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Ilustração: La Mandarina Dibujos/Mobile Time

O prejuízo contábil de R$ 43 bilhões e o recente pedido de recuperação judicial da Americanas S.A deve afetar a oferta de crédito para empresas do setor do varejo em 2023. Essa é a previsão que foi apresentada por Fernanda Rezende, diretora sênior de corporate da Fitch Ratings.

“Em relação a Americanas, a disponibilidade de crédito no setor deve ser monitorada em um curto prazo, uma vez que todos esses recentes acontecimentos podem afetar a confiança do consumidor e dos investidores para o setor”, afirmou a executiva em live nesta terça-feira, 24. “O evento da Americanas pode trazer desconforto para o investidor assumir uma posição de crédito ou elevar o custo de captação de algumas empresas. Mas não é algo que entendemos que vai se sustentar no longo prazo. Principalmente nos maiores players do setor”, completou.

Vale lembrar, os varejistas utilizam crédito para melhorar a logística, comprar insumos junto aos fornecedores, mas também para sustentar operações de oferta de crédito aos seus consumidores, como o Buy Now, Pay Later (BNPL).

“Olhando o lado positivo, essas empresas devem preservar uma liquidez saudável ao longo do ano”, estima a profissional. “Essas varejistas têm conseguido emitir dívidas de longo prazo no mercado local e contam com recebíveis de cartão de crédito e níveis de garantia que ajudam a reduzir o risco de financiamento. Essa flexibilidade financeira permanece como importante suporte para as classificações”, afirmou.

Rezende lembrou que o varejo é o segmento “mais exposto ante o cenário desafiador” da economia brasileira. Recorda ainda que as varejistas tiveram um desempenho inferior ao longo do segundo semestre no ano passado. Contudo, a diretora da agência de crédito prevê  “melhora moderada” nas margens, “menor pressão” no capital de giro e maior disciplina em relação aos investimentos neste ano.

Nota de crédito

A executiva da Fitch não vê possibilidade de rebaixamento da nota de crédito para a maioria das grandes empresas do varejo, uma vez que a maioria dos players “têm alavancagem elevada acima do gatilho de rebaixamento”. Contudo, o atual ambiente de negócios eleva o risco daquelas empresas com indicadores fracos ou empresas que estão com perspectiva negativa. Entre essas companhias, Rezende exemplificou com Guararapes (Riachuelo) e da C&A.

“Nesse ambiente de negócios mais adverso, a necessidade de ajustar investimentos e custos, será chave para a preservação do perfil de crédito das empresas. A Fitch projeta que este ano, a maioria das varejistas brasileiras importará fluxo de caixa livre negativo e em um elevado grau de incerteza, o nosso cenário base prevê melhora das operações do fluxo de caixa como um todo. Seguindo repasse do aumento dos custos dos preços e a redução dos estoques elevados”, estima a executiva.

Por sua vez, Rafael Nascimento, diretor de instituições financeiras na Fitch, estima que os bancos que deram linhas de crédito a Americanas S.A, não encontrarão problemas materiais ou risco de redução de nota. Recorda que em casos recentes, como a recuperação judicial da Oi e de empresas investigadas na Lava Jato, os bancos provisionavam (diluíam o impacto da divisão em seu próprio balanço) entre 30% e 50% do valor.

“Das entidades que analisamos, vemos espaço no balanço dos bancos para provisionar. Os bancos carregam um ‘colchão’. O que vamos precisar olhar é que parte do colchão vai ser provisionado para absorver (o impacto) ‘Americanas’. Se será uma provisão nova e em qual velocidade. Se será no quarto trimestre de 2022 ou será dividido ao longo de 2023”, disse Nascimento. “Então, é o cenário com pressão de resultado um pouco mais forte em um trimestre, mas a gente não trabalha com um cenário de rebaixamento por exposição às Lojas Americanas”, concluiu.

Entenda – Caso Americanas

O Caso da Americanas estourou no dia 11 de janeiro deste ano com a publicação do fato relevante “questões contábeis e alteração na administração” que indicava “inconsistências contábeis” de R$ 20 bilhões e a saída do CEO Sergio Rial e de seu diretor de relação com investidores, André Covre. Os dois executivos tinham assumido suas posições nove dias antes.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu três processos administrativos para analisar os fatos no dia 12 de janeiro. Outros quatro processos foram abertos pela CVM nos dias seguintes e a autarquia passou a atuar junto com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal para investigar a companhia e suas ações. E o Procon-SP notificou a Americanas no dia 13 de janeiro para entender o impacto da inconsistência contábil para os consumidores, uma vez que a companhia teve 9,5 mil queixas registradas apenas em 2022.

Ainda no dia 12 de janeiro, Rial participou de videoconferência com o BTG e afirmou que a dívida da empresa era maior que aquela apresentada no balanço. No dia 18 de janeiro, o BTG Pactual, um dos bancos com maior exposição junto a Americanas, pediu e conseguiu um bloqueio de R$ 1,2 bilhão da varejista por meio do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Isso ocorreu após uma troca de farpas na imprensa entre o BTG e o 3G Capital, principal acionista da varejista.

Com novos diretores empossados, a Americanas entrou com um pedido de recuperação judicial e divulgou o seu real rombo no dia 19 de janeiro: R$ 43 bilhões. Isso ocorreu basicamente devido à rápida deterioração do caixa da empresa com apenas R$ 800 milhões para pagar dívidas e fornecedores. As agências de crédito Fitch Ratings e S&P reduziram a nota da Americanas para o nível mais baixo, D de default (quando há dívida não paga ou pedido de falência/recuperação judicial). Na Moodys a nota foi para Ca, dois antes do pior dentro da agência.

No episódio mais recente, na última segunda-feira, 23, a Vibra Energia decidiu deixar sua participação na joint-venture Vem Conveniência, essa feita em parceria com a Americanas que explorava varejo por meio das lojas Local e BR Mania.