos criminosos. Assim, os fraudadores passaram a relatar falsamente que foram vítimas de golpes. Como resultado, os casos de fraudes explodiram e um único emissor chegou a registrar US$ 40 milhões em casos do gênero.
Como resposta, o regulador do Chile colocou fricções no processo de denúncia, como a necessidade de registrar o boletim de ocorrência antes de ter o dinheiro de volta.
Por outro lado, Mella acredita que há uma cifra “escondida” pelos bancos por terem uma espécie de vergonha corporativa e não colocam os impactos da fraude em suas informações oficiais. Isso também acontece por medo de que o regulador aplique multas ao banco alvejado.
Com isso, o membro da Chilepay acredita que a prevenção não pode ser tratada como competição entre bancos, mas como um trabalho de colaboração. Também acredita que o nível de fraude nunca será zerado. Caso isso aconteça, uma ação criminosa não está sendo identificada.
Engenharia social
Por sua vez, Jose Chang, gerente de autorização e prevenção de fraude da Companhia Peruana de Medios Pagos e participante da Perú Payments, afirmou que, em seu país, o impacto das fraudes é ainda muito puxado por engenharia social e roubo de contas com falsidade ideológica. Acontece o mesmo na Argentina, com contas mulas para receber, transacionar e ocultar dinheiro oriundo de fraude.
Também disse que o Peru tem um ponto fora da curva, que são quadrilhas de golpes e fraudes formadas por famílias. Em um caso recente, a polícia local prendeu um grupo sofisticado com mais de 200 pessoas atuando em todo país. Porém, uma semana depois, um outro grupo similar entrou no lugar. Chang relatou que este tipo de caso é mais difícil de capturar pela dificuldade de os membros capturados colaborarem contra familiares.
Imagem principal: Painel sobre fraude na América Latina no CMEP (crédito: Henrique Medeiros/Mobile Time)

