O que leva uma equipe de Fórmula 1 a ser campeã? Ter seus pilotos em posições de destaque e disputando um lugar no pódio em todas as corridas? Para a Red Bull Racing, não basta ter o carro mais rápido ou o melhor piloto. É preciso contar com uma equipe bem estruturada, estabelecer parcerias estratégicas e saber utilizar tecnologias de ponta.

Foi o que contou Fraser McCartney-Smith, senior partnerships executive da escuderia. Em conversa com o Mobile Time entre as sessões de treinos livres do GP de São Paulo de F1, nesta sexta-feira, 6, o executivo apresentou os bastidores da equipe seis vezes campeã do mundial de construtores e oito vezes do mundial de pilotos — quatro títulos conquistados com Max Verstappen e outros quatro com Sebastian Vettel.

Além de explicar o funcionamento da equipe, McCartney-Smith mostrou como a Red Bull utiliza dados, computação em nuvem e inteligência artificial agêntica para avançar na categoria, tanto nas corridas quanto no desenvolvimento de pilotos de sua academia.

Um exemplo é o AI Pit Wall Agent, agente desenvolvido em parceria com a Oracle e integrado ao trabalho dos engenheiros no posto de comando técnico da equipe. Utilizada durante as corridas, a solução permite que os profissionais fundamentem decisões estratégicas com base no histórico de decisões de comissários e fiscais, em regulamentos, diretrizes técnicas e atualizações sobre as provas.

McCartney-Smith citou como exemplo um incidente nos boxes durante a recente etapa do GP de Mônaco, que custou o pódio ao piloto Isack Hadjar. Com o auxílio do agente, a Red Bull conseguiu recorrer à FIA (Federação Internacional de Automobilismo), entidade responsável pela categoria, com base em regulamentos e diretrizes, para tentar recuperar a posição do francês e garantir os pontos correspondentes.

Após os resultados obtidos com o agente, o executivo revelou que a equipe está desenvolvendo outra solução de inteligência artificial. Voltada à Red Bull Academy, divisão responsável pelo desenvolvimento de pilotos, a tecnologia pretende auxiliar na prospecção de novos talentos. A ideia é analisar dados de categorias de base, como o kart, para identificar características associadas a futuros campeões e gerar uma lista restrita de pilotos que poderão ser abordados pela escuderia.

Parcerias da Red Bull

Red Bull

Piloto Isack Hadjar logo após recuperar a terceira colocação no GP de Mônaco deste ano (crédito: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Fundada em 2004, a equipe da famosa marca de bebidas energéticas chegou à F1 após comprar a Jaguar, da Ford, por US$ 1. A venda ocorreu em razão das altas dívidas acumuladas pela equipe da montadora e da crise enfrentada pela empresa no início dos anos 2000.

A partir daí, a Red Bull estruturou uma equipe com profissionais altamente qualificados e uma infraestrutura robusta. Isso inclui o desenvolvimento de peças dos carros, desde o design em CAD e as simulações até os testes em túnel de vento, com velocidades de até 320 km/h. Todo esse processo ocorre antes de os veículos irem para a pista. Mais recentemente, a escuderia avançou com a Red Bull Powertrains, sua fábrica de motores desenvolvida em parceria com a Ford — sim, a mesma companhia que vendeu a equipe aos austríacos 22 anos antes.

O senior partnerships executive explicou que o desenvolvimento das soluções que consolidaram a estrutura atual da Red Bull só foi possível graças a parcerias estratégicas. Uma delas é com a Oracle.

Segundo Alexandre Mayoral, presidente da Oracle no Brasil, a criação da Red Bull Powertrains é um dos principais exemplos da aplicação de tecnologia pela escuderia. A equipe construiu sua fábrica de motores em quatro meses. O propulsor também foi desenvolvido em tempo recorde, com o uso de simulações virtuais e gêmeos digitais. A tecnologia permitiu dispensar parte do processo tradicional de construção de protótipos físicos, identificação de falhas e ajustes, uma vez que essas etapas foram realizadas digitalmente antes da fabricação das peças.

