A regulamentação de serviços financeiros e de pagamentos está entrando em uma nova fase, com o Banco Central mais rigoroso no controle do mercado. Paralelamente, a inovação tecnológica não para: a nova onda é a de agentes de inteligência artificial aplicados a pagamentos. É neste contexto que Rafael Wowk assumiu como novo head de assuntos regulatórios da Adyen para a América Latina. Em entrevista para Mobile Time, o executivo conversou sobre a relação entre inovação, competição e estabilidade do sistema financeiro, os próximos passos do Open Finance e do Pix e, claro, agentes de IA.
Mobile Time – Quais as principais pautas no ambiente regulatório de pagamentos no Brasil este ano para a Adyen?
Rafael Wowk – Nosso papel enquanto empresa de pagamentos é assumir a complexidade regulatória dentro de casa para que o nosso lojista não tenha que enfrentá-la. O sistema brasileiro já era muito seguro, desde a lei 12.865 de 2013. É um sistema muito bem enquadrado, mas sempre tem pontos a evoluir. E a resolução 522 do Banco Central veio com esse propósito. Então, eu diria que a primeira grande pauta é a de segurança e estabilidade, o que diz muito sobre o perfil global da Adyen, que é de uma postura pró-regulação e de um sistema estável e seguro.
A resolução 522 melhora o gerenciamento de risco nos arranjos de pagamento, incluindo uma exigência maior de controles internos e de como os prestadores de serviços de pagamento atuam. Nós consideramos que isso é positivo.
Depois de uma fase de abertura do mercado e fomento à competição que durou cerca de dez anos, entre 2013 e 2023, agora o BC entra em uma nova fase, mais rigorosa e controladora, especialmente depois de descobertas aquelas fraudes milionárias no Pix e o caso do Banco Master. Segundo o consultor e colunista do Mobile Time Boanerges Freire, seria um movimento pendular natural do BC. Você enxerga da mesma forma?
Eu enxergo de uma forma um pouco diferente e acho interessante começar do ponto de vista filosófico e depois entrar no ponto de vista mais concreto. Primeiramente, eu não concordo que exista uma dicotomia “inovação versus estabilidade”. A minha visão é que inovação pode contribuir fortemente para a estabilidade do sistema financeiro. Um exemplo concreto disso é o próprio Pix, que, com a liquidação instantânea da transação, reduz riscos que uma liquidação, por exemplo, de TED, que podia durar até dois dias, teria. Então, acho que o Pix é um bom exemplo de quando a inovação contribuiu para a estabilidade financeira porque você reduz a exposição a risco no caso de falha de uma instituição. Eu também acho que uma maior competitividade no mercado financeiro pode auxiliar a estabilidade porque você reduz riscos de concentração, você reduz instituições que controlam o mercado como um todo e você passa a ter riscos mais descentralizados e mais localizados. O próprio caso do Banco Master, que é, sim, significativo, não é algo que coloca em risco o sistema financeiro porque era um banco médio com um percentual de ativos muito baixo. Muitas pessoas acham que inovação é contra a estabilidade. Essa é uma visão com a qual eu não concordo porque acredito, inclusive, que inovação pode auxiliar muito em aumentar a estabilidade do sistema financeiro.
Falando um pouco do momento atual: sim, houve uma abertura do mercado muito grande, e acho que uma abertura que foi positiva, pois gerou vários cases nacionais de sucesso. Isso trouxe diversas vantagens. A inclusão financeira no Brasil nos últimos cinco anos teve um crescimento exponencial. O acesso a meios de pagamento também, trazendo ganhos concretos para a economia. Pagamentos dinâmicos e rápidos são muito importantes para o comércio. Inclusive em termos de segurança, pensando no comércio físico, por não depender de dinheiro no caixa, o que contribuiu para reduzir alguns problemas de segurança pública. Mas, realmente, em alguns pontos, como capital mínimo e organização das empresas, eu acho que o movimento do Banco Central foi muito estratégico: abrir, estudar e, no momento em que foi necessário, aumentar os requerimentos, com prazos para adequação no mercado, sem causar disrupção.
Uma das grandes novidades nos últimos meses são os agentes de IA aplicados a pagamentos. Que cuidados precisam ser tomados ao integrar IA agêntica a pagamentos? Como garantir que essa inovação aconteça de uma forma segura?
