Tem coisas que já nascem erradas. São criações erradas por design. O problema é que nem sempre isso é percebido de imediato. O público ou as autoridades competentes podem levar muito tempo para se dar conta. E aí o estrago está feito.
Um amigo que é pai de um adolescente me contou que recentemente se embrenhou pelo universo dos influenciadores misóginos, por interesse antropológico e de ofício paterno – para poder proteger seu filho desse conteúdo nocivo. Deparou-se não apenas com mensagens violentas e machistas, mas com mentiras tão absurdas que poderiam soar cômicas se não fossem, infelizmente, levadas a sério. Uma delas é a de que o DNA das mulheres seria transformado pouco a pouco pelo DNA dos homens com os quais têm relações sexuais, o que faria com que seus filhos nascessem com características físicas dos ex-namorados. A teoria maluca não sobrevive nem a um minuto de contra-argumentação de qualquer estudante do ensino médio com nota 6 em Biologia, mas serve para justificar a preferência dos “red pills” por mulheres que não tenham tido nenhum relacionamento amoroso prévio.
Se uma asneira dessas atormentasse somente a cabeça do seu bitolado criador, não seria tão prejudicial à sociedade. O problema é que ela é propagada nas redes sociais e em plataformas de vídeo com conteúdo gerado pelo usuário. Assim como ela, outras muitas mentiras amalucadas circulam nessas plataformas digitais experimentando uma assustadora popularidade, justamente porque chocam, porque chamam a atenção, porque agradam aos ouvidos de uma parcela da população, justificando seus medos, mas também porque causam indignação em outra parcela da população. Vimos várias dessas se espalharem rapidamente, como vacinas chinesas com microchips; ozonioterapia como cura de Covid-19 etc.
Às vezes me pergunto se os criadores dessas mentiras realmente acreditam nelas. Apostaria que, possivelmente, muitos deles têm plena consciência de que estão mentindo. Por trás dessa atitude, estão interesses políticos e/ou econômicos. Nenhuma das duas motivações justificam a confecção de mentiras. Mas nesta coluna vou me ater à segunda hipótese, a do interesse financeiro.
Na economia da atenção, as plataformas digitais foram construídas para remunerar quem consegue mais visualizações. No Instagram, no Facebook ou no TikTok, quanto mais seguidores um influenciador arregimenta, maior vai ser o preço do seu publieditorial. No YouTube é pior ainda: a própria plataforma remunera os criadores de conteúdo quanto maior for a quantidade de visualizações que tiverem. Isso estimula a produção de conteúdo sensacionalista, de má qualidade e com baixíssima ou nenhuma preocupação ética ou moral. Quanto mais absurda a mentira, maior a audiência e, logo, maior o lucro do produtor de conteúdo. É a meritocracia dos mentirosos.
É verdade que há mecanismos de denúncia dentro dessas plataformas, mas não raro são usados de maneira distorcida, simplesmente para remover conteúdo legítimo de adversários políticos; ou demoram a surtir efeito contra conteúdo efetivamente nocivo para a sociedade; ou não são eficazes porque o mentiroso consegue se proteger com a famigerada desculpa de “liberdade de expressão”.
A meu ver já está claro que esse modelo de premiação/remuneração por audiência para conteúdo gerado pelo usuário nasceu errado por design. Ele fomenta a produção de mentiras, que, por sua vez, causam danos profundos em nossa sociedade. O tamanho do impacto só será calculado por gerações futuras, que vão olhar para trás e se assustar em como deixamos isso chegar tão longe. Mas nunca é tarde para corrigir o rumo.


