A Arqia se concentra na expansão no mercado latino-americano, começando pelo México. A companhia já tem uma operação local que deve levar aos mexicanos internet das coisas e redes privativas, conforme falou o CEO da empresa, Tomas Fuchs.

Com exclusividade para Mobile Time, o executivo falou ainda dos planos da Arqia no Brasil que envolvem explorar o mercado de mineradoras e agronegócio de médio porte com redes privativas no Brasil, assim como ISPs para MVNOs que pretendem adotar o modelo de quadriplay e se tornarem atraentes para grandes investidores.

Fuchs também detalhou como seria o plano da empresa se tivesse entrado no leilão dos 700 MHz, os primeiros passos da empresa em IA, de dentro para fora, e a relação da empresa com sua compradora, a Wireless Logic. Confira abaixo:

Como foi o ano de 2025 e a mudança para 2026 da Arqia?

Tomas Fuchs – Foi uma virada. Nós vendemos a empresa ano passado e agora temos a maior empresa de IoT do mundo como sócia [Wireless Logic]. Foi um ano de grandes mudanças para nós. Fez um ano agora, em abril. Tivemos uma pequena integração. Investimentos nós fizemos em core e redes privativas. Em termos de resultado nós batemos a meta, 3,7 milhões de devices na rede (Anatel) em IoT. Em MVNOs, os ISPs voltaram a nos procurar para lançar suas próprias redes. O pessoal está um pouco preocupado em não ter tripleplay (banda larga fixa, telefonia fixa e TV) ou quadplay (banda larga fixa, telefonia fixa, TV e telefonia celular). E começamos a ver muita coisa com IA. Mas, no geral, 2025 foi um ano muito bom para a gente, estamos satisfeitos com os resultados.

Como é a relação com a Wireless Logic?

Olha, não posso reclamar. Nunca trabalhei para ninguém. Sempre fui empresário. Eu brinco que tenho chefe pela primeira vez. Mas a relação é muito boa. Como eles não têm nenhuma empresa na América Latina, acho que facilita (na relação). Eles nos respeitaram e respeitam a nossa história no Brasil. E temos uma boa comunicação, entendem que sabemos do mercado local. Fizeram mais de 20 aquisições no mundo e sabem que não adianta tentar impor a cultura dos EUA ou da China. Portanto, eles têm o respeito pela história.

A partir dessa aquisição, a Arqia olha com mais carinho para o mercado latino-americano como um todo, não só Brasil. Como a empresa está caminhando na região?

Sim. Estamos com escritório no México com sete pessoas nesta operação. Começamos a vender. Até participamos de eventos locais com estande. É um mercado com bastante potencial. No geral, estamos indo para um dos principais países da América Latina. E estamos trazendo plataformas do grupo para o Brasil.

Que tipo de ofertas e plataformas vocês querem trazer para a América Latina?

Em Latam enxergamos potencial. O nosso foco no México é em internet das coisas e redes privativas. Por mais maduro que o México seja em telecomunicações, há poucos chips de IoT. Então, nós esperamos um crescimento ali parecido com o Brasil. MVNO é um mercado mais desenvolvido no México, tem mais usuários que o Brasil. Tem o case do Walmart, por exemplo.

Fora México, quais outros mercados da região estão no radar?

Olhamos muito Colômbia e a Argentina voltou a nos interessar. Peru e Equador são mercados interessantes também. Então, vamos tentar nos posicionar em alguns desses países. Por enquanto, efetivamente, nós estamos no México. Mas olhamos todos os países que estão próximos.

Pensando no Brasil, quais são as apostas da Arqia para a região?

O mercado de IoT cresce sozinho. No caso da Indústria 4.0, este é um segmento que acreditamos, mas ainda não vingou. Não sei se será este ano, mas estamos começando a ver tração. No caso do agronegócio, também notamos um crescimento, ainda pequeno, mas, neste caso, depende de redes e satélites de baixa órbita que ainda não estão nos preços adequados no Brasil. Mas tem muita coisa de segurança que vai crescer no Brasil. E o ‘tradicional IoT’ também cresce: rastreamento, telemetria e gestão de frotas, POS migrando para eSIM. São mercados que cresceram conosco ano passado e retrasado.

Um pouquinho antes você falou das investidas em inteligência artificial. Como a Arqia está atuando com essa tecnologia de fronteira?

Tem a IA que é para dentro. Às vezes, precisamos reiniciar a linha do rastreador. Neste caso, o cliente precisaria ligar, mandar um e-mail ou acessar uma plataforma. Agora, o nosso cliente manda uma mensagem no WhatsApp e nós reiniciamos a linha em menos de um minuto, algo que demorava de 7 a 8 minutos. Isso melhora para o cliente e para a gente, já que geramos um NPS melhor.

E da porta para fora, o que a Arqia está fazendo com IA?

E quando vamos para fora, olhamos câmeras de carro (dashcam) com IA. Temos outras iniciativas, mas o que funciona são as dashcams. Nós estamos trazendo essas câmeras que detectam quando o motorista pisca os olhos, fica com o olho fechado num tempo de mais de dois segundos. O sistema consegue olhar, monitorar e falar ‘você está com muito sono. É melhor você parar o carro’ ou ele abre um canal de voz com a central para se comunicar e ficar conversando. Isso com IA. As dashcams vêm da China. E como parceiros de plataforma temos o chinês, para o equipamentos, e um brasileiro, para fazer a tropicalização da plataforma de software para a nossa cultura.