Agentes são uma pauta global da Adyen. Do ponto de vista regulatório, claro que existem algumas questões de consentimento do consumidor, como ter certeza de que era uma vontade dele fazer aquele pagamento. Mas é preciso pesar a questão de facilidade também. Eu acredito que regulação não é algo para impedir inovação, não é algo para cercear novos modelos, novas ideias, e sim algo que caminha junto com esse desenvolvimento para garantir que certos guardrails sejam obedecidos. E isso começa dentro de casa, com redes de proteção que nós mesmos colocamos para garantir que isso seja feito respeitando a vontade do consumidor, sem abusos. É preciso desenvolver essas redes de proteção para que o potencial da tecnologia não seja cerceado por alguns poucos desvios que podem ocorrer no meio do caminho. Eu acho que ainda está cedo para a gente falar de regulação (de agentes de IA em pagamentos). Entendo que já existe um framework regulatório firme de proteção ao consumidor, inclusive dos seus dados. E eu ainda não vejo uma maturidade nessa discussão para regular.
Vocês já têm alguma solução de agente de IA na Adyen?
Estamos em fase de testes internos, fazendo toda a base de solução e de tecnologia para poder lançar nos próximos meses.
Qual a sua avaliação do Open Finance no Brasil e seu impacto em pagamentos?
Eu sou um grande entusiasta do Open Finance, porque tem uma vertente de pagamentos muito ampla e com potencial enorme, mas que ainda não é bem explorada. Na minha opinião, o Open Finance é muito mais amplo que o Pix. Só que ele não tem uma marca unificada da mesma forma que o Pix. Então, muitas das vantagens que o Open Finance já está trazendo para a sociedade não são tão claras, pela falta de uma marca forte.
Como vê os resultados da jornada de iniciação de pagamentos?
A jornada de iniciação de pagamento tem um potencial muito grande para o comércio. Houve uma evolução regulatória significativa, que é a jornada sem redirecionamentos. Ela une segurança e facilidade. Na jornada sem redirecionamento, eu faço uma primeira conexão dando consentimento tanto na instituição iniciadora quanto na instituição detentora da conta. Isso tem um potencial muito grande de compra em um clique, com a mesma segurança que você tem nos trilhos atuais. Essa é uma tecnologia que já está integrada, já temos disponível, mas que, da mesma forma como a fase de dados do Open Finance teve um período de transição em que a eficiência era muito baixa e demorou um ou dois anos para o Banco Central atingir uma qualidade e uma eficiência no compartilhamento, a funcionalidade de pagamentos está justamente nesse momento de melhoria da conversão, principalmente desse primeiro consentimento, e a gente tem trabalhado para melhorar esses números. Há dados públicos no portal do Open Finance. Atualmente, a conversão desse consentimento está em torno de 40%. Ainda é uma conversão baixa. Mas vemos uma melhoria mês a mês nesses números e estamos conversando com o mercado e com o regulador para melhorar ainda mais.
Quando você fala em conversão, é em qual ponto da jornada exatamente?
É o momento de vinculação da conta.Quando você entra num site de um cliente da Adyen e dá o consentimento para para sermos um iniciador de pagamento para você enquanto cliente. Existe um redirecionamento para o aplicativo da instituição detentora da conta. Isso ainda é muito voltado para o ambiente celular–celular, então ainda não existe um ambiente web em que isso possa ser feito. Mas, essa complexidade à parte, esse momento em que você sai do ambiente da Adyen para ser redirecionado para o banco ainda não está uma jornada fluida. Ainda tem alguns empecilhos técnicos: a página em que nós obtemos o consentimento para transferir para a página do banco detentor às vezes quebra, não carrega.
Por isso só 40% concluem o processo efetivamente?
Exatamente. O regulador tem trabalhado muito para que isso funcione. É uma questão de ir ajeitando conexão a conexão. É uma questão de tempo.
A iniciação de pagamentos concorre com outras tecnologias de facilitação de pagamento online, como o 3DS 2.0 e o Click to Pay?
Eu não vejo uma forma de pagamento competindo com outra. As tecnologias dos trilhos de cartão são muito importantes, aumentam a conversão de venda, diminuem o risco da transação, são tecnologias importantes, são tecnologias que a gente oferece e investe muito. Nós acreditamos na facilidade para o nosso cliente. A gente acredita que deve oferecer os produtos que o nosso cliente precisa e não dizemos qual ele deve priorizar. A nossa função é inovar, ter produtos seguros e eficientes, para que o nosso cliente tenha na prateleira e possa utilizar o que for melhor para o seu comércio.
