O Rio de Janeiro vai receber este ano um supercomputador que será usado para desenvolver soluções de inteligência artificial para melhorar a vida na cidade. Isso é uma das diversas iniciativas da capital fluminense em torno do projeto Rio AI City, que visa torná-la um hub de inovação de IA, segundo o prefeito Eduardo Paes. Mobile Time conversou com a secretária municipal de ciência, tecnologia e inovação, Tatiana Roque, sobre a vocação do Rio para se tornar esse hub, os planos para a utilização do supercomputador e a importância da participação do poder público no desenvolvimento da IA para garantir que essa tecnologia reduza as desigualdades, em vez de ampliá-las.

Mobile Time – O prefeito Eduardo Paes quer transformar o Rio de Janeiro em um hub de inovação em inteligência artificial. A cidade tem vocação para isso?

Tatiana Roque – A gente costuma dividir esse projeto em duas partes. Uma voltada para o hardware e outra, para o software. Eu sei que essa divisão em tempos de IA não faz mais tanto sentido, mas é para fins didáticos. Então, um lado seria a infraestrutura necessária para IA: data center, supercomputador etc. O Rio de Janeiro tem muita vocação para isso porque tem instalações de ponta, principalmente na região do centro metropolitano, incluindo todas as instalações que foram construídas para as Olimpíadas. O Rio tem redundância, tanto de rede elétrica quanto de redes de comunicação, com cabos submarinos. Com redundância, garantimos estabilidade, que é importante para inteligência artificial.

Além de atrair data centers, estamos investindo em um supercomputador. O Rio se ofereceu para receber o supercomputador do Plano Brasileiro de IA (PBIA). A prefeitura está comprando um supercomputador da NVIDIA para desenvolver nossas próprias ferramentas locais. E aí entra a outra metade, que é a parte de desenvolvimento em IA. A gente está criando um consórcio de universidades voltado para desenvolver as ferramentas de que a cidade necessita e que vão rodar nesse supercomputador. Essa é uma parceria com o CBPF. Mas estão envolvidas também outras universidades, como Coppe/UFRJ, PUC-Rio e IMPA. A ideia é desenvolver ferramentas soberanas de IA no Rio de Janeiro.

O Rio tem uma concentração de cérebros muito privilegiada, essa é outra vantagem da cidade.

Quais as especificações desse supercomputador e quando ele será instalado?

São cinco DGX com placas B200. Vamos fazer uma licitação primeiro. Vai ser instalado no Porto Maravilha, então precisa criar um uma infraestrutura lá para recebê-lo. Espero que no segundo semestre já esteja instalado.

Sobre as ferramentas, você já tem ideia do que que querem construir em cima desse supercomputador?

Estamos fazendo um levantamento aqui na prefeitura de todos os setores que estão utilizando IA ou que gostariam de utilizar. A gente tem um data lake muito organizado. Então, a ideia é que isso sirva para a gente mesmo desenvolver essas ferramentas.

Isso já vem sendo feito pela prefeitura em algumas áreas. Por exemplo, com o Civitas, que é uma solução de integração inteligente das câmeras da cidade, cujas imagens são usadas na segurança pública. O Civitas usa uma solução de análise de imagens das câmeras que foi desenvolvida aqui.

Também estamos criando agora, junto com a Secretaria Municipal de Saúde, uma integração dos prontuários do sistema de saúde da prefeitura, que fará uso de IA.

E o Iplan-Rio tem um grupo de desenvolvedores que estão trabalhando agora na criação de um chatbot da cidade.

Ou seja, a prefeitura do Rio já tem tradição em desenvolver as suas próprias ferramentas.

Montamos um grupo de trabalho que reúne a subsecretaria de transformação digital, que é ligada à Casa Civil, a minha secretaria e o Iplan-Rio. Esse GT está fazendo o levantamento das necessidades da prefeitura em IA. A partir daí a gente vai identificar as demandas para serem atendidas por esse consórcio de universidades e empresas utilizando o supercomputador.

Vale mencionar também outros dois projetos: o Rio.IA, uma parceria com a ABDI, para mapear a demanda da indústria de IA; e o Desafio Rio, que é uma lista de 10 desafios da prefeitura para serem solucionados por empresas ou startups, recebendo um fomento. Se a solução for escalável, a prefeitura a adquire.

Poderia dar exemplos de desafios?

Sim, um deles é o seguinte: nos ajudar com a otimização das rotas dos caminhões da Comlurb. Outros desafios: monitoramento inteligente de segurança urbana, coleta de resíduos orgânicos e produção de bio-insumos, simulação de inundação em 3D, aprimoramento da previsão meteorológica, predição de necessidade de poda de árvores, cálculo de contingenciamento para processo judicial…

Você falou sobre a questão da soberania digital. Isso é uma discussão importante que passa tanto pela parte de infraestrutura quanto pela de software, especialmente no que tange os modelos fundacionais que estão por trás dos chatbots com IA generativa. Existem iniciativas hoje no Brasil de LMMs nacionais. A prefeitura do Rio pretende usar algum modelo nacional?

A gente está conversando com a Widelabs (criadora do Amazônia IA) para a solução dos prontuários que mencionei. A ideia é que a gente utilize modelos nacionais e modelos abertos, que podem ser internacionais. Eu estive há pouco tempo na Suíça, com o grupo que fez o Apertus, que é um modelo fundacional aberto.

