A inteligência artificial no esporte precisa de limites. Segundo o vice-presidente executivo de operações de futebol americano da NFL (Android, iOS), Troy Vincent Senior, a tecnologia ajuda no desenvolvimento e esclarecimento de regras no esporte, mas atletas e treinadores não podem ser preguiçosos a ponto de usarem a IA no cerne de suas atividades.
Uma coletiva com Zebra, AWS e a startup Adrenaline aconteceu nesta terça-feira, 4, em São Francisco, local que terá a final do Super Bowl 2026 entre New England Patriots e Seattle Seahawks no próximo domingo, 8. Durante a entrevista, o executivo da liga do futebol da bola oval disse que a IA é bem-vinda e pode ajudar em várias etapas. Deu como exemplo a possibilidade de usar a tecnologia para explicar mais as regras aos espectadores durante as partidas ou usar a inteligência artificial para identificar faltas que um árbitro não vê em campo.
Mas Senior reforçou que o uso direto da inteligência artificial no futebol americano pode mudar a natureza do jogo, inclusive nas decisões de arbitragem: “O outro lado da moeda [ao usar IA] é que pode ser tão perfeita que acabaria resultando em mais faltas. Veja, nós jogamos um jogo imperfeito, com jogadores imperfeitos, e se começarmos a utilizar a IA para sermos perfeitos, excelentes, isso pode gerar um problema”, disse.
Mais especificamente, o VP da NFL se posiciona contra o uso de IA para predeterminar jogadas dentro de campo, algo conhecido como jogadas preditivas (‘predictive play’, no original). Trata-se de um conceito que usa algoritmos treinados para prever, em tempo real, as ações de um jogador. Como por exemplo se um time vai arremessar uma bola ou correr para ganhar terreno – uma das ações principais para alcançar o gol (touchdown) no futebol americano.
Senior é radicalmente contra. “Uma das coisas contra as quais queremos nos precaver é com relação à predictive play. Nós jamais deveríamos entrar em um mundo na qual a IA auxilia um técnico para antecipar uma jogada. Não podemos ser preguiçosos”, afirmou. “Temos que nos precaver desse mal-uso e evitar que essas práticas entrem nos jogos”, concluiu.
Vale reforçar que a própria NFL usa e celebra a inteligência artificial. Inclusive está comemorando dez anos da parceria com AWS e Zebra para capturar dados do campo e levar a seus espectadores, jogadores, treinadores e até videogames.
IA na NFL
Sean Lee, ex-jogador da NFL por Dallas Cowboys e diretor de dados da startup Adrenaline, acredita que a inteligência artificial pode ser usada também para auxiliar na procura por jogadas a serem treinadas em horas de vídeos. A tecnologia ajuda a encontrar o ponto certo em um vídeo, o que permite visualizar a jogada e a praticar com exatidão.
Vale dizer que a empresa usa dados da NFL captados por Zebra e operados na AWS para levar a complexidade das táticas das partidas para os telespectadores da ESPN.
Lee acredita, no entanto, que um jogador precisa se preparar bem menos com o auxílio da tecnologia. “Por exemplo: mesmo se a IA diz que há 80% de chance de uma corrida e 20% de um passe, o defensor ainda precisa estar preparado para ambos. A tecnologia não substitui a leitura de jogo”, explicou. “Ou seja, usar a IA no jogo (para chamar uma jogada preditiva) não vai ajudar muito”, concluiu Lee.
Por sua vez, Josh Helmrich, diretor sênior de estratégia de mídia, desenvolvimento de negócios e Next Gen Stats da NFL, disse que a IA pode pegar os dados e automatizar, de modo que olheiros e treinadores se utilizem para se preparar durante a semana que antecede o jogo. Isso permite mais foco em determinadas tarefas para o estafe de uma equipe antes de uma partida.
IA no esporte
A fala dos executivos ligados ao futebol norte-americano coincide com o problema do uso da IA em outro esporte, o futebol bretão. O ex-técnico do FC Sochi, Robert Moreno, foi demitido pelo uso excessivo do ChatGPT para tomar decisões e planificar treinos, disse o ex-diretor de esportivo do clube russo, Andrei Orlov, em entrevista à Sports Russia reproduzida pela RTP de Portugal. Em carta aberta para o jornal Marca da Espanha, Moreno negou o uso da ferramenta para treinamentos e afirmou que a acusação veio de um profissional que foi demitido do Sochi antes dele.
Imagem principal, da dir. para esq.: Cynthia Frelund, especialista em análises, NFL Network; Troy Vincent, Sr., vice-presidente executivo de operações de futebol americano da NFL; Tyler Austin, vice-presidente de vendas de automação inteligente, Zebra Technologies (reprodução: Linkedin/Zebra)

