Nas eleições 2026, as campanhas presidenciais de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) travam uma guerra digital, mas com performances muito diferentes dependendo da plataforma. Enquanto o presidente tem melhor desempenho no WhatsApp, no X e no Google, o senador lidera no Instagram e no TikTok.
Antes de trazer os números e aprofundar a análise, cabe destacar a descentralização das duas campanhas no ambiente digital. Embora ambos os candidatos tenham suas equipes oficiais de marketing eleitoral, boa parte das ações nas plataformas são lideradas por atores próximos, mas independentes. Alguns deles, como os deputados federais André Janones (Rede-MG), do lado de Lula, e Nikolas Ferreira (PL-MG), aliado de Flávio, têm realizado ações cujo impacto digital supera aquele das campanhas oficiais.
Para esta matéria, foram analisados dados dos perfis oficiais dos candidatos e desses dois aliados (Janones e Nikolas) no WhatsApp, no Instagram e no TikTok, além dos resultados de buscas no Google e no X.
Esquerda à frente no WhatsApp
No WhatsApp, o desempenho dos canais de Janones e de Lula está muito superior àquele do adversário. O deputado da Rede criou um canal chamado Exército do Lula, no qual transmite “missões” para os seguidores, que chama de “soldados”. O canal tinha 7,4 milhões de participantes na tarde desta quarta-feira, 21. Somente na noite anterior ganhou mais 1,5 milhão depois que Janones determinou a missão de superarem a marca de 7 milhões.
Janones é o administrador do canal. Ele publica mensagens de texto, de áudio e de vídeo, além de links para conteúdos em outras plataformas – principalmente vídeos do Instagram. Cada publicação no canal costuma ter entre 50 mil e 100 mil reações, e algo entre 10 mil e 50 mil compartilhamentos. Algumas “explodem”, como diz o deputado federal, como a convocação para trazerem novos soldados: esse post estava com 176 mil curtidas e 1,9 milhão de compartilhamentos nesta tarde.
Para efeito de comparação, o canal oficial do Lula no WhatsApp tem cerca de um quarto do tamanho. São 2,2 milhões de seguidores. Cada post soma entre 20 mil e 30 mil reações, e algo entre 10 mil e 20 mil compartilhamentos.
A direita não conseguiu ocupar o WhatsApp com a mesma intensidade. O canal oficial de Flávio tem apenas 255 mil seguidores e registra cerca de 1 mil reações e 1 mil compartilhamentos por post.
Para reagir à iniciativa de Janones, Nikolas criou o canal “Tropa do Flávio”, que está com 2,1 milhões de seguidores. Uma diferença interessante é que os participantes desse canal compartilham mais do que reagem. Cada post tem algo entre 5 mil e 15 mil reações e entre 10 mil e 30 mil compartilhamentos, geralmente. Há exceções para cima ou para baixo, como o recente vídeo de Nikolas sobre o Nordeste, com 63 mil compartilhamentos.
Direita lidera no Instagram e no TikTok
No Instagram e no TikTok o cenário se inverte. É a direita quem apresenta melhor performance, sob a liderança do perfil de Nikolas nas duas redes sociais.
No Instagram o jovem deputado federal mineiro soma 24,9 milhões de seguidores. A maioria dos videos no seu feed têm em torno de 2 milhões a 3 milhões de visualizações cada. Nos stories, os vídeos ficam entre 30 milhões e 50 milhões de visualizações. O vídeo com foco no eleitorado nordestino chegou a 153 milhões.
No TikTok, ele tem 10 milhões de seguidores e 204,8 milhões de curtidas. Muitos dos seus posts somam mais de 1 milhão de visualizações, e alguns ficam perto dos 10 milhões, como um no debate da Band (11,8 milhões).
Por sua vez, o principal perfil oficial de Flávio Bolsonaro no Instagram tem 15,1 milhões de seguidores. A maioria dos seus posts fica na casa de1 milhão de visualizações. Nos stories, costumam ter entre 5 milhões e 15 milhões. Alguns superam a casa dos 30 milhões, como um negando o fim do Bolsa Família, visto 36 milhões de vezes.