Como evitar que a inteligência artificial aprofunde a desigualdade social na nossa sociedade em vez de reduzi-la?

A questão da desigualdade envolve uma preocupação que é a questão dos empregos. Claro que a IA pode substituir empregos que hoje estão com humanos. A gente precisa é ter um um controle social maior do que a IA tem oferecido. Essa é a minha opinião como pensadora. E a gente tem que evitar essa concentração exagerada do poder em algumas poucas empresas internacionais, que é o caso hoje. Por isso mesmo, o papel dos governos é muito importante. É bom que o país tenha o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. É bom que a prefeitura do Rio tenha um plano de desenvolvimento de inteligência artificial, justamente para que a gente tenha uma incidência maior do poder público sobre o desenvolvimento dessas ferramentas e consiga desconcentrar poder. Para que a IA não aumente a desigualdade, a gente precisa ter um uma participação pública maior no desenvolvimento de IA.

Há também o problema da falta de alfabetização digital da população brasileira, que se agrava ainda mais na era da IA, em que é cada vez mais difícil discernir o que é real…

Temos uma linha de atuação aqui da secretaria que é a democratização da tecnologia. As Naves do Conhecimento (espaços públicos mantidos pela prefeitura com cursos gratuitos de informática e acesso livre a computadores) são para isso. É um projeto criado pelo prefeito Eduardo Paes em 2012 e que a gente vem ampliando bastante. Temos várias políticas de inclusão digital, de letramento digital, de qualificação em tecnologia e agora integrando também a IA, justamente para que as pessoas saibam usar e saibam lidar com a informação gerada por IA.

Temos cursos nas Naves do Conhecimento nas regiões mais vulneráveis da cidade, na zona norte e na zona oeste. A gente inaugurou uma “Navezinha” agora na Rocinha. Essa é a principal política hoje da secretaria: a democratização da tecnologia. E as Naves de Conhecimento passaram por uma revitalização.

No que consiste essa revitalização?

É uma modernização que vai em duas direções. Primeiro é uma atualização do projeto pedagógico, para trazer novas tecnologias, como inteligência artificial, e problemas mais contemporâneos.

As pessoas saem dali mais qualificadas, mas elas precisam de uma ajuda para realmente entrar no mundo do trabalho, seja do ponto de vista da empregabilidade, seja na geração de renda com empreendedorismo. Então, essa ideia da modernização das Naves inclui fazer delas centros de empregabilidade e geração de renda, para dar uma porta de saída para as pessoas que se qualificam nos nossos cursos.

São cursos livres? De quanto tempo de duração?

São cursos livres. Tem curso de um dia, tem curso de seis meses, depende do do grau de aprofundamento

Quem é o público alvo?

Tem muitos idosos que fazem, por exemplo, curso de introdução em informática. Mas também temos cursos avançados de Python e de manutenção de computador. Tem até curso de Canva.

Qual é o curso mais popular?

Esses de informática básica para idosos. Os idosos têm mais tempo, então eles frequentam muito as Naves. Também são muito populares os cursos de jogos para crianças.

São quantas naves do conhecimento no Rio?

São 33 ao todo, sendo 12 naves grandes e várias naves satélites e as chamadas “Navezinhas cariocas”, que são naves menores. Quando eu assumi só tinham nove. Eu inventei esse projeto das Naves satélites e das Navezinhas cariocas. As Naves satélites são instaladas nas bibliotecas do Cieps. E as Navezinhas cariocas podem ficar em salas de associações de moradores, ou em qualquer lugar que tenha uma sala disponível.

Você tem ideia de quantas pessoas já passaram pelas naves?

Em termos de atendimentos são cerca de 400 mil por ano. Quando a pessoa se cadastra com seu CPF na recepção para utilizar a nave, isso conta como um atendimento. Isso inclui tanto pessoas que fazem os cursos quanto pessoas que usam as lan tables (espaço de computadores para uso livre).

Hoje em dia, as pessoas têm o acesso à internet muito dependente do celular, até porque elas não têm nem computador em casa. A maioria dos usuários das Naves não têm computador. Só usa celular. Então a ideia é justamente prover um acesso à internet de maior qualidade.  As crianças, por exemplo: tem jogos que elas não não conseguem jogar porque precisam de computador. Então elas ficam loucas quando chegam na nave e encontram bons computadores para jogar. A gente acha que jogar é uma maneira também de aprender. Mas claro que não qualquer jogo.

Existe um termo que se usa muito hoje em dia que é o da “conectividade significativa”. Trata-se de uma conectividade com mais qualidade. Qual é a sua avaliação hoje da conectividade significativa no Rio de Janeiro? Você mede a alfabetização digital da população carioca?

A gente mede a partir das Naves do Conhecimento. A conclusão é que a conectividade significativa é muito baixa, justamente pela extrema dependência do celular, pelo fato de as pessoas não terem acesso a computadores, nem a internet de boa qualidade. Então a Nave é essencial para isso, para tornar a conectividade mais significativa.

Foto no alto: Tatiana Roque, secretária municipal de ciência, tecnologia e inovação do Rio de Janeiro (crédito: Divulgação)

 

*********************************

Receba gratuitamente a newsletter do Mobile Time e fique bem informado sobre tecnologia móvel e negócios. Cadastre-se aqui!

E siga o canal do Mobile Time no WhatsApp!