Outra iniciativa próxima de IA são os data centers? A Arqia pensa em investir nesta área?

Já compramos um data center há dez anos. Portanto, temos espaço interno suficiente para suportar os investimentos dos próximos anos. Data centers nos interessa como investimento, mas confesso que estamos bem atrás dos grandes grupos. O que fazemos – até pela tradição desde a Datora – é ajudar parceiros em projetos e procurar por terrenos. Mas investimento direto, nós não fazemos, pois os valores são altos.

E como a Arqia vê o desenvolvimento do mercado de redes celulares privativas e MVNOs?

Começando com rede privativa, ainda é um mercado pequeno se considerar o potencial do Brasil. Não podemos esquecer que menos de 20% não tem cobertura celular e precisa de um satelital para ter conectividade. Quando olhamos o agro ou a mineração, os grandes já têm investimentos em redes privativas. Com isso, nós focamos nas médias mineradoras. Mas o tempo de decisão das médias é devagar. Podia ser mais rápido, pois o benefício é grande. No agro, por exemplo, o empresário prefere instalar só o básico, a internet na sede, e demora para enxergar as vantagens de se colocar conectividade na orelha do boi ou em áreas de irrigação para aferição e automação. Ele não vê potencial de medir irrigação. Ainda tem um tempinho para maturar. A primeira rede privativa que colocamos foi em 2021 com a fazenda Macuco. As próprias mineradoras de médio porte ainda não veem o benefício. Eles colocam para os funcionários, mas não para IoT. Tem um crescimento muito grande para acontecer.

Em MVNO, voltando ao que falei, as operadoras começam a ver que o quadplay é importante. Ainda mais quando vemos o movimento de aquisições, como Claro e Desktop. Outras fusões podem acontecer e, para isso, o ISP precisa ter uma solução completa ou vai perder para o concorrente. Logo, ele vai precisar ter o quadplay. Mas, a telefonia móvel é diferente da banda larga. Na banda larga, o pequeno provedor pode cobrar um valor fixo mensal e o que passar nesse tubo está resolvido. No móvel, não. O celular se cobra por MB e GB de dados, se cobra por minuto. O ISP tem essa dificuldade de transição e de entender que o modelo fixo pode cobrar ilimitado e o modelo móvel não existe o ilimitado.

No caso das MVNOs, os ISPs olham mais para B2B ou B2C?

É muito mais B2C, pois, quando falamos com o ISP é muito mais como complemento da oferta. Os ISPs ainda não olham para o B2B celular. Pode ter um B2B pequeno. Alguns enxergam, mas os grandes não. Os ISPs acabam indo para o IoT.

Hoje como está a sua carteira de operadoras virtuais?

Temos 20 MVNOs. Quase todas são ISPs. A Casa do Celular é a única exceção. O resto é ISP.

Sobre o leilão de 700 MHz, a Arqia planejava entrar?

Nós tínhamos muito interesse em entrar e fomos os únicos a fazer um lance. A gente estava olhando parcerias com ISPs grandes, um consórcio entrando no estado de SP com dois ISPs grandes e na região norte. Um modelo similar ao Consórcio Amazônia. Mas a Anatel bloqueou a entrada de todas as empresas interessadas, apenas uma entrou. Então, o projeto caiu e tivemos que tirar o cavalinho da chuva.

Tem alguma forma de retomar com esse projeto?

A nossa esperança é o RUE [Regulamento no Uso de Espectro, da Anatel] dar acesso ao espectro para podermos trabalhar de alguma forma. Não são essas seis/sete empresas que cobrem o Brasil. Acho que se alguém pensar nisso, é uma lástima. Vamos precisar dos ISPs, dos pequenos que estão espalhados em tudo quanto é lugar do Brasil. Somos um habilitador de redes móveis. Tanto que temos mais de 80 redes privativas espalhadas no Brasil. Para colocar a rede móvel é questão de semana para nós. Mas para isso precisamos de frequência.

Como a Arqia quer terminar 2026?

Temos muito foco em MVNOs. Mas sempre dependemos de um terceiro para vender. Então, não tem um planejamento fechado. Quando olhamos para IoT, o foco é um crescimento de 15% neste ano e rede privativa igualmente. Mas os clientes têm que entender o benefício do IoT, e a eficiência que isso gera. Por isso é devagar.

Faltam casos de uso? Digo, casos de uso claros que atraiam investimento em uma rede privativa?

Tem grandes casos de uso, mas não tem nos médios. As grandes têm. TIM, Claro, Vivo. Mas quando olhamos para médias fazendas, indústrias e mineradoras, nós temos dificuldade de mostrar um case de sucesso. Nós temos microcases. A própria fazenda Macuco é um deles. A fazenda fica em um distrito a 150 km de Sinop/MT. Tem eficiência, eles medem pragas na fazenda. Mas com uma antena, eu cubro a fazenda e o distrito. Na média, a cobertura para esse tipo é de até quatro antenas. Eu faço com uma.

 

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As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA