A maioria das escolas brasileiras ainda não conseguiram se adequar à lei para atender devidamente seus estudantes com deficiência. Para ajudá-las, uma startup chamada Vinculo criou uma plataforma com inteligência artificial capaz de adaptar o conteúdo pedagógico de acordo com as necessidades de cada aluno e preparar a documentação exigida pela lei. A solução já atende a mais de 320 escolas que somam 2,3 mil professores e 10 mil alunos no Brasil inteiro. E deve superar a marca de 20 mil estudantes até o final do ano.
Desde janeiro de 2016, quando entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), todas as escolas brasileiras, sejam públicas ou privadas, são obrigadas a aceitar a matrícula de pessoas com deficiência (PcDs) e a preparar um Plano Educacional Individualizado (PEI) para cada uma. E a partir de outubro de 2025, com a publicação do decreto 12.686, também precisam preparar o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), que leva em conta não apenas o aspecto pedagógico, mas também a infraestrutura da escola para receber as pessoas com deficiência. Além disso, a lei determina que o atendimento a cada criança não é mais definido simplesmente pelo seu laudo médico, mas por um estudo de caso a ser elaborado pela escola.
“Há um crescimento exponencial de alunos com deficiência dentro do ambiente escolar regular. Há 4 milhões de estudantes PcDs matriculados, e até 2030 serão10 milhões. As escolas não estão sabendo lidar com isso e não podem negar a matrícula”, explica Rafael Anselmo, fundador da Vinculo e ele próprio pai de um menino de 10 anos com Síndrome de Down, em conversa com Mobile Time.
A publicação do decreto em 2025 fez aumentar significativamente a procura pela solução da Vinculo, que cresceu 16 vezes nos últimos 12 meses. “Já era difícil para as escolas produzir o PEI. Agora também precisam fazer o estudo de caso e o PAEE”, acrescenta.
Vinculo: como funciona?
A plataforma é para ser acessada pelos professores e profissionais de psicopedagogia da escola. É criada uma conta para cada aluno PcD na qual são adicionados documentos como seu laudo médico (se houver) e relatórios pedagógicos sobre o seu desenvolvimento escolar. A partir daí, cruzando com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a plataforma gera o PEI daquele estudante. Somando-se também dados sobre a escola, a solução produz o PAEE. O que antes levaria meses, pode ser feito em poucos dias. “Temos um escola que fez mais de 100 PEIs somente no primeiro bimestre”, relata Anselmo.
O professor, por sua vez, pode subir na plataforma o seu plano de aula e pedir para que seja adaptado individualmente para cada aluno PcD em cada turma. A adaptação também pode ser feita de forma avulsa para cada atividade proposta, levando em conta as características de cada aluno e suas habilidades acadêmicas descritas em seus relatórios individuais presentes na plataforma. Tanto texto quanto imagens são ajustados pela solução com IA.
A plataforma é acessível via web no desktop ou pelo celular com um aplicativo Android e iOS. Os professores costumam preferir pelo celular: podem tirar foto de uma atividade em um livro e receber de volta a versão adaptada para um estudante específico.

Print screens da plataforma da Vinculo (crédito: divulgação)
Conteúdo para quaisquer necessidades
A adaptação é feita de acordo com a necessidade de cada estudante. Para aqueles com TDAH, são elaborados enunciados mais curtos e com palavras de comando em negrito, para atrair a atenção, por exemplo.
Para alunos com autismo, pode-se aproveitar um tema de hiperfoco de seu interesse e incluí-lo no enunciado.
Para estudantes cegos, é possível produzir o conteúdo em braile e imprimir em uma impressora especial.
A plataforma também pode ser utilizada para adaptar conteúdo para crianças com outras dificuldades que não sejam uma deficiência física ou cognitiva, como, por exemplo, uma questão de vulnerabilidade social, aponta o executivo.
Além disso, a plataforma conta com um assistente virtual com IA, chamado de “Apoio Inteligente”, com o qual o professor tira dúvidas através de linguagem natural. É usado um LLM próprio, construído a partir do Llama, da Meta e treinado pela Vinculo.
Pelo uso da plataforma, a Vinculo cobra da escola uma mensalidade por aluno cadastrado. O valor médio é de R$ 25 por estudante.
Foto no alto: Rafael Anselmo, cofundador da Vinculo (crédito: divulgação)


