Quais mudanças a inteligência artificial levará para o setor elétrico no Brasil nos próximos cinco anos? A IA não é uma novidade para o setor de utilities, mas com o avanço de técnicas como machine learning e IA generativa, em especial, o impacto será em diferentes áreas, como excelência operacional, modelo de trabalho e tomadas de decisão cada vez mais autônomas. A IA também vai entrar como uma camada de inteligência, terá capacidade de reagir e simular volume de dados, e vai ajudar as empresas do setor elétrico a estarem mais resilientes e com governança.
Essas projeções foram feitas durante painel dedicado à tecnologia no UTCAL Summit 2026, com os especialistas Clerinson Sant’Ana, head de soluções de arquitetura soluções para agricultura, automotivo e manufatura da AWS; Vivian Marcello, coordenadora de big data, analytics e IA da CPFL; e Ernest Wohnung, fundador e diretor-executivo Minerva Institute for Industrial AI/AS. O evento aconteceu no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, 19, e segue até sexta, 20.
Para Sant’Ana, a IA vai impactar o setor operacional: “A gente vai poder ter um impacto muito maior da perspectiva operacional, capacidades de reagir a intempéries, de demanda, capacidade de reagir à necessidade de simular volume de dados que a gente talvez não tenha condição de fazer, detectar condições que talvez a gente não tenha percepção agora.”
Segundo o executivo da AWS, a grande revolução virá com a ascensão dos “sistemas agênticos”, em que a IA passará a tomar decisões conversando diretamente com outros sistemas, sem intervenção humana. “A gente tem dados mostrando que em média 15% das decisões corporativas até 2028 vão ser tomadas em relação a sistemas agênticos”, destacou Sant’Ana.
Vivian Marcelo, coordenadora de big data e analytics da CPFL Energia, reforçou que o setor viverá uma escalada na qual o modelo de trabalho será amplamente alterado. Ela apontou que as empresas deixarão de usar a inteligência artificial apenas em decisões analíticas pontuais para adotá-la de forma integrada, resultando em uma “grande tomada de decisão mais autônoma daqui pra frente”.
Já Wohnung, prevê que a inteligência artificial deixará de ser vista como uma ferramenta de TI para se tornar uma “camada de inteligência” em todas as frentes de trabalho, garantindo uma transição de operações reativas para um modelo de planejamento e resiliência preditiva.
Em cinco anos, Ernest espera que a indústria se beneficie enormemente dos chamados “gêmeos digitais”, capazes de replicar e simular redes de transmissão em ambientes virtuais, além de introduzir sistemas autônomos e robótica avançada nas operações físicas.
Onde estarão os ganhos iniciais com IA?
Apesar de vislumbrarem um futuro autônomo, os painelistas são pragmáticos quanto ao ponto de partida. Os retornos mais rápidos e expressivos dependerão de alicerces bem construídos. De acordo com Wohnung, o primeiro e maior ganho está na estruturação das informações, visto que “a IA se alimenta de dados”. O especialista disse que os maiores sucessos práticos virão da organização de “silos de dados” e de sua aplicação direta em previsões avançadas de demanda, geração e monitoramento de ativos nas frentes de transmissão e distribuição. Por outro lado, o atendimento ao consumidor já é um setor maduro no uso de chatbots, onde os retornos dessa nova geração de IA tendem a ser menores.
Para Sant’ana, os ganhos iniciais não estão na tecnologia em si, mas em atacar problemas de negócios muito específicos que tragam impacto imediato. O executivo argumentou que as empresas precisam fugir do “vale das PoCs” (provas de conceito que nunca ganham escala) e investir em projetos que se paguem rapidamente (“self-funding”) para gerar economia capaz de bancar a evolução e o amadurecimento tecnológico interno.

Da direita para a esquerda: Clerinson Sant’Ana, head de soluções de arquitetura para agricultura, automotivo e manufatura da AWS; Vivian Marcello, coordenadora de big data, analytics e IA da CPFL; e Ernest Wohning, diretor-executivo do Minerva Institute for Industrial AI/AS. Crédito: Isabel Butcher/Mobile Time
Na visão da coordenadora de big data, analytics e IA da CPFL, as vitórias de curto prazo aparecem quando as empresas resolvem “uma dor latente do ambiente”, especialmente falhas operacionais que sejam escaláveis. Para garantir esses ganhos, a executiva explica que os projetos precisam de um “dono de negócio” engajado, mudanças reais nos fluxos de trabalho da companhia e dados devidamente acessíveis. Ela ilustra esse potencial interno de forma prática: mapeamentos recentes mostraram que mais de 3 mil dos 8 mil computadores na CPFL possuem a linguagem Python instalada. Isso demonstra que os próprios funcionários já estão buscando as automações e ganhos de IA, cabendo às empresas governar e impulsionar essas iniciativas com segurança.
As utilities estão se preparando para a IA?
Apesar do forte potencial, as concessionárias de energia enfrentam barreiras que não se resolvem apenas com poder computacional. Segundo os painelistas, a tecnologia já não é o problema; o verdadeiro desafio reside na cultura e na regulamentação corporativa.
Marcello apontou que a falta de um “aculturamento” técnico é uma questão crucial. As áreas de negócios querem implementar a IA, mas muitas vezes não compreendem os reais potenciais e exigências da ferramenta. O engajamento precisa vir de cima, da camada executiva, mas as empresas também esbarram na burocracia do setor.
“Hoje a gente tem uma regulamentação forte que não incentiva a aplicação de fato de inteligência artificial no nosso setor”, alertou, indicando que esse será um debate obrigatório com os órgãos reguladores.
Sant’Ana fez uma analogia direta sobre as dores dessa adoção corporativa: coordenar a inteligência artificial em uma companhia do setor é como “fazer reforma de um apartamento morando dentro”. Para ele, as utilities falham na preparação quando mantêm processos burocráticos para o acesso e uso dos dados. O executivo defendeu que a mudança real na governança e nos processos exige o comando e a estratégia direta dos membros do conselho, sem os quais a IA nunca muda o ponteiro do negócio.
Por fim, Ernest faz um alerta de segurança urgente sobre a falta de preparo. Ele observou que já existe um fenômeno de “Shadow IT” (TI invisível): se as empresas não providenciarem ferramentas seguras de IA e governança adequada para facilitar a rotina dos funcionários, eles simplesmente pagarão “uma assinatura de US$ 20” em plataformas externas e vão usar IA por conta própria. Para o especialista, escalar a IA no setor elétrico requer unir o aculturamento das lideranças corporativas à capacitação massiva e segura das equipes da linha de frente.