A esquerda está atrás nessas duas redes. Embora o perfil de Lula no Instagram tenha numericamente mais seguidores (18,2 milhões) que o do seu adversário, o engajamento é bem menor. Os posts de Lula alcançam entre 150 mil e 500 mil visualizações cada. Alguns poucos superam a barreira de 1 milhão, como o vídeo sobre o desafio da quebra de sigilo, com 2 milhões. Nos stories, a maioria dos vídeos publicados por Lula somam entre 3 milhões e 10 milhões de visualizações, ainda abaixo de Flávio e de Nikolas. Poucos superam a barreira dos 30 milhões, como um sobre o ator Paulo Gustavo (38,5 milhões).
Ao contrário do WhatsApp, no Instagram Janones tem menos seguidores que Lula: 6,3 milhões. Mas consegue um engajamento melhor que o do presidente. Cada video no seu feed é visto cerca de 1 milhão de vezes. A maioria dos seus stories tem entre 5 milhões e 10 milhões de visualizações, e alguns registram picos, como um sobre o fim da escala 6×1, visto 22 milhões de vezes.
No TikTok, o perfil de Lula tem 6,2 milhões de seguidores e acumula 86,8 milhões de curtidas. Cada post tem cerca de 7 mil visualizações. De novo, Janones tem menos seguidores que o presidente: são 2 milhões e 20,6 milhões de curtidas. Contudo, assim como no Instagram, seus conteúdos conseguem maior audiência. Seus posts são vistos entre 100 mil e 1 milhão de vezes, e alguns passam de 2 milhões. Um vídeo fixado sobre o fim da escala 6×1 foi visto 10,9 milhões de vezes.
Note-se que publicações no Instagram e no TikTok podem ser impulsionadas mediante pagamento às plataformas, impactando seu desempenho. Além disso, foram feitas acusações no TSE de que a Meta, dona do WhatsApp e do Instagram, não estaria atuando de forma isonômica na exibição de conteúdo eleitoral das campanhas. O Comitê de Supervisão da Meta reconheceu esta semana que cometeu erros nas eleições brasileiras.

Janones comanda buscas no Google e assuntos no X
Nos últimos dias, o “general” Janones direcionou seu exército para influenciar os resultados de buscas no Google e de assuntos no X. Ele obteve sucesso nessa missão.
Na tarde desta quarta-feira, buscas no Google iniciadas com o nome “Flávio” recebem sugestões de complemento negativas para o candidato do PL, como “Flávio Bolsonaro Ana Clara”; “Flávio Bolsonaro milícia”; “Flávio esquema pandemia” e “Flávio Bolsonaro mansão”. Havia algumas sugestões neutras, mas nenhuma positiva. Já uma busca iniciada por “Lula” recebe sugestões como “Lula vai no debate da Globo” e “Lula abriu o sigilo”, nenhuma na lista era negativa.
Análise: ensaio para 2030
A mobilização digital das campanhas motiva também a mobilização nas ruas e vice-versa. Os ambientes digital e físico não são isolados. Um interfere no outro. As campanhas nas ruas geram cortes para as redes sociais. As campanhas nas redes sociais animam os militantes a irem para as ruas.
O mais próximo que o Brasil já viu dessa simbiose foi nas manifestações de junho de 2013, no impeachment da Dilma em 2016 e na eleição de Bolsonaro em 2018. Mas, nesses três momentos históricos, um lado jogou sozinho, enquanto o outro assistia atordoado. Foram goleadas. Desta vez é diferente. A esquerda aprendeu a fazer campanha digital e surpreendeu o adversário. A direita acordou nos últimos dias e vem tentando se recuperar na partida. É a primeira vez que temos um jogo movimentado e relativamente equilibrado no ambiente digital.
Outro ponto a ser acompanhado é a atuação política de influenciadores digitais. Em 2026, eles protagonizaram as eleições para as casas legislativas, vide as votações expressivas de figuras como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano, Ana Elisa, Guilherme Cortez e André Janones. O próximo passo natural é disputarem cargos executivos, talvez para prefeituras em 2028 e para governos estaduais e presidência em 2030.
Será que estamos testemunhando na campanha de 2026 um ensaio do que virá em 2030? Hoje temos influenciadores digitais como principais articuladores nas redes sociais das campanhas presidenciais. Talvez daqui a quatro anos veremos esses mesmos influenciadores (ou outros que ainda vão surgir) se enfrentando diretamente nas urnas e nas telas pelo próximo mandato presidencial.