Você cuida de regulamentação na América Latina. Quais as grandes pautas para este ano em países-chave da América Latina na área de pagamentos?
No México, pagamentos instantâneos são o assunto do momento. Queremos que o trilho de pagamentos instantâneos de lá seja tão bom quanto o brasileiro, mas adaptado às necessidades locais. A gente não acredita em sair copiando e colando o Pix em vários países, assim como o UPI na Índia não foi necessariamente copiado no Brasil, mas a gente acredita numa inspiração de aprender com cada sistema o que trouxe maior impacto positivo para a sociedade.
O México já tem sistemas funcionando, mas que podem ser melhorados. Um exemplo: o trilho de pagamento instantâneo no México não tem timeout. Não é igual ao Pix, que, se eu não me engano, dá 30 segundos para a transação cair e aparecer a mensagem negativa para o lojista. Ter visibilidade do que está acontecendo é essencial para o lojista. O regulador mexicano também tem uma pauta de inovação muito séria e positiva, e tem dedicado muitos esforços para desenvolver um trilho nacional de pagamento instantâneo que atenda às necessidades dos lojistas locais.
Lá são dois serviços de pagamentos instantâneos? SPEI e CoDi?
Esse é um dos pontos importantes, porque o trilho é o SPEI, mas também tem o CoDi, que é a versão para QR Code e NFC. Falta uma marca forte, igual nós temos a marca Pix no Brasil. Mas o regulador já está muito atento de que é importante que o pagamento instantâneo tenha um nome unificado e que tire essa complexidade do consumidor de entender o que é CoDi e o que é SPEI.
Qual a sua expectativa em torno do Pix internacional? Como isso pode vir a funcionar? Seria uma integração entre diferentes meios de pagamento? Tipo o Pix e o SPEI integrados?
Nesse ponto, eu tenho posições menos fortes, porque a nossa estratégia, por sermos uma empresa global, é retirar essa complexidade dos nossos merchants. Nós já temos formas de oferecer Pix no Brasil e pagamento instantâneo na Índia para o mesmo cliente, de uma forma que ele não tenha tanta dificuldade de integração. Mas eu acredito que existem vários caminhos para que isso seja atingido: seja um caminho unificado na conversa entre reguladores, sejam acordos comerciais entre diferentes empresas, seja uma empresa global oferecendo esse produto de maneira unificada.
Qual a sua avaliação do Pix até agora?
O Pix pode ser um sucesso ainda maior. A gente tem trabalhado com os nossos lojistas em utilizar os dados que o Pix fornece para aumentar a conversão. E a gente também acredita que novos dados possam ser compartilhados nos trilhos do Pix para nos ajudar ainda mais a aumentar a conversão dos nossos clientes. A gente acredita que o Open Finance, na iniciação do pagamento, tem um potencial enorme de alavancar ainda mais o Pix, facilitando a iniciação da transação. Então, a gente também acredita que o próprio Pix, na forma de iniciação atual — principalmente por QR Code, Pix Copia e Cola —, pode ter algumas melhorias na mensageria, para que o lojista tenha uma inteligência fornecida pela Adyen maior para aumentar a conversão. O objetivo é entender exatamente o motivo pelo qual uma transação falha, porque isso nos ajuda a resolver a causa daquele problema e aumentar a conversão do cliente.
O que afeta a conversão do Pix além de falta de saldo na conta?
Pode ser, por exemplo, prevenção à fraude do banco, do detentor da conta. Às vezes há motivos que a gente pode até não saber. Muitas vezes o PSP recebedor não sabe que aquela transação falhou por causa de um falso positivo na proteção à fraude.
Temos um caso concreto em que a gente conseguiu aumentar significativamente a conversão com as informações que o PIX já dispõe. A gente é um pouco inconformado em simplesmente negar a transação sem fornecer para o lojista uma forma de melhorar essa transação. Então, a nossa pauta de Pix é a de aumentar a conversão, de aumentar a venda do nosso lojista, e diminuir a fricção.
Foto no topo: Rafael Wowk, novo head de assuntos regulatórios da Adyen (Crédito: divulgação)