Como resultado, o motor desenvolvido pela Red Bull Powertrains em parceria com a Ford foi considerado o melhor da F1 em 2026, segundo levantamento anual da FIA.

Dados na Red Bull

Red Bull

Fraser McCartney-Smith, senior partnerships executive da Red Bull (divulgação)

Uma parte importante da estratégia da equipe de F1 para se manter no topo é o uso de dados para analisar milhões de variáveis e cenários possíveis. Entre eles estão a definição de quantas paradas o piloto fará para trocar pneus, quais compostos utilizará, se será necessário um trabalho de equipe para garantir sua posição, quem entrará primeiro nos boxes e até mesmo a possibilidade de chuva durante a corrida.

Desde 2021, a Red Bull utiliza a Oracle Cloud Infrastructure (OCI) para estruturar dados e realizar análises contínuas em larga escala, de maneira escalável. A plataforma ajudou a equipe a acessar as tecnologias mais recentes por meio da nuvem, reduzir custos e ampliar em 20% o volume de simulações de testes de peças e insumos.

Nos fins de semana de corrida, a tecnologia da Oracle contribuiu para aumentar em 25% o volume de simulações. Atualmente, a Red Bull realiza 8 bilhões de simulações ao longo dos três dias de atividades, sendo 4 bilhões antes das corridas e outras 4 bilhões durante as provas.

As simulações consideram dados externos e comportamentais, como previsões meteorológicas, além de informações captadas por centenas de sensores instalados nos carros, sistemas de telemetria e conectividade fornecida pela AT&T. A equipe também utiliza um scanner tridimensional instalado na entrada da garagem, semelhante a uma câmera 3D.

McCartney-Smith, da Red Bull, explicou que, embora as simulações e a coleta de dados em escala de terabytes sejam importantes, esses recursos não representam toda a estratégia da equipe.

Montando uma estratégia campeã, dos dados ao piloto

Red Bull

Max Verstappen após vitória no GP de São Paulo de 2024 (crédito: F1)

O executivo afirmou que a análise feita pela equipe de engenharia presente nas pistas, além de mais 40 profissionais na sede do time em Milton Keynes/Reino Unido, é fundamental para filtrar as informações relevantes. Também é importante considerar o retorno dos pilotos sobre o comportamento do carro. Dados, análises, engenharia e avaliações dos pilotos são combinados para definir os melhores ajustes no veículo e a estratégia necessária para competir com os adversários.

Como exemplo prático, o executivo da escuderia lembrou a corrida disputada em Interlagos dois anos antes. Em 2024, Max Verstappen largou da 17ª posição e terminou em primeiro lugar. Segundo McCartney-Smith, o resultado foi possível graças a decisões estratégicas baseadas no comportamento do carro sob a chuva paulistana e no posicionamento da equipe durante as entradas do carro de segurança (Safety Car). Ele acrescentou que essas decisões foram fundamentadas em simulações realizadas na OCI e que a vitória contribuiu para garantir o título mundial de pilotos naquela temporada.

Sobre os próximos passos da Red Bull, o representante da equipe afirmou que 2026 tem sido um ano desafiador em razão das mudanças nas regras da categoria, especialmente em relação aos motores e às baterias elétricas, estabelecidas pela FIA. Segundo ele, 2027 também deverá ser marcado por novas mudanças.

Além disso, a escuderia continuará desenvolvendo motores na Red Bull Powertrains e realizando simulações aerodinâmicas com o apoio da OCI para aprimorar os projetos do motor e do chassi.

Imagem principal: equipe comemora a última vitória de Max Verstappen no GP do México (crédito: © Mark Thompson/Getty Images/Red Bull Content Pool)

 

*********************************

Receba gratuitamente a newsletter do Mobile Time e fique bem informado sobre tecnologia móvel e negócios. Cadastre-se aqui!

Siga o canal do Mobile Time no WhatsApp!

As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